Como a previsível crise do modelo econômico da China afetará o Brasil?

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E se o Brasil tentasse copiar a China para se desenvolver?

Desenvolvimento chinês está umbilicalmente ligado ao seu modelo político e econômico. Crédito: Bárbara Pereira/Estadão

Durante quase meio século, a China realizou uma transformação econômica sem paralelo histórico. Primeiro, tornou-se o chão de fábrica do mundo. Depois, passou a produzir boa parte das máquinas que equipam a indústria mundial. Agora, começa a descobrir um problema menos glorioso: quem vai comprar tudo isso.

Por décadas, o modelo garantiu crescimento ininterrupto. Exportações, investimentos, infraestrutura, crédito subsidiado e mão de obra abundante permitiram que a China construísse uma capacidade industrial sem equivalente histórico.

Nas últimas duas décadas, porém, o modelo sofreu uma mutação. O crescimento passou a depender cada vez mais não apenas da eficiência exportadora, mas da manutenção de capacidade produtiva muito superior à demanda.

Porto de Xangai, na China: país precisa encontrar cada vez mais compradores para seu excesso de produção Foto: CN-STR/AFP

A explicação, como quase sempre na China, começa pela política interna. Para o Partido Comunista, uma fábrica produz empregos, arrecadação local, estabilidade social e, sobretudo, legitimidade política. Fechar uma empresa, mesmo inviável, significa, para um secretário provincial do Partido, desemprego, queda da arrecadação e algumas perguntas desagradáveis de Pequim.

Daí emerge um sistema em que governos locais sustentam empresas deficitárias (30% da indústria hoje); bancos estatais refinanciam dívidas de empresas; governos provinciais competem para preservar suas bases industriais.

O resultado aparece nas estatísticas. Em 2025, o superávit comercial chinês de bens atingiu aproximadamente US$ 1,19 trilhão, contra US$ 992 bilhões no ano anterior. As exportações cresceram 5,5%, enquanto as importações permaneceram estagnadas, refletindo também a fraqueza da demanda doméstica. Há ainda o outro lado da equação: consumo doméstico relativamente baixo, elevada poupança das famílias, rede de proteção social limitada, crise imobiliária, endividamento dos governos locais e um modelo que historicamente privilegiou investimento e produção em relação ao consumo.

A China precisa encontrar compradores externos para uma parcela crescente da produção que sua própria economia não consegue absorver. Mas a capacidade de absorção do restante do mundo não é infinita. E quando fabricantes estrangeiros perdem participação, investimentos são cancelados, fábricas fecham e empregos industriais desaparecem, a economia encontra a política.

Esta reação já se viu em Washington ainda no primeiro governo Donald Trump. Joe Biden preservou boa parte das tarifas contra produtos chineses e acrescentou política industrial e subsídios. Trump voltou ao poder ampliando drasticamente a utilização do comércio como instrumento de segurança econômica, conceito admiravelmente elástico.

A Europa enfrenta dilema semelhante. Em 2025, a União Europeia importou € 559,4 bilhões em produtos chineses, crescimento de 6,4% sobre o ano anterior. A China respondeu por mais de 22% das importações extrabloco.

A Alemanha, locomotiva do bloco, oferece um retrato ainda mais dramático. Em 2025, as exportações alemãs para o mercado chinês caíram quase 10%. O déficit bilateral alemão chegou a € 89,3 bilhões. Para um país cuja identidade econômica foi construída sobre automóveis, máquinas e exportações industriais, não se trata de detalhe estatístico.

Por isso, a disputa entre China e Europa sobre capacidade excedente provavelmente será um dos grandes conflitos comerciais dos próximos anos. Veículos elétricos foram apenas a primeira batalha visível. Máquinas, produtos químicos, aço, baterias, equipamentos de energia renovável e outras manufaturas certamente se seguirão.

Quando Estados Unidos e Europa fecham progressivamente suas portas, os contêineres chineses não desaparecem. Direcionam-se a mercados médios, como Brasil, México, Argentina, Turquia e Índia. E suas indústrias dispõem de menos capacidade política, financeira e tecnológica para responder à avalanche de importações do que Estados Unidos ou União Europeia.

Para o Brasil, o problema não termina na concorrência dentro do mercado nacional. Empresas brasileiras também disputam com fabricantes chineses seus mercados da América Latina.

Uma tarifa antidumping aqui, uma elevação tarifária acolá e uma investigação de subsídios podem aliviar determinados setores. Mas medidas pontuais dificilmente conterão um fenômeno dessa dimensão.

Obviamente, confundir toda competitividade com subsídio seria intelectualmente preguiçoso e juridicamente perigoso. O problema é outro: distinguir eficiência, escala, subsídio, planejamento estatal e ambição geopolítica quando frequentemente chegam no mesmo contêiner.

Mas existe uma segunda pergunta, igualmente importante. O que acontecerá com o Brasil se, ou quando, a própria economia chinesa enfrentar uma crise séria?

A China é o principal destino das exportações brasileiras e responsável por parcela decisiva do superávit comercial brasileiro. Uma desaceleração mais profunda atingiria justamente commodities que sustentam boa parte da relação bilateral. Menor atividade industrial significa menor demanda por minério de ferro. Problemas no setor imobiliário afetam aço e minerais. Menor crescimento e menor confiança podem alterar consumo e importações de alimentos.

Nesse cenário, o Brasil descobrirá rapidamente o custo de ter concentrado sua relação com a China na exportação de commodities e na importação de manufaturados.

Daí a necessidade de antecipação. Diversificação de mercados, acordos comerciais, financiamento às exportações, defesa comercial robusta e uma política industrial concentrada em setores nos quais o Brasil tenha vantagens estratégicas.

Em artigo recente, o ex-USTR Michael Froman advertiu que a capacidade mundial de absorver o excesso produtivo chinês se aproxima de um ponto de ruptura.

Curiosamente, pouco disso aparece no debate eleitoral. Discute-se muito quem ofendeu mais ou se indignou menos. Seria útil reservar alguns minutos para questões menos viralizantes: quais mercados substituirão a China numa crise? Que política industrial serve ao Brasil? Como financiar sua transformação? Como responder ao desvio das exportações chinesas para a América Latina?

São perguntas menos divertidas do que as ofensas recíprocas. Também são as perguntas que continuarão existindo depois da eleição e comprometerão a próxima geração de brasileiros.



Fonte
ONU

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