O Brasil entra em mais um ciclo eleitoral com uma contradição difícil de ignorar: nunca discutimos tanto quem deve governar e, ao mesmo tempo, tão pouco sobre o país que desejamos construir.
De um lado, Lula e o campo político consolidado ao redor do PT. Do outro, o movimento reorganizado por Jair Bolsonaro e a disputa por quem melhor representará seu legado. Entre ambos, começam a aparecer candidaturas que tentam convencer o eleitor de que existe espaço político além dessa polarização.
O problema não está na existência de campos antagônicos. Democracias são feitas de divergências. O problema começa quando derrotar o adversário se torna mais importante do que apresentar uma visão de futuro.
Quando vencer a eleição passa a importar mais do que responder a uma pergunta elementar:
o que queremos que o Brasil se torne?
Alexis de Tocqueville percebeu, ainda no século XIX, que a democracia não estava imune ao conformismo. A opinião da maioria poderia exercer uma pressão tão poderosa que discordar deixaria de ser apenas um exercício intelectual e passaria a representar uma espécie de isolamento social.
Quase dois séculos depois, as redes sociais amplificaram esse fenômeno em escala industrial.
Hoje, muitas vezes, antes de perguntarmos se uma proposta é boa, perguntamos quem a apresentou. A mesma ideia pode ser considerada razoável ou absurda dependendo da identidade política associada a ela.
O debate deixa de ser sobre argumentos.
Passa a ser sobre pertencimento.
E, quando política se transforma em identidade, o adversário deixa de ser alguém com quem discordamos.
Passa a ser alguém que precisa ser derrotado.
É nesse momento que a democracia começa a se comportar como uma torcida.
Existe, porém, uma diferença fundamental entre uma torcida e uma nação: no estádio, basta que o adversário perca.
Em um país, isso não basta.
O Brasil precisa ganhar.
O modelo de negócio da polarização
A polarização é extraordinariamente eficiente.
Medo produz atenção.
Indignação produz compartilhamento.
Conflito produz audiência.
E audiência, na economia das redes sociais, pode ser convertida em influência, dinheiro e votos.
Por isso, existe um paradoxo importante: adversários aparentemente irreconciliáveis podem, politicamente, depender uns dos outros.
Quanto mais perigoso parece o outro lado, mais indispensável se torna o próprio.
Não é preciso convencer o eleitor de que determinado projeto é extraordinário. Basta convencê-lo de que a alternativa é intolerável.
O resultado é uma espécie de democracia do veto.
Vota-se menos pelo futuro que se deseja e mais pelo futuro que se pretende impedir.
Esse mecanismo pode ser eleitoralmente eficiente.
Mas é intelectualmente insuficiente para um país da dimensão do Brasil.
José Ortega y Gasset escreveu, em uma de suas formulações mais conhecidas, que “eu sou eu e minha circunstância”.
Lideranças políticas também são.
Elas surgem das frustrações, dos medos, das expectativas e das lacunas deixadas pelo seu tempo.
É sob essa perspectiva — e não como adesão eleitoral — que considero interessante observar o que representa hoje Renan Santos.
O que Renan Santos representa
A importância de Renan Santos não deveria ser medida apenas pela posição que ocupa neste momento em pesquisas eleitorais.
Pesquisas são fotografias.
Movimentos políticos são filmes.
Mais interessante do que perguntar quantos votos ele possui hoje é compreender qual insatisfação procura representar.
Sua candidatura tenta ocupar um espaço político entre eleitores que procuram uma alternativa aos dois polos que dominaram o debate nacional nos últimos anos.
A proposta é se apresentar com uma linguagem geracional, discurso de ruptura e uma abordagem programática sobre temas como Estado, segurança pública, produtividade, infraestrutura e desenvolvimento.
Isso não significa que suas respostas estejam corretas.
E talvez seja exatamente esse o exercício que nos esteja fazendo falta.
Uma democracia madura não precisa concordar com novas ideias.
Precisa permitir que elas sejam examinadas.
Questionadas.
Comparadas.
Testadas.
Renan pode crescer ou desaparecer eleitoralmente. Esse julgamento caberá ao eleitor.
Mas a inquietação que sua candidatura procura capturar merece atenção: existe uma disputa política real por brasileiros que não desejam passar indefinidamente de uma eleição para outra escolhendo apenas entre os mesmos campos.
O erro seria transformar essa insatisfação em mais um culto à personalidade.
O Brasil já experimentou personalismo suficiente.
Não precisamos de novos salvadores. Precisamos de melhores projetos.
Talvez essa seja justamente a principal contribuição de candidaturas que tentam romper o duopólio político atual: obrigar o sistema a responder perguntas diferentes.
Enquanto discutimos o passado, o mundo organiza o futuro
Há uma analogia empresarial que considero particularmente útil.
Empresas excessivamente obcecadas pelos seus concorrentes podem deixar de perceber as transformações mais importantes acontecendo no mercado.
Passam anos tentando derrotar o competidor ao lado e descobrem tarde demais que uma nova tecnologia tornou irrelevantes os dois.
Países podem cometer exatamente o mesmo erro.
Enquanto o Brasil consome enorme energia discutindo seus antagonismos domésticos, uma transformação econômica de proporções históricas acontece diante de nós.
A inteligência artificial está reorganizando setores inteiros.
A transição energética movimenta volumes extraordinários de capital.
Semicondutores tornaram-se ativos de segurança nacional.
Minerais estratégicos adquiriram importância geopolítica.
A disputa por talentos tornou-se global.
Cadeias produtivas estão sendo redesenhadas por tecnologia, segurança e geopolítica.
Nesse ambiente, Joseph Schumpeter continua extraordinariamente atual.
Sua ideia de destruição criativa descreve uma característica fundamental do capitalismo: estruturas que parecem permanentes são substituídas por novas tecnologias, empresas e modelos de negócio.
O princípio também serve para países.
Nações que não renovam suas instituições, educação, infraestrutura e capacidade produtiva não permanecem onde estavam.
Perdem relevância.
E talvez essa seja uma das grandes ironias brasileiras.
Poucos países possuem uma combinação de ativos tão importante para o século XXI.
Somos potência agrícola.
Temos água.
Energia.
Território.
Biodiversidade.
Minerais estratégicos.
Um grande mercado consumidor.
E uma Amazônia que estará no centro de algumas das principais discussões ambientais, científicas e econômicas das próximas décadas.
Talvez nosso problema histórico nunca tenha sido falta de potencial.
Talvez tenha sido nossa dificuldade de transformar potencial em estratégia.
Eficiência sem direção não basta
Peter Drucker dedicou grande parte de seu pensamento a uma distinção essencial para qualquer gestor: não basta fazer bem as coisas; é preciso fazer aquilo que realmente importa.
Essa reflexão deveria estar no centro de qualquer projeto presidencial.
Podemos tornar o Estado mais digital.
Podemos melhorar a arrecadação.
Podemos reduzir burocracia.
Podemos aperfeiçoar políticas públicas.
Podemos gastar melhor.
Tudo isso importa.
Mas existe uma pergunta anterior:
para onde queremos conduzir o Brasil?
Onde pretendemos estar em 2040?
Queremos continuar essencialmente como grandes fornecedores de commodities ou utilizar nossas vantagens naturais para desenvolver cadeias de maior valor agregado?
Como transformaremos a Amazônia, simultaneamente, em patrimônio ambiental, laboratório científico e ativo econômico?
Como incorporaremos inteligência artificial à educação pública antes que a diferença tecnológica amplie ainda mais a desigualdade?
Como aumentaremos produtividade?
Como enfrentaremos organizações criminosas que já operam com lógica empresarial, inteligência financeira, tecnologia e presença transnacional?
Como construiremos infraestrutura compatível com um país continental?
Como reduziremos insegurança jurídica preservando proteção social?
Como construiremos uma máquina pública orientada a resultados, e não apenas a processos?
Essas perguntas produzem menos vídeos de quinze segundos.
Mas definirão muito mais os próximos quinze anos.
Renovação não significa apagar a história
Também seria simplista imaginar que o avanço do Brasil depende de eliminar politicamente Lula ou Bolsonaro.
Lula construiu uma das trajetórias políticas mais relevantes da história contemporânea brasileira e representa uma parcela real da sociedade.
Bolsonaro reorganizou profundamente a direita e mobilizou milhões de brasileiros que continuarão politicamente ativos independentemente do seu futuro pessoal.
Ignorar qualquer um desses fenômenos seria ignorar o próprio Brasil.
Mas reconhecer a relevância histórica de ambos não significa aceitar que o país precise viver eternamente dentro dessa dicotomia.
Nenhuma geração política é permanente.
Nenhuma liderança é insubstituível.
Nenhuma democracia deveria depender da eternização dos seus protagonistas.
Novos nomes — Renan Santos ou quaisquer outros capazes de apresentar projetos consistentes — deveriam ser julgados pelo que propõem, não apenas por aqueles a quem se opõem.
Porque renovação política não acontece simplesmente quando trocamos os personagens.
Acontece quando mudamos as perguntas.
O adversário que não aparece na urna
Talvez um dos maiores riscos de 2026 seja definirmos equivocadamente quem são os nossos adversários.
O principal adversário de Lula não deveria ser um Bolsonaro.
O principal adversário do bolsonarismo não deveria ser Lula.
O principal adversário de Renan Santos não deveria ser nenhum dos dois.
Os verdadeiros adversários do próximo presidente serão muito menos convenientes eleitoralmente.
Baixa produtividade.
Educação insuficiente.
Crime organizado.
Infraestrutura deficiente.
Desigualdade de oportunidades.
Insegurança jurídica.
Burocracia.
Desequilíbrio fiscal.
Ausência de planejamento de longo prazo.
Nenhum deles concede entrevistas.
Nenhum participa dos debates eleitorais.
Nenhum possui milhões de seguidores.
Mas todos estarão esperando pelo vencedor no dia seguinte à posse.
Amartya Sen propôs uma visão de desenvolvimento que vai além do crescimento econômico: uma sociedade se desenvolve quando amplia as capacidades e as liberdades reais das pessoas para construir suas próprias vidas.
Talvez seja uma boa régua para avaliar qualquer projeto presidencial.
Não apenas quantos seguidores consegue mobilizar.
Não quanto barulho produz.
Não quão eficientemente destrói reputações adversárias.
Mas quantas possibilidades concretas consegue criar para milhões de brasileiros.
Essa deveria ser a verdadeira competição de 2026.
Não descobrir quem consegue derrotar melhor o outro lado.
Mas quem consegue apresentar uma estratégia convincente para transformar o Brasil que temos no Brasil que poderíamos ser.
Porque eleições passam.
Presidentes passam.
Movimentos políticos passam.
Países permanecem.
E talvez a pergunta mais importante que devêssemos levar conosco até a urna não seja apenas em quem votar.
É outra:
que país queremos encontrar quando a próxima eleição chegar?
Talvez o maior risco de 2026 não seja escolhermos o candidato errado.
É atravessarmos mais uma eleição escolhendo cuidadosamente um lado, sem jamais decidir um destino.
Uma das minhas frases favoritas: “Para quem não sabe para onde ir, qualquer caminho leva”
