A pimenta-do-reino já foi carro-chefe da bioeconomia na Amazônia

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O Brasil perdeu espaço no mercado mundial de pimenta-do-reino e virou subfornecedor da Índia e do Vietnã. A experiência do Espírito Santo sugere que a Amazônia pode retomar o destaque que já teve no passado.

A pimenta-do-reino é uma das especiarias mais icônicas do planeta. Originária da Costa de Malabar, na Índia, a planta se espalhou por regiões de clima tropical úmido da Ásia, incluindo Sri Lanka, Indonésia, Malásia e Tailândia, enquanto seu consumo crescia no resto do planeta, desde o Egito antigo e a Europa medieval até as cozinhas de hoje.

A pimenta é uma candidata prioritária para gerar riqueza nas áreas de desmatamento antigo onde ela já reinou e pode voltar a reinar Foto: Sasazawa/Adobe Stock

A planta chegou ao Brasil com os portugueses, mas só começou a ganhar escala nos anos 1930, graças ao empreendedorismo de imigrantes japoneses que buscavam uma forma de ganhar a vida no Pará.

As condições que encontraram eram bastante favoráveis. Havia clima adequado, terra disponível e muita água. A especiaria, por sua vez, exigia exatamente o que os agricultores podiam oferecer.

Ela é uma espécie perene, adequada para compor sistemas agroflorestais. Seu cultivo é intensivo em mão de obra e portanto bem adaptado a pequenas propriedades e à agricultura familiar. A secagem é feita no campo e os grãos secos podem ser armazenados por vários meses sem perder qualidade.

Naquela época, o mercado já era expressivo e consolidado. De lá para cá, a demanda cresceu ainda mais. Em 2024, segundo dados do BACI, o comércio internacional de pimenta-do-reino movimentou US$ 2,5 bilhões.

Não é um valor grande quando comparado com as maiores commodities agropecuárias, mas está longe de ser desprezível. No mesmo ano, segundo a MSCI Carbon Markets, os créditos de carbono vendidos no mercado voluntário para que empresas compensassem suas emissões movimentaram US$ 1,4 bilhão.

O comércio internacional da especiaria vale quase o dobro disso e, por ser uma atividade que envolve produção de mercadorias tangíveis, gera efeitos econômicos indiretos mais expressivos e mais bem distribuídos.

Os produtores paraenses aproveitaram bem a oportunidade. Nos anos 1980, o Pará respondia por mais de 90% da produção nacional. Graças aos esforços desses agricultores, o País não só atendia o mercado doméstico como também se tornou o maior produtor e exportador mundial.

Hoje, quem faz uma análise superficial do setor acha que ele vai bem, pois a produção nacional mais do que dobrou, passando de 48 mil toneladas nos anos 1980 para 127 mil toneladas na média do triênio 2022-24.

As exportações também cresceram, de 32 mil para 76 mil toneladas no mesmo período. E o País abriu novos mercados. No final dos anos 1990, produtores brasileiros exportavam pimenta para cerca de 20 países. Hoje, são cerca de 50 destinos diferentes.

Uma análise mais cuidadosa, porém, revela uma série de retrocessos. Nos anos 1980, o Brasil respondia por 27% da produção e 24% das exportações mundiais. Hoje, sua participação caiu para 18% e 19%, respectivamente, enquanto o Vietnã despontou como novo líder global, com quase 40% de participação na produção.

Mais preocupante ainda, o perfil das exportações nacionais andou para trás. Nos anos 1990, cerca de 80% da pimenta brasileira seguia para os grandes mercados consumidores da Europa e dos EUA. Hoje, esses países compram apenas 16% do que é exportado pelo Brasil, enquanto quase 30% vão para o Vietnã e a Índia, que descontaminam o produto e reexportam para os clientes que o Brasil não consegue mais atender.

Em vez de ganhar espaço num mercado crescente e agregar cada vez mais valor, o Brasil perdeu participação e se tornou subfornecedor de países com PIB per capita menor do que o seu.

O recorte estadual revela outro deslocamento importante. A participação do Pará na produção nacional desabou, de mais de 90% nos anos 1980 para cerca de 30% hoje. O que impediu um declínio ainda maior da posição do Brasil no cenário global foi o crescimento da produção no norte do Espírito Santo, que agora responde por 60% da pimenta produzida no país. O crescimento é tão vigoroso que a cultura já começa a ocupar áreas adjacentes na Bahia e em Minas Gerais.

A comparação entre os Estados é reveladora, pois tanto o Pará como o Espírito Santo operam sob muitas das mesmas condições nacionais. Isto é, produtores dos dois Estados estão sujeitos às mesmas taxas de câmbio, regime tributário, leis ambientais, regras trabalhistas, exigências sanitárias internacionais e outras condições que costumam ser apontadas como a razão do declínio do Pará. Essas variáveis podem ser importantes, mas não impediram o Espírito Santo de avançar.

A principal diferença entre os dois Estados está no que se pode chamar de ecossistema produtivo, ou seja, o conjunto de organizações, relações profissionais, conhecimento técnico e disciplina comercial que promove investimento, aprimoramento e inovação.

No Espírito Santo, a produção de pimenta cresceu apoiada na cadeia do café, que já contava com propriedades mais capitalizadas, incluindo muitas com sistema de irrigação, boas estruturas de secagem e pessoal treinado para produzir com qualidade.

Empreendedores locais, vendo o sucesso do setor, investiram em equipamentos modernos de esterilização. Além disso, os produtores criaram uma associação para representar seus interesses, ao mesmo tempo que o governo estadual elegeu a cultura como prioridade, oferecendo crédito, pesquisa agronômica, assistência técnica e extensão rural.

Em contraste, o Pará não conseguiu mobilizar os recursos de que já dispunha para sustentar o cultivo de pimenta no Estado frente às mudanças no mercado global. O resultado foi perda de eficiência, investimento e qualidade.

Os números do IBGE dão a dimensão do problema. Nos anos 1980, os paraenses obtinham quatro toneladas de pimenta por hectare, enquanto os capixabas não obtinham nem metade disso. Hoje, o quadro se inverteu, e o Espírito Santo colhe uma média de quatro toneladas por hectare contra duas no Pará.

Ao longo da história, a pimenta-do-reino capturou a imaginação de mercadores gregos, caravanas árabes, negociantes indianos e exploradores portugueses. Por várias décadas, ela fez do nordeste do Pará um dos maiores polos produtores mundiais. O próximo capítulo dessa especiaria ainda está por ser escrito.

O Pará ainda tem muitos recursos, produtores dedicados e empresas exportadoras. Os obstáculos que restam são conhecidos e, em boa parte, já foram superados no Espírito Santo. Por isso, a pimenta é uma candidata prioritária para gerar riqueza nas áreas de desmatamento antigo onde ela já reinou e pode voltar a reinar.



Fonte
ONU

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