Quase metade das importações dos EUA já enfrenta tarifas elevadas

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Quase metade de todos os produtos que entram nos Estados Unidos está hoje sujeita a tarifas, segundo uma análise do New York Times baseada em dados de comércio do Census Bureau — um sinal contundente de como o presidente Donald Trump remodelou a política comercial americana desde que voltou ao poder em janeiro.

Ao longo de 2025, Trump anunciou sucessivas rodadas de tarifas, mirando praticamente todos os países do mundo em níveis inéditos em cerca de um século. A legalidade da maior parte dessas medidas, porém, está em risco: na semana passada, a Suprema Corte começou a analisar um processo que questiona o uso, pelo presidente, de uma lei de poderes emergenciais para impor as cobranças.

Se a Corte decidir contra Trump, o governo perderá uma das principais ferramentas de sua estratégia comercial. O presidente tem usado a lei em debate — o International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) — para aplicar tarifas sobre cerca de 29% de todas as importações americanas, segundo o NYT. Durante a audiência de 5 de novembro, os ministros demonstraram ceticismo quanto à autoridade legal do presidente.

Só neste ano, as tarifas emergenciais já afetaram mais de US$ 300 bilhões em produtos importados. O volume mostra tanto o alcance das mudanças implementadas por Trump em favor de uma política mais protecionista quanto o tamanho do risco que ele enfrenta no julgamento.

A análise do Times, baseada em anos de dados detalhados por produto, oferece uma das visões mais amplas até agora da tentativa da Casa Branca de reconfigurar a ordem global de comércio.

Antes do segundo mandato de Trump, a maior parte das importações seguia regras consolidadas dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas, a partir de julho deste ano — quando muitas das novas tarifas passaram a valer — esse cenário se inverteu.

Hoje, mais de 90% das importações americanas estão sujeitas a algum aspecto da política comercial do governo Trump: tarifas anunciadas neste mandato ou no anterior, ou ainda isenções temporárias concedidas a determinados produtos.

O presidente tem acionado diferentes dispositivos legais para impor tarifas. Ele reforçou cobranças já existentes sobre setores como aço, automóveis e madeira, valendo-se da Section 232, que permite tarifas por motivos de segurança nacional. Essas tarifas — além de outras aprovadas em legislações distintas, incluindo algumas do primeiro mandato — não estão sob análise da Suprema Corte.

Isso significa que, independentemente da decisão, cerca de 16% das importações dos EUA continuarão altamente tarifadas.

Impactos desiguais

Cada país é afetado de maneira distinta pelas novas regras. Por isso, uma eventual derrubada da lei de poderes emergenciais pode ter consequências muito mais pesadas para alguns parceiros comerciais do que para outros.

China e União Europeia

A China já enfrentava tarifas protecionistas impostas no primeiro mandato de Trump e ampliadas pelo governo Biden. Essas cobranças — que atingem mais da metade das exportações chinesas para os EUA — continuarão valendo mesmo se a Suprema Corte limitar o poder presidencial.

As tarifas emergenciais aplicadas neste ano elevaram ainda mais essas taxas, muitas vezes sobrepondo-se às existentes. Resultado: a tarifa média aplicada aos produtos chineses supera 40%, uma das mais altas do mundo.

O caso da União Europeia é diferente. Antes de 2025, a maioria dos produtos europeus entrava nos EUA sem tarifas. Apenas cerca de um quarto das exportações do bloco era taxada. Agora, aproximadamente 60% enfrenta alguma cobrança — e grande parte dessas tarifas depende da decisão da Suprema Corte.

Ampliação de isenções

Para alguns países, as tarifas emergenciais tiveram efeito quase nulo.

Trump anunciou tarifas sobre Canadá e México logo no início do mandato, alegando que ambos não faziam o suficiente para conter o fluxo de fentanil e migrantes — classificados pelo governo como emergências nacionais. Depois, os EUA ajustaram a medida para excluir produtos que entram sob o acordo comercial USMCA, assinado no primeiro mandato de Trump.

Como a maior parte das importações de Canadá e México está coberta pelo USMCA, seus produtos continuam entrando livres de tarifas, mesmo em meio a tensões comerciais.

Na prática, a fatia de mercadorias canadenses que chega aos EUA sem tarifas aumentou desde que Trump reassumiu — também porque as importações totais caíram e os produtos que seguem entrando são, em maior proporção, aqueles protegidos pelo acordo.

Ainda assim, itens como automóveis, madeira e aço vindos de Canadá e México seguem sujeitos às tarifas setoriais que permanecerão independentemente da decisão da Suprema Corte.

Exceções estratégicas

O governo também concedeu isenções amplas para garantir o abastecimento de produtos essenciais.

A Irlanda, grande exportadora de medicamentos de marca para os EUA, teve diversos fármacos liberados das novas tarifas. Um acordo comercial entre EUA e União Europeia limita em 15% a tarifa sobre remédios — protegendo-os de taxas que poderiam chegar a 100%.

Produtos de Taiwan receberam tratamento semelhante: smartphones, computadores e eletrônicos foram poupados das tarifas anunciadas em abril. O governo já sinalizou, porém, que esses produtos podem ser tarifados futuramente — mas ainda sem definição do percentual.

Foco em setores vitais

Alguns países já sofrem forte impacto das tarifas setoriais — especialmente aqueles com forte indústria automobilística.

Quase um terço das exportações do Japão para os EUA enfrenta tarifas sobre automóveis, que foram inicialmente fixadas em 25% e depois reduzidas para 15% após um acordo bilateral. A Coreia do Sul também é fortemente afetada e está perto de fechar um acordo semelhante.

Se a Suprema Corte limitar o poder presidencial de impor tarifas emergenciais, o governo americano poderá recorrer com mais intensidade às tarifas setoriais já previstas em outras leis.

c.2024 The New York Times Company

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.



Fonte ONU

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