O mercado invisível no fundo do mar que pode definir o futuro da transição energética e o espaço que o Brasil ainda precisa ocupar

Compartilhar:

Enquanto Europa e Ásia aceleram investimentos bilionários, o Brasil ainda corre para não ficar para trás

Quando governos anunciam novos parques eólicos offshore ou metas agressivas de descarbonização, a imagem que normalmente domina o debate é a de turbinas gigantes instaladas em alto-mar. Mas existe uma engrenagem menos visível e cada vez mais estratégica, sem a qual essa transição simplesmente não acontece: a infraestrutura submarina responsável por levar a energia produzida no oceano até o continente.

Cabos submarinos de alta tensão, embarcações especializadas, sistemas de proteção no leito marítimo, equipamentos de escavação e estruturas de conexão elétrica passaram a formar um mercado bilionário e altamente complexo, que hoje sustenta boa parte da expansão global das energias renováveis. Sem essa estrutura, a energia gerada offshore não chega às cidades, indústrias e consumidores.

O tamanho da corrida global ajuda a explicar a pressão sobre esse mercado.

Dados mais recentes da International Energy Agency mostram que os investimentos globais em tecnologias limpas devem alcançar US$ 2,2 trilhões, aproximadamente o dobro dos aportes destinados a petróleo, gás e carvão. Apesar do avanço, a própria agência alerta que os investimentos em transmissão elétrica ainda não acompanham o ritmo de expansão das renováveis. O mundo precisará adicionar ou modernizar mais de 80 milhões de quilômetros de redes até 2040, enquanto cerca de 1.650 gigawatt (GW) de projetos renováveis já aguardam conexão à infraestrutura elétrica.

No mar, o avanço é ainda mais acelerado.

Segundo o relatório mais recente do Global Wind Energy Council, a capacidade global instalada de energia eólica offshore alcançou 83,2GW ao fim de 2024, enquanto outros 48 GW já estão em construção ao redor do mundo, um sinal de que a demanda por cabos submarinos, embarcações especializadas e infraestrutura marítima deve continuar crescendo nos próximos anos.

Cada novo parque depende de quilômetros de cabos submarinos e operações altamente especializadas para conectar a energia ao sistema elétrico terrestre.

O problema é que a infraestrutura necessária para sustentar esse crescimento não avança no mesmo ritmo.

Estimativas da Wood Mackenzie indicam que a cadeia global de suprimentos da energia eólica offshore precisará de pelo menos US$ 27 bilhões em novos investimentos até 2026 para sustentar o crescimento projetado do setor. Caso governos mantenham todas as metas anunciadas para 2030, esse valor pode ultrapassar US$ 100 bilhões até o fim da década. Parte relevante dessa pressão recai justamente sobre cabos submarinos, embarcações especializadas e infraestrutura de transmissão, hoje entre os principais gargalos da expansão offshore global.

Ao mesmo tempo, fabricantes europeus enfrentam carteiras de pedidos que já ocupam anos de produção, enquanto a escassez de embarcações especializadas tem pressionado custos e cronogramas em projetos globais.

É nesse mercado pouco visível, mas cada vez mais estratégico, que atua o brasileiro Eduardo Monterisi, executivo financeiro especializado em megaprojetos de energia e infraestrutura.

Atualmente Gerente de Custos de Projetos Offshore da Enshore Subsea, no Reino Unido, ele lidera o controle financeiro de contratos superiores a US$ 500 milhões em projetos de infraestrutura submarina e transmissão elétrica offshore. Entre eles estão o Senegal Power Compact, superior a US$ 200 milhões, além dos projetos Inch Cape Export Cable e Waddensea, no Mar do Norte.

Monterisi afirma que o mercado ainda subestima o papel dessa infraestrutura. “As pessoas olham para os parques eólicos e para os investimentos em geração, mas existe uma infraestrutura submarina extremamente complexa por trás disso. Sem cabos, sem proteção do leito marítimo e sem logística especializada, a energia simplesmente não chega ao consumidor.”

Segundo ele, os desafios operacionais também se transformaram em desafios financeiros. “Estamos falando de embarcações que custam centenas de milhares de dólares por dia, janelas climáticas extremamente curtas e equipamentos altamente especializados. Um atraso de poucos dias pode gerar impactos financeiros enormes.”

O Brasil ainda corre atrás

Enquanto Europa e Ásia aceleram investimentos, o Brasil ainda está nos primeiros passos dessa corrida.

O Brasil possui um dos maiores potenciais do mundo para energia eólica offshore. Estudos da Empresa de Pesquisa Energética estimam capacidade técnica de cerca de 700 GW ao longo do litoral brasileiro, podendo superar 1.200 GW em cenários mais amplos analisados em parceria com o World Bank Group.

Ao mesmo tempo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis já acumula 103 projetos em análise, que somam aproximadamente 244 GW em pedidos de licenciamento ambiental, mostrando que o país entrou definitivamente no radar global da eólica offshore.

Apesar do potencial, Monterisi alerta que o país ainda possui uma cadeia limitada para suportar esse mercado em larga escala. O Brasil possui experiência consolidada em operações marítimas por causa do Pré-Sal e da atuação da Petrobrás, especialmente em engenharia offshore e operações em águas profundas, mas ainda precisa avançar em áreas críticas como fabricação de cabos submarinos de alta tensão, expansão portuária, embarcações especializadas e estrutura regulatória para conectar futuros parques eólicos ao sistema nacional.

Para Monterisi, o país tem uma vantagem importante, mas precisa agir rápido. “Temos mão de obra qualificada e conhecimento técnico. O desafio agora é transformar essa experiência em vantagem competitiva dentro da transição energética.”

Ele também faz um alerta: “Se o Brasil não acelerar investimentos em infraestrutura submarina, pode se tornar dependente de fornecedores internacionais justamente em um momento em que a demanda global está explodindo.”

 

 

Roberta Lemos
Roberta Lemos
Comunicadora, Jornalista e Mentora de Voz

Artigos relacionados