Por que Data Centers são importantes? E quais os problemas?
Guia do Adulto Premium te explica as polêmicas em torno das estruturas que sustentam a inteligência artificial. Crédito: Larissa Burchard/Estadão
O Congresso acaba de aprovar o Redata, regime especial de tributação estruturado para tornar o Brasil competitivo na crescente disputa global por data centers. Se sancionado nos termos de sua aprovação, o programa reduzirá substancialmente o ônus fiscal sobre a importação e aquisição de equipamentos inerentes a essas estruturas.
O tema pode soar como uma exclusividade de engenheiros e técnicos, mas não é. No estágio atual da economia, a capacidade computacional consolidou-se como fator de infraestrutura primária. Da mesma forma que portos acompanharam a expansão do comércio marítimo e cabos submarinos viabilizaram a globalização das comunicações, os data centers formam a infraestrutura crítica que sustenta a expansão da inteligência artificial.
O Brasil chega tarde nessa corrida, mas com vantagens competitivas. E chega em um momento peculiar, no qual economias centrais (que primeiro abraçaram o fenômeno) começam a descobrir os inconvenientes de hospedar a infraestrutura que o mundo inteiro deseja utilizar.

Não haverá empregos tecnológicos massivos nestes projetos: data centers são estruturas intensivas em capital e altamente automatizadas Foto: Adobe Stock
O Redata tenta corrigir uma desvantagem concreta: a maior parte do custo de implantação de um data center reside em equipamentos importados de alta tecnologia. A carga tributária brasileira transformava essa despesa em um obstáculo proibitivo num setor em que outras jurisdições disputam agressivamente investimentos com isenções, infraestrutura e energia barata.
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O texto aprovado pelo Senado acerta ao prever a suspensão de tributos federais sobre o maquinário, mas sem abdicar de contrapartidas. Exige-se que as empresas reservem ao menos 10% da capacidade beneficiada ao mercado brasileiro, apliquem 2% das aquisições em investimentos locais e cumpram rigorosos requisitos ambientais, notadamente a utilização de energia de fontes renováveis e a observância de índices máximos de consumo hídrico no resfriamento dos servidores. É um equilíbrio regulatório razoável para um setor no qual há bilhões de dólares esperando para serem alocados.
Para conseguir hospedar dados, a infraestrutura requer variáveis concretas: energia abundante, barata e confiável; cabos submarinos e de fibra óptica; segurança jurídica; e, a depender do resfriamento, acesso à água. O Brasil dispõe de boa parte dessa combinação, com um ativo frequentemente subestimado. Em 2025, 86,8% da eletricidade brasileira teve origem em fontes renováveis; dado positivo, mas há que se considerar a intermitência. Para gigantes da tecnologia pressionadas por metas climáticas globais, esse indicador pode se tornar um diferencial econômico decisivo.

Contudo, energia renovável não significa energia inesgotável. Data centers são consumidores eletrointensivos e inflexíveis. Servidores de inteligência artificial operam ininterruptamente e não aceitam falhas de transmissão como desculpa para indisponibilidade. A expansão dessas cargas exigirá investimentos paralelos pesados na estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN). Caso contrário, o Brasil terá a curiosa façanha de atrair a infraestrutura do século 21 apenas para descobrir que falhou em prover a infraestrutura elétrica do século 20.
Como desafio em todo o mundo, há ainda a restrição hídrica. O Redata exige um índice de eficiência igual ou inferior a 0,05 litro por kWh. A métrica é adequada, mas dependerá da capacidade fiscalizatória do Estado após o início das operações. A experiência norte-americana oferece uma advertência incontornável: durante anos, governadores competiram por data centers; hoje, comunidades nos EUA passaram a barrar novos projetos devido à exaustão de bacias hídricas, à competição por energia e ao risco de encarecimento das tarifas residenciais. A oposição local atrasou ou suspendeu, recentemente, cerca de 46 projetos, travando bilhões em investimentos anunciados. É o paradoxo similar ao das torres de telefonia: todos exigem sinal forte, desde que a antena seja instalada no quintal do vizinho.
Evitar esse gargalo no Brasil exige não incorrer em erros simétricos. Primeiro, há que se considerar que o país não pode renunciar à nuvem e à inteligência artificial. Tampouco podem ser mantidos subsídios indiscriminados. Os incentivos devem permanecer estritamente vinculados aos investimentos efetivos, às metas de eficiência e aos benefícios tecnológicos.
Nesse aspecto, surge oportunidade estratégica (e frequentemente ignorada): a exportação de capacidade computacional. Graças às recentes expansões regulatórias, as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) brasileiras, como a do Pecém, passaram a comportar data centers voltados à prestação de serviços ao exterior. A implicação macroeconômica é brutal: uma ZPE combinada a cabos submarinos transforma a matriz energética renovável brasileira em serviços digitais exportáveis, mesmo considerada a latência. Em vez de exportar commodities em contêineres, o Brasil passa a exportar processamento em gigabytes.
Convém, no entanto, ancorar as expectativas. Não haverá empregos tecnológicos massivos nestes projetos. Data centers são estruturas intensivas em capital e altamente automatizadas. O ativo estratégico está nos encadeamentos tecnológicos que essa infraestrutura trará: demanda por engenheiros, especialistas em segurança cibernética e fornecedores de cloud computing. Aqui, a exigência de reinvestimento local (2% no Redata) pode, se aplicada criteriosamente, fomentar todo um ecossistema nacional de software e inovação.
A cadeia de valor do comércio global mudou e abrange pauta transversal de segurança energética, política industrial e comércio exterior. O Congresso cumpriu seu papel ao desenhar o arcabouço fiscal inicial. O desafio, agora, é regulatório: transformar vantagem energética e incentivo fiscal em um polo de atração que posicione o Brasil não como mero hospedeiro da inteligência artificial alheia, mas como exportador na nova economia digital.
Fonte ONU