Hipnose: o preconceito nunca foi contra o transe. Sempre foi contra o desconhecido.

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Há uma pergunta que escuto há muitos anos.
“Você realmente acredita em hipnose?”

Curiosamente, essa pergunta quase nunca é feita por quem estudou hipnose. Ela costuma vir de quem a conhece apenas pelo cinema, pelos programas de televisão ou por vídeos que circulam nas redes sociais.

E talvez seja exatamente aí que comece o problema.

Ao longo da história, poucas áreas do conhecimento foram tão mal representadas quanto a hipnose.

Durante décadas, ela foi transformada em espetáculo. O hipnotizador passou a ser visto como alguém capaz de controlar pessoas, apagar memórias, obrigar indivíduos a fazerem o que não desejam ou descobrir segredos escondidos na mente.

Nada disso corresponde ao que encontro diariamente na prática clínica e no ensino.

Depois de tantos anos estudando comportamento humano, cheguei a uma conclusão que pode parecer incômoda: o maior desafio da hipnose nunca foi científico. Foi cultural.

A ciência já reconhece, há muito tempo, que estados hipnóticos existem. Eles são estudados em universidades, utilizados em hospitais, empregados em tratamentos para dor, ansiedade, fobias e em diversas outras aplicações clínicas. A discussão séria sobre hipnose não gira mais em torno de sua existência, mas sobre suas indicações, seus mecanismos e seus limites.

O preconceito persiste em outro lugar.

Ele nasce da imagem construída no imaginário popular.

Quando alguém ouve a palavra “hipnose”, frequentemente imagina perda de controle.

Eu penso exatamente o contrário.

Na minha experiência, a verdadeira hipnose é um caminho para recuperar o controle.

Controle sobre emoções.

Sobre medos.

Sobre hábitos.

Sobre respostas automáticas que muitas vezes comandam a vida sem que a pessoa perceba.

Talvez essa confusão aconteça porque ainda acreditamos que consciência significa estar desperto o tempo todo.

Não significa.

Todos nós entramos em estados naturais de absorção diversas vezes ao longo do dia. Quando dirigimos quilômetros sem perceber o percurso, quando estamos completamente envolvidos por um livro, por uma música ou por um filme, experimentamos alterações naturais do foco da atenção. A hipnose utiliza essa capacidade humana de forma estruturada e com objetivos específicos.

Não há magia nisso.

Há funcionamento da mente.

Infelizmente, o preconceito não afeta apenas a técnica.

Ele também atinge o profissional.

O hipnoterapeuta frequentemente precisa provar que não é um ilusionista, um manipulador ou alguém que promete milagres. Precisa explicar, repetidas vezes, que hipnose não substitui a medicina, não elimina a psicologia e não resolve todos os problemas da vida.

E, sinceramente, considero isso saudável.

Desconfio de qualquer profissional que se apresente como dono de soluções universais.

A boa hipnoterapia é construída sobre ética, responsabilidade e respeito aos limites de cada pessoa.

Entretanto, existe um paradoxo curioso.

Vivemos em uma sociedade que aceita com naturalidade a influência exercida pela publicidade, pelos algoritmos das redes sociais, pelo marketing político e pelas técnicas de persuasão utilizadas diariamente para moldar comportamentos.

Mas ainda teme uma ferramenta cujo propósito é justamente ajudar o indivíduo a compreender melhor o funcionamento da própria mente.

Talvez o verdadeiro receio não seja a hipnose.

Talvez seja descobrir o quanto somos influenciados sem perceber.

A hipnose, quando praticada com seriedade, não cria uma mente obediente.

Ela revela uma mente que já possui recursos para mudar.

Ao longo da minha trajetória, vi pessoas superarem fobias que as acompanhavam há décadas, reduzirem níveis intensos de ansiedade, ressignificarem experiências traumáticas e reconstruírem a própria relação consigo mesmas. Não atribuo esses resultados a um suposto poder do hipnoterapeuta.

O mérito sempre pertence ao paciente.

O profissional apenas conhece caminhos para facilitar um processo que já existe dentro da própria mente humana.

É exatamente por isso que continuo acreditando que o futuro da hipnose dependerá menos de técnicas e mais de educação.

Quanto mais informação de qualidade chegar à população, menor será o espaço para mitos, medos e fantasias.

A história mostra que quase todo conhecimento inovador enfrentou resistência em seu nascimento.

Não foi diferente com a anestesia, com a psicoterapia, com a vacinação e com tantas outras descobertas que hoje consideramos naturais.

Talvez a hipnose esteja percorrendo esse mesmo caminho.

E, se estiver, não me preocupa o preconceito.

O preconceito costuma desaparecer quando o conhecimento ocupa o seu lugar.

Por isso, continuo fazendo aquilo que sempre considerei minha principal missão: ensinar.

Não para convencer ninguém a acreditar na hipnose.

Mas para que cada vez mais pessoas compreendam a extraordinária capacidade que a mente humana possui de aprender, adaptar-se e transformar-se.

Porque, no final das contas, a hipnose nunca foi sobre controlar pessoas.

Sempre foi sobre ajudá-las a recuperar o comando da própria vida.

Carlos Murilo Cardoso de Freitas
Carlos Murilo Cardoso de Freitas
Murillo C. Freitas é terapeuta, escritor, pesquisador e professor especializado em hipnose não verbal, magnetismo, espiritualidade e estudos da consciência. Com mais de duas décadas dedicadas ao desenvolvimento humano e formações nacionais e internacionais, tornou-se referência na integração entre conhecimentos terapêuticos, científicos e espirituais. Autor de seis livros, aborda em suas obras temas como Kundalini, autoconhecimento, simbolismo e psicologia dos arquétipos. Em seu lançamento mais recente, Lilith – Anjo ou Demônio, propõe uma releitura histórica, psicológica e social de uma das figuras mais controversas da tradição ocidental, incentivando reflexões sobre liberdade, identidade, poder e transformação pessoal.

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