Dia dos Pais: o orgulho de ser filho de Bayard Demaria Boiteux

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Por Bayard Do Coutto Boiteux

Neste Dia dos Pais, não quero escrever apenas sobre saudade. Quero escrever sobre orgulho. Sobre memória. Sobre coragem. E, sobretudo, sobre um homem que me ensinou, muito antes que eu pudesse compreender inteiramente suas escolhas, que existem valores pelos quais vale a pena pagar um preço.

Meu pai, Bayard Demaria Boiteux, não foi apenas meu pai. Foi professor, intelectual, sindicalista, homem público e, acima de tudo, um brasileiro que acreditou que a democracia não poderia ser negociada e que a educação jamais deveria ser tratada como mercadoria ou favor.

Minha infância não teve apenas brinquedos, festas e descobertas. Teve também medo. Teve ausência. Teve prisão.

Meu pai foi preso pela ditadura militar.

Para uma criança, a prisão de um pai não cabe em explicações políticas. Não existem conceitos de autoritarismo, repressão ou perseguição capazes de explicar aquele vazio. Existe simplesmente uma cadeira que fica vazia. Uma voz que não se ouve. Uma presença que nos é arrancada.

Guardo uma lembrança particularmente dolorosa. Fui atropelado e fiquei em coma. Meu pai, então preso, pôde sair da prisão para me visitar. A imagem daquele pai privado de liberdade vindo encontrar o filho ferido atravessou minha vida e permanece comigo. Há lembranças que o tempo suaviza. Outras, não. Elas se transformam em parte de nós.

Depois veio o exílio.

A Argélia entrou em minha vida não como destino turístico, mas como território de sobrevivência e reconstrução. Argel tornou-se cenário de uma família obrigada a reaprender a viver longe do Brasil. Meu pai lecionou na Universidade de Argel. Eu estudava, observava aquele mundo multicultural e começava, talvez sem perceber, a construir o cidadão do mundo que mais tarde me tornaria.

Depois, Portugal.

No Porto, meu pai continuou sua vida acadêmica. Mudavam os países, as casas, os sotaques e as paisagens, mas havia algo que permanecia absolutamente intacto: suas convicções.

O exílio pode retirar de alguém a pátria física. Não consegue, porém, arrancar a pátria das ideias.

Meu pai carregava o Brasil dentro dele.

E carregava principalmente uma paixão quase visceral pela Educação e pelos professores. Sua atuação no Sindicato dos Professores não foi circunstancial. Foi consequência natural de sua compreensão de que não existe país soberano quando aqueles que educam são humilhados, mal remunerados ou silenciados.

Foi presidente do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro e fez da defesa do magistério uma trincheira. Não buscava apenas melhores condições profissionais. Defendia a dignidade de uma categoria responsável por construir aquilo que nenhum governo consegue fabricar por decreto: consciência.

Essa dimensão sindical de sua trajetória sempre me emocionou profundamente. Talvez porque eu também tenha escolhido a Educação como um dos grandes eixos de minha vida. Quando entro em uma sala de aula, quando defendo um professor, quando questiono modelos educacionais acomodados, sinto que alguma coisa daquele Bayard continua caminhando comigo.

Meu pai também participou intensamente da vida pública brasileira. Conheceu as grandezas e as misérias da política. Conviveu com perseguições, derrotas, esperanças e reconstruções. Depois do exílio, voltou ao Brasil e continuou participando da construção democrática do país.

Nunca compreendi a política, a partir de seu exemplo, como simples disputa por cargos. Política, para ele, significava compromisso com ideias.

Foi essa talvez uma de suas maiores heranças.

Meu pai não me deixou apenas lembranças. Deixou-me inquietações.

Ensinou-me que devemos desconfiar das unanimidades. Que o poder precisa ser questionado. Que nenhuma democracia está definitivamente conquistada. Que professores precisam ter voz. Que os mais vulneráveis não podem ser esquecidos. E que o silêncio diante da injustiça também é uma escolha.

Aprendi com ele que liberdade não é uma palavra bonita para discursos. Liberdade custa caro.

Ele pagou parte desse preço com a prisão, com a perseguição e com o exílio.

Nós, seus filhos e familiares, pagamos também. Porque toda perseguição política ultrapassa aquele que é perseguido. Ela invade a casa, senta-se à mesa, interrompe aniversários, modifica infâncias e produz cicatrizes que nenhuma anistia consegue apagar completamente.

Mas não escrevo estas palavras com ressentimento.

Escrevo com orgulho.

Orgulho daquele professor que acreditava no conhecimento.

Orgulho daquele sindicalista que defendia seus colegas.

Orgulho daquele homem público que não abandonou suas convicções quando elas se tornaram inconvenientes.

Orgulho daquele exilado que transformou a Argélia e Portugal em espaços de trabalho, aprendizado e resistência.

E, sobretudo, orgulho do meu pai.

Hoje compreendo melhor muitas coisas que, quando menino, não conseguia compreender. Entendo suas ausências. Entendo seus silêncios. Entendo suas lutas. Talvez compreenda até mesmo algumas de suas dores.

A vida me levou também para a Educação, para o serviço público, para a escrita, para o debate e para a defesa permanente da liberdade. Não acredito que tenha sido coincidência.

Somos, em alguma medida, continuidade daqueles que amamos.

Neste Dia dos Pais, não posso abraçá-lo. Mas posso fazer algo que talvez seja ainda mais importante: não permitir que sua história seja esquecida.

Num país que tantas vezes insiste em apagar sua memória, lembrar é também um ato político.

Meu pai me ensinou que um homem pode ser preso sem que suas ideias sejam encarceradas. Pode ser exilado sem deixar de pertencer à sua terra. Pode perder cargos, posições e tranquilidade sem perder aquilo que verdadeiramente o define: a dignidade.

Por isso, neste Dia dos Pais, não deposito flores apenas na memória.

Deposito gratidão.

Obrigado, pai, pela coragem que tantas vezes me assustou e que hoje me inspira.

Obrigado pela Educação.

Obrigado pela resistência.

Obrigado por me ensinar que a liberdade precisa de pessoas dispostas a defendê-la.

E obrigado, principalmente, por me deixar uma herança que nenhum inventário conseguiria registrar:

o orgulho imenso de ser seu filho.

Arquivo pessoal

Bayard Do Coutto Boiteux é professor, pesquisador, escritor, funcionário público de carreira e um eterno lutador pela Democracia e pela Diversidade.

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