Uma das partes mais difíceis de procurar emprego é encontrar tempo. No ambiente de trabalho sempre conectado de hoje, os candidatos frequentemente encaixam processos seletivos em almoços longos, falsos compromissos ou ligações privadas de dentro de seus carros.
O desafio é ainda maior para profissionais da linha de frente, cuidadores e pessoas que se dividem entre vários empregos. O recrutamento tradicional exige que os candidatos estejam disponíveis durante o horário comercial, mesmo quando não podem se dar ao luxo de se afastar do trabalho.
Surge então a “entrevista noturna”. Com a inteligência artificial conduzindo as conversas, os candidatos não precisam mais esperar pela agenda de um recrutador. Eles podem ser entrevistados às 23h, no domingo de manhã ou até mesmo às 2h da madrugada, enquanto os outros dormem.
Tigran Sloyan, cofundador e CEO da CodeSignal, plataforma de recrutamento com IA, aponta que a tecnologia permite maior autonomia de agendamento. “Essa flexibilidade é uma enorme vantagem para quem já está empregado, vive em outro fuso horário ou tem obrigações familiares que consomem o dia”, diz.
Na CodeSignal, um em cada três candidatos que utilizam um entrevistador de IA conclui o processo fora do horário tradicional (das 9h às 17h). Outras plataformas confirmam a tendência: a Ribbon AI relata que 25% de suas entrevistas ocorrem entre 22h e 2h da madrugada, índice que sobe para 35% entre clientes do setor de manufatura.
A mudança pode devolver aos profissionais algo raro no processo seletivo: controle sobre o próprio tempo. Mas também levanta uma questão estrutural: as entrevistas 24 horas tornarão as contratações mais acessíveis ou apenas transformarão a busca por emprego em mais uma atividade que persegue os profissionais no meio da noite?
A fuga do horário comercial
As entrevistas tradicionais são estruturadas em torno do recrutador, forçando os candidatos a escolherem entre horários diurnos restritos. Para profissionais com flexibilidade, é um inconveniente; para funcionários com horário fixo de trabalho, significa perder parte do salário, buscar substitutos ou arriscar que o chefe atual descubra a movimentação. Pais e cuidadores enfrentam, ainda, as complicações logísticas da rotina familiar.
Esse gargalo explica por que a IA ganha tanta força nas contratações operacionais. Tanya Carlson, vice-presidente sênior da Fountain, plataforma de recrutamento automatizado, afirma que até 75% dos profissionais preferem a IA quando recebem a opção de escolha em relação ao modelo tradicional. “Eles estão focados em seus empregos diurnos e procuram trabalho fora do expediente”, explica.
A lógica é simples: não há por que esperar dois dias pela disponibilidade de um recrutador se é possível resolver a etapa rapidamente às 22h30.
Essa agilidade é crucial em setores de alto volume — como varejo, hospitalidade, manufatura e saúde —, onde atrasos custam bons candidatos para a concorrência. Uma IA engaja interessados em minutos, eliminando as filas de espera.
Como funciona na prática
Enquanto algumas IAs exigem apenas a gravação de respostas pré-determinadas, sistemas conversacionais avançados já conduzem trocas ao vivo, fazem perguntas de acompanhamento e reagem às respostas do candidato.
A tecnologia atua na triagem inicial, não na decisão final. A CodeSignal, por exemplo, fornece um relatório de habilidades e a transcrição da conversa para que humanos deem a palavra final.
A IA também ajuda com os detalhes práticos. Segundo Carlson, conversar com um agente virtual sobre o que esperar da vaga e como será o treinamento transmite uma sensação mais pessoal do que receber um SMS genérico. “É aí que a IA realmente pode gerar um impacto real”, destaca.
A vantagem da acessibilidade
A conveniência impulsiona a inclusão: permite que pais façam entrevistas após colocarem os filhos na cama, que enfermeiros participem após os plantões e que funcionários do varejo busquem novas vagas sem perder um dia de trabalho.
Do lado das empresas, a IA alivia equipes sobrecarregadas, permitindo entrevistar mais pessoas em vez de cortar currículos com base apenas em palavras-chave. Sloyan cita um experimento com mais de 70.000 candidatos para vagas de atendimento: aqueles entrevistados por IA tiveram maior probabilidade de receber ofertas e permanecer empregados após 30 dias do que os avaliados inicialmente por humanos. Quando tiveram escolha, 78% dos candidatos preferiram a automação, sugerindo que o público aceita a tecnologia quando ela elimina burocracias.
O perigo, alerta Sloyan, está no design do sistema, não na tecnologia em si. Como um humano capta nuances que algoritmos ignoram, a transparência e a revisão dos relatórios são essenciais para que os recrutadores foquem apenas nas decisões complexas.
Se alguns veem eficiência, outros consideram o processo desumanizador. Há o temor de que pausas, sotaques ou falta de contato visual sejam penalizados — uma preocupação especialmente válida para candidatos neurodivergentes.
Os receios têm base. Pesquisadores de Stanford já identificaram disparidades raciais em algoritmos de contratação. O público, em geral, ainda enxerga humanos como avaliadores mais justos. Padronização não garante equidade: se os dados de treinamento ou os critérios da empresa tiverem vieses históricos, a IA apenas os reproduzirá em escala.
O futuro é 24 horas
Com mais de 100.000 entrevistas via IA na CodeSignal no último ano, as empresas reduziram o tempo de contratação em até 20%, economizando dias de trabalho. Candidatos com bom desempenho nessas plataformas, segundo os dados, têm o dobro da taxa de sucesso na vaga.
Ainda assim, o sucesso tecnológico não se mede pela velocidade do funil, mas por garantir avaliações justas, processos transparentes e, fundamentalmente, a interação eventual com um ser humano real. A entrevista às 2h da madrugada chegou para ficar. Contudo, os melhores sistemas usarão a IA para eliminar as barreiras logísticas — jamais a humanidade do processo.
*Bryan Robinson é colaborador da Forbes USA. Ele é autor de 40 livros de não-ficção traduzidos para 15 idiomas. Também é professor emérito da Universidade da Carolina do Norte, onde conduziu os primeiros estudos sobre filhos de workaholics e os efeitos do trabalho no casamento.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com
FonteForbes