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Quando criou um blog para compartilhar dicas do universo da beleza, há 15 anos, Mari Saad não imaginava que um dia estaria por trás do desenvolvimento das maquiagens. Há pouco mais de um ano, em outubro de 2025, lançou sua marca própria, a Mascavo, após uma experiência em parceria com a Océane, no que foi uma das collabs mais bem-sucedidas do mercado de beleza nacional. “Empreender é ter muito planejamento estratégico, plano de ação, estudo de mercado e ainda assim correr muito risco”, diz a empresária em entrevista à Forbes Brasil.
Em um ano de marca, lançou mais de 100 produtos e conquistou espaço em 2 mil pontos de venda, com presença na C&A e na Riachuelo e também no Tiktok Shop. “Você não precisa ser gigante para conseguir competir”, diz, sem medo de empreender em um mercado com cada vez mais players chegando.
Com 4 milhões de seguidores só no Instagram, a influenciadora, Forbes Under 30 2018 e diretora criativa equilibra diferentes funções enquanto tenta proteger sua saúde, física e mental. “A minha vida virou trabalho”, desabafa. “Aprender a equilibrar a visão criativa com a gestão operacional é a parte mais difícil. Preciso trocar de cadeira com muita agilidade, porque o negócio envolve muitas variáveis.”
Outro grande desafio deste primeiro ano foi a repercussão negativa do lançamento de produtos sem tons para peles negras retintas. “Foi um problema gritante e gigante”, lembra a empresária, citando as lições que tirou do episódio. “O mais importante foi recalcular a rota com agilidade. Foi um processo de aprendizado gigantesco.” Posteriormente, as tonalidades dos produtos foram ampliadas e, hoje, a marca conta com 36 tons de base, 24 de corretivo e 8 de blush e de contorno.
“Empreender exige flexibilidade para recalcular a rota quantas vezes for necessário. E não é para acertar muito, é para errar menos.”
Entre erros e acertos, Mari Saad faz um balanço positivo do primeiro ano da Mascavo. “As vendas têm sido acima das expectativas, o que dá a oportunidade de crescer o portfólio”, diz. “Quero ter tudo: embalagem incrível, formulação inovadora e todas as tonalidades possíveis.”
A Mascavo faturou R$ 100 mil no primeiro ano, e a empresária quer ir além. Para 2026, pretende dobrar de tamanho e planeja expandir os pontos físicos, além de lançar novos produtos para a área dos olhos. No longo prazo, Mari Saad ainda guarda o sonho de internacionalizar sua marca. “A expectativa é superar o que já está sendo feito em faturamento, história e resultado.”
Neste Dia do Empreendedorismo Feminino, confira os destaques da entrevista com Mari Saad, fundadora da Mascavo
Forbes: Você completou um ano de Mascavo. Quais foram os maiores aprendizados desse primeiro ano como empreendedora?
Mari Saad: Entendi que empreender é ter muito planejamento estratégico, plano de ação, estudo de mercado, estruturação de governança — e ainda assim correr muito risco. Exige velocidade e flexibilidade para recalcular a rota quantas vezes for necessário. E não é para acertar muito, é para errar menos.
Empreender no Brasil é muito difícil. Precisa de coragem, pé no chão e manter seus pilares e objetivos muito claros, porque a gente é convidado o tempo todo a se desviar daquilo que almeja, e é fácil se perder.
Vou sempre querer melhorar: trazer uma embalagem mais inovadora, passar por um rebranding, mostrar que o que era bom ficou melhor. Porque as coisas se constroem. É tipo um guia básico de sobrevivência do empreendedor: você vai mudar de opinião, e tudo bem. Quero fazer uma gestão real, ter um branding vivo e que as pessoas possam opinar.
Qual foi o maior desafio desse primeiro ano de Mascavo?
A transição de ter saído de um licenciamento para chegar a uma marca própria tinha muito a ver com a falta de oportunidade que eu tinha de colocar todos os meus sonhos e desejos na mesa. Quando lancei a Mascavo, tinha uma visão otimista: “Agora sim, o negócio é meu, vou tomar as minhas decisões e conseguir fazer exatamente o que eu sonhava.” Mas o dia a dia é duro, não é tão lúdico. É incrível sonhar e realizar, mas você vai lidando com muitas variáveis e questões que vão te frustrando ao longo do caminho.
Aprender a equilibrar a visão criativa com a gestão operacional da empresa foi a parte mais difícil. De um lado tem o lúdico, eu viro uma criança no laboratório de testes ao ver as coisas se criando. Do outro, tem decisões que eu não me sinto pronta para tomar. Mas acho que a gente nunca está 100% formada, e isso tira um peso muito grande das minhas costas.
No início, você foi criticada pela falta de inclusão da marca nos tons dos produtos. Como lidou com isso?
Foi um problema gritante e gigante, e muito dolorido para mim. Não tinha essa intenção, mas gerei uma percepção e precisei recalcular a rota de forma ágil e assertiva. Não tem porquê a marca existir se não for para as pessoas. Quando vivi isso, virei uma leoa. Virou uma questão de honra para mim. Falei: “Quero resolver o que eu puder. Preciso que a pessoa possa vestir a própria pele e fique o mais confortável possível.”
O mais importante foi recalcular a rota com agilidade. Voltar para a mesa, colocar todos os pontos do nosso cliente, trazer mais vozes e tomar as decisões com muita responsabilidade. Quando você tem a diversidade como tomada de decisão real, o processo fica mais fluido. Hoje, a gente atua em muitas frentes: curadoria de marca, diversidade no time, testes reais, pessoas reais, cocriação, e falamos desses erros e das fragilidades. Foi um processo de aprendizado gigantesco.
Como foi assumir esse papel de liderança?
Precisei ser estratégica. Tive que aprender a trocar de cadeira com muita facilidade porque o negócio envolve muitas variáveis: finanças, planejamento e produto. O que ajuda a reger tudo é a humildade, entender que preciso dizer: “Não entendo disso. Como outras pessoas podem me ajudar?”
Hoje, tendo a possibilidade de trocar com outros profissionais, gosto de estar à frente das decisões finais. Mas a empresa também funciona sem a minha presença, as pessoas têm a possibilidade de tomar decisões. O processo de empreender fica mais leve quando isso acontece. Você se cobra menos e as coisas vão fluindo.
Como você equilibra os papéis de influenciadora e empreendedora?
Preciso continuar na minha função de influenciadora, porque presto serviços para outras empresas também. Mas hoje é uma grande dificuldade, porque estou me aprimorando no lado empreendedora. A minha vida virou trabalho. Quando eu entro no automático e meu corpo dá sinais de burnout, eu paro. Posso ter o compromisso que for. Paro e sumo por uma semana no mato, porque a consequência do automático é séria.
Com cada vez mais influenciadoras e empreendedoras de beleza, como você enxerga esse mercado? Está saturado?
Faço parte de um movimento muito importante, que é a transformação digital. Enxergo o papel das influenciadoras e da comunidade que a gente cria, comparada às grandes marcas, como a maior transformação do mercado de beleza dos últimos tempos. Influenciamos o que a pessoa vai pensar e como ela vai ver o mundo. E a marca também precisa disso.
Essa transformação veio com muitas mulheres na liderança, que trouxeram mais humanização, sensibilidade e troca. Essas habilidades são muito poderosas para tomar boas decisões. Naturalmente, penso em todas as minhas colegas de trabalho: Bruna Tavares, Boca Rosa, Nina Secrets, Francine Ehlke e Mari Maria, que têm feito um trabalho inteligente, divertido e com muito compromisso. Cada uma está conseguindo trazer sua assinatura e história de maneiras diferentes. E é isso que a gente precisa.
Essa indústria se ajuda e se retroalimenta. Olho algo que não tenho e penso: “Como posso traduzir isso para a minha realidade, com a minha assinatura?” A gente continua se ajudando, se inspirando e incentivando o empreendedorismo feminino e a liderança, porque a mulher ainda tem muito para ensinar.
Qual a estratégia para se destacar em um mercado tão competitivo?
Você não precisa ser gigante para conseguir competir. Vejo muita marca grande comprando atenção e muita marca pequena conseguindo construir a confiança que eu quero ter com o meu consumidor. O empreendedor individual tem mais liberdade. Conseguir falar direto com o cliente me traz respostas muito assertivas. Se estou na dúvida de um lançamento de produto, abro uma caixinha de perguntas ou faço um quiz e coloco as alternativas para as pessoas julgarem. Isso me ajuda a estruturar muitas ideias.
Quão importante é essa conexão com o consumidor?
Se uma pessoa está passando por uma situação de saúde e lida com sua sobrancelha de uma maneira diferente por conta de uma dica sua, você gerou conexão. Ela vai se lembrar de você porque você mudou algo na vida dela. Desde o começo, sabia que o que me movia era essa troca. Nunca vi beleza como futilidade. Sempre teve propósito, história e mensagem. Uma marca só é forte quando a comunidade continua crescendo sozinha: porque acredita, identifica, indica e sente que faz parte de algo maior. O fundador pode ser o catalisador, mas o propósito da marca não pode ser construído em torno de uma pessoa.
Quais os próximos passos da Mascavo?
Hoje, busco alcançar o máximo de pontos físicos possíveis quando penso em expansão de marca no território nacional. Mas também tenho o sonho de internacionalizar. Já tenho algumas embalagens primárias e secundárias pensadas para isso, com a comunicação adaptada, olhando para fora sem perder a raiz da identidade brasileira, mas deixando pronto em inglês, caso eu precise de um “pulo do gato” quando surgir a oportunidade.
As vendas têm sido acima das expectativas, o que dá a oportunidade de crescer o portfólio. Quero ter tudo: embalagem incrível, formulação inovadora e todas as tonalidades possíveis. O desafio é driblar o estoque para conseguir atender todo mundo e estar em todos os lugares de forma homogênea. E não perder a percepção do usuário, que é o ponto mais importante para mim.
Com produtos, o próximo passo é me arriscar na área de olhos — tem paleta vindo por aí. Também existe um futuro possível em categorias que não sejam maquiagem, mesmo que esse não seja o foco agora. A expectativa é superar o que já está sendo feito em faturamento, história e resultado.
E como empreendedora, como você se vê nos próximos anos?
Vivo muito esse dilema de fundadora e diretora criativa. Espero, cada vez mais, ter um time multidisciplinar que possa tomar decisões por mim a longo prazo, para que eu consiga colher frutos enquanto saio um pouco desse controle de querer ver tudo o tempo todo. Assim, eu fico com mais campo criativo livre, que é onde me realizo.
FonteCâmara dos Deputados