Como Escolher uma Universidade na Era da IA

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Na manhã de 2 de setembro, primeiro dia das aulas de outono nos Estados Unidos, o reitor do Harvard College, David Deming, enviou um e-mail aos alunos de graduação dizendo ser favorável a “incentivar ativamente o uso de IA quando ela puder aprofundar o aprendizado”.

Deming recomendou que os professores adotassem avaliações, como provas supervisionadas, nas quais os estudantes não pudessem recorrer à IA — isto é, usá-la para trapacear.

Também sugeriu incorporar a tecnologia às disciplinas de redação, em vez de tentar controlar seu uso. Alguns professores de humanidades, horrorizados, reagiram. A própria escrita, argumentou um deles, faz parte do processo de aprender a pensar.

Outro demonstrou preocupação de que o uso de IA pudesse desencorajar os estudantes de “desenvolver suas próprias respostas a obras de arte, música, literatura e filosofia”. Por enquanto, os professores de Harvard continuam definindo suas próprias regras.

Bem-vindos à era da incerteza (e até do caos) que recebe os calouros universitários de hoje, a turma de 2030.

As universidades na era da IA

Faculdades e universidades estão sendo obrigadas a repensar algo fundamental: como os estudantes devem aprender e que tipo de educação vai prepará-los para prosperar nesse novo mundo?

Escolher uma universidade, que já era uma tarefa difícil, ficou ainda mais complicado à medida que as instituições adotam abordagens muito diferentes em relação à IA — e ninguém sabe ainda qual delas vai funcionar.

No Amherst College, o presidente Michael Elliott está experimentando. No último ano, ele disse aos alunos de seu curso de literatura que poderiam usar IA em algumas atividades, desde que explicassem como haviam utilizado a tecnologia. “O que também foi uma experiência de aprendizado para mim, e não tenho certeza do que vou fazer este ano”, diz.

Segundo ele, os professores da Amherst estão “em todos os extremos” quando o assunto é IA: alguns estão voltando às provas em cadernos e aos exames orais, enquanto outros abraçam a tecnologia.

Por enquanto, a universidade pediu aos professores que deixem claro em seus planos de ensino o que é — e o que não é — permitido. “Ainda não temos uma grande estratégia para definir como vamos fazer isso.”

Como será o futuro do trabalho

Não é possível prever como serão o mercado de trabalho e o ensino superior daqui a quatro anos. “A única coisa com que podemos contar é que as coisas vão mudar”, diz Karen Brennan, professora Timothy E. Wirth de Prática em Tecnologias de Aprendizagem da Harvard Graduate School of Education.

Diante dessa incerteza, faz sentido começar a busca por uma universidade com aquilo que já sabemos sobre o que determina o sucesso educacional e, depois, fazer algumas perguntas sobre o futuro da IA, que detalhamos mais adiante nesta reportagem.

As universidades, afirma a professor, continuam sendo “um lugar maravilhoso para desenvolver” a capacidade de lidar com essas mudanças. “A IA não está tornando isso obsoleto — está apenas nos dando uma nova maneira de pensar sobre a importância e a necessidade da adaptabilidade.”

O manual de uso da IA está sendo escrito e reescrito em tempo real. Mas universidades e famílias que pensam no futuro devem fazer as grandes perguntas agora e voltar a elas à medida que surgirem evidências sobre o que realmente funciona. Estas são algumas das questões que estudantes e seus pais devem considerar.

A universidade tem regras claras para o uso de IA?

As universidades podem não chegar às mesmas conclusões, mas deveriam ao menos estar desenvolvendo políticas claras para o uso de IA, para que os estudantes saibam o que esperar — mesmo que as regras variem de uma disciplina para outra.

Por que a política de uma universidade importa? Porque os próprios estudantes estão exigindo isso. “A liderança estudantil tem pedido diretrizes e orientações”, diz Benjamin Hermalin, vice-chanceler e reitor acadêmico da University of California, Berkeley, onde os professores definem suas próprias regras para o uso de IA.

Embora não seja do “estilo de Berkeley” determinar como os professores devem lidar com uma nova tecnologia, ele afirma: “Acho que vamos evoluir lentamente para ter um pouco mais de padronização porque os estudantes realmente querem isso”. Em parte, acrescenta, eles querem essas regras porque temem que colegas que usam IA para trapacear levem vantagem.

Deming, de Harvard, levantou a mesma preocupação em seu e-mail aos alunos de graduação. Proibições de IA que não podem ser fiscalizadas, escreveu, criam “um dilema difícil para estudantes que não querem trapacear, mas também temem ficar para trás em relação aos colegas”. Harvard planeja desenvolver diretrizes neste ano.

A University of Michigan está tentando encontrar um meio-termo. Em 3 de setembro, a instituição divulgou um rascunho de princípios orientadores para o uso de IA em toda a universidade no ensino e na aprendizagem e convidou a comunidade acadêmica a fazer comentários antes da versão final.

Os planos incluem o uso “responsável e centrado nas pessoas” da IA, além de atenção à ética, integridade, proteção da privacidade e outros aspectos.

A melhor maneira de descobrir como o uso de IA realmente funciona em uma universidade é perguntar aos estudantes, aconselha Steve Fitzpatrick, professor de história no ensino médio, colaborador da Forbes e autor da newsletter no Substack Teaching in the Age of AI.

“Você aprende muito mais fazendo perguntas aos estudantes porque eles vão revelar coisas que podem estar fora do roteiro da universidade”, afirma. “Por exemplo: ‘Até que ponto os alunos colam aqui?’”

Os estudantes não são os únicos que estão aprendendo a usar a nova tecnologia. As famílias que estão pesquisando universidades devem perguntar o que a instituição está fazendo para ajudar os professores a acompanhar essas mudanças. E é importante olhar além de treinamentos pontuais ou de uma lista de ferramentas aprovadas.

Brennan afirma que os professores precisam de duas coisas: tempo para experimentar e apoio institucional que os ajude a aprender com o que outros professores estão fazendo, tanto dentro quanto fora da sala de aula.

“Pode parecer realmente assustador quando você não tem a oportunidade de experimentar as ferramentas, cometer erros ou praticar por conta própria”, diz. “Saber o que outras pessoas estão fazendo, poder compartilhar nossos experimentos, nossos sucessos e nossos fracassos — é isso que vai ajudar a ampliar nossa imaginação pedagógica.”

Os estudantes também devem fazer parte desse aprendizado e dessa experimentação. Em Harvard, os professores podem receber orientação individual e participar de workshops, enquanto, segundo ela, os próprios estudantes organizaram eventos e convidaram especialistas externos para o campus.

Durante uma visita à universidade, pergunte a um professor por um exemplo específico de como ele mudou uma atividade ou prova por causa da IA. Pergunte aos estudantes se os professores explicam os motivos por trás de suas regras para o uso da tecnologia, e se os alunos têm voz na definição dessas regras.

Vou aprender a usar IA independentemente da minha área de estudo?

Os estudantes não deveriam precisar cursar ciência da computação para adquirir experiência com IA. A University of Florida oferece um modelo.

Depois de receber uma doação de US$ 70 milhões (R$ 356 milhões) de Chris Malachowsky, cofundador da Nvidia e ex-aluno da instituição, a universidade criou o que chama de “AI University”, com o objetivo de fazer com que todos os formandos saiam da instituição com algum conhecimento de inteligência artificial.

Atualmente, oferece mais de 200 disciplinas relacionadas à IA em diferentes áreas. Quase 70% dos estudantes que se formam fizeram pelo menos uma delas, afirma Hans van Oostrom, diretor da iniciativa acadêmica de IA. “Estudantes de todas as áreas precisam saber alguma coisa sobre IA”, diz. “Não é algo restrito à ciência da computação e à engenharia.”

Mas uma longa lista de disciplinas não significa necessariamente que os estudantes estejam aprendendo a usar a tecnologia de maneira responsável.

A Arizona State University está avançando agressivamente na adoção de IA. “Acho que nossa filosofia, de forma bastante simples, tem sido nos envolver cedo e com frequência”, diz Anne Jones, vice-reitora de graduação da ASU.

Mas Jones afirma que simplesmente ter usado ChatGPT, Claude ou outra ferramenta de IA generativa não torna um estudante alfabetizado em IA. A ASU espera que os alunos compreendam como a tecnologia funciona, avaliem seus vieses e limitações e considerem se utilizá-la em determinada situação está de acordo com seus valores pessoais.

Da mesma forma, é importante que os estudantes aprendam a usar a IA de maneira eficaz dentro de suas próprias áreas — algo que será muito diferente para um estudante de química e para um roteirista.

Isso significa que os candidatos devem olhar além de saber se uma universidade oferece uma graduação relacionada à IA ou se divulga o desenvolvimento de um chatbot próprio.

Jones sugere perguntar como é o debate mais amplo da instituição sobre IA, quais medidas concretas foram tomadas e como essas decisões afetarão um estudante na área que ele pretende estudar. “Ser capaz de entender tanto a filosofia institucional quanto obter alguns exemplos concretos é o que realmente dá às pessoas confiança de que existe conteúdo por trás do discurso”, afirma.

Vou desenvolver habilidades que continuam importantes ao lado da IA?

A necessidade de desenvolver “pensamento crítico” para ter sucesso na era da IA é tão mencionada que corre o risco de soar como um clichê. O mesmo vale para a necessidade de desenvolver habilidades de interação humana.

O orientador universitário Brennan Barnard sugere perguntar: “Quais são as formas pelas quais a universidade está preparando os estudantes para essas habilidades humanas duradouras?”

“Essas são as chamadas soft skills, mas elas não têm nada de fáceis. Na verdade, são incrivelmente difíceis”, diz Elliott, de Amherst, apontando para a capacidade de trabalhar com pessoas de diferentes origens, persuadir uma audiência e ouvir.

“Você aprende essas coisas estando frente a frente, em comunidade, com outras pessoas”, afirma. “Meu conselho para as famílias seria perguntar: a instituição está tentando usar a IA como uma muleta, em vez de como uma ferramenta?”

Pergunte sobre disciplinas específicas voltadas ao desenvolvimento dessas habilidades. A Stanford University, por exemplo, está ampliando seu programa obrigatório Civic, Liberal and Global Education (COLLEGE) para os calouros, que passará de dois para três trimestres a partir de 2027.

Parte do currículo de formação geral, o programa convida os estudantes a refletir sobre “como ideias, evidências científicas e arte podem contribuir para seu desenvolvimento pessoal” e os coloca em contato com ideias que vão além das áreas que escolheram estudar. “A universidade é mais do que conseguir o primeiro emprego”, diz Dan Edelstein, diretor do programa. “É claro que isso é importante, mas não é tudo o que uma formação universitária pode fazer. Ela realmente prepara você para a vida.”

Esta universidade vai me preparar para um mercado de trabalho imprevisível?

Talvez não exista uma graduação à prova da IA. Elliott desconfia de qualquer pessoa que prometa que determinada área é um caminho garantido para o sucesso econômico. “O que você escolhe como graduação vai importar ainda menos no futuro do que importa hoje”, afirma.

Barnard aconselha os estudantes a seguirem seus interesses genuínos, mas preservando “muitas possibilidades de escolha”. Isso pode significar fazer uma dupla graduação, cursar disciplinas de diferentes áreas ou desenvolver habilidades em pesquisa, escrita e análise de dados.

Antes de escolher uma universidade, pergunte quão fácil é mudar de curso, adicionar uma segunda graduação ou experimentar diferentes áreas sem atrasar a formatura.

O departamento de orientação profissional também merece uma visita. “Na minha opinião”, diz Barnard, “ele deveria ser uma parada obrigatória em qualquer visita a uma universidade”.

Pergunte como a instituição está respondendo às mudanças nas contratações para cargos de entrada e quais serviços oferece para conectar os estudantes a estágios muito antes da formatura.

Na Drexel University, mais de 90% dos estudantes participam de seu programa de co-op, em que o estudante alterna períodos de aulas na universidade com períodos de trabalho remunerado em empresas ou outras organizações, afirma o presidente Antonio Merlo.

Os alunos podem realizar até três trabalhos remunerados de seis meses, a partir do segundo ano, alternando entre a sala de aula e o mercado de trabalho. À medida que os empregadores cortam vagas de entrada, Merlo argumenta: “Nossos estudantes [já] passaram pela porta de entrada”.

Melissa Loble é diretora acadêmica da Instructure, empresa responsável pelo Canvas — plataforma de aprendizagem on-line na qual os professores publicam tarefas e notas e os estudantes entregam seus trabalhos. Ela sugere questionar à universidade: “Como vocês usam a IA para me preparar melhor para o que vou fazer depois de me formar?”

Para Elliott, as famílias não devem confiar em uma universidade que finge saber a resposta. “Instituições que são honestas sobre o fato de estarmos vivendo um momento de incerteza, para mim, têm uma vantagem sobre instituições que afirmam ter clareza”, diz.

E aprender a conviver com o desconforto de não saber a resposta também é uma parte importante da educação. “Descobrir como encontrar prazer na incerteza será uma habilidade valiosa para a vida.”

*Reportagem adicional de Asia Alexander.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com



FonteForbes

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