FIAGRO e CRA para agtechs

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Por que as Agtechs estão superando os bancos?

O agronegócio brasileiro está diante de um colapso de preços do crédito. O Plano Safra 2025/2026 liberou R$ 516,2 bilhões, sendo que só 34% tem juros equalizados. O restante acompanha a Selic de 15% ao ano. A taxa de inadimplência do crédito rural atingiu 6,5% em 2025, o maior índice já registrado. Em operações sem taxas, o índice chegou a 11,4% em outubro de 2025.

As 2.075 agtechs do Radar Brasil 2025 não se limitam a buscar venture capital nesse vácuo. Estão se tornando emissoras de crédito estruturado: oferecem financiamento ao produtor, criam recebíveis e os utilizam como lastro para CRAs e FIAGROs. O mercado de capitais está reestruturando o setor, com startups atuando como novos intermediários entre os produtores e os investidores institucionais.

FIAGROs: A Nova Fonte de Financiamento para Startups

Os FIAGROs voltaram com tudo em 2026: R$ 3,957 bilhões em ofertas nos quatro primeiros meses, um aumento de 128% em relação ao ano passado. O patrimônio líquido do setor vai de R$ 48,7 bilhões para R$ 50 bilhões.

Fundos como o Suno Asset (R$ 307 milhões em maio/2026) e o Valora (R$ 662 milhões em março/2026) investem em irrigação, armazenamento e tecnologia de precisão, que é o domínio das agtechs. A Suno capta CDI + 2% a 4%, sem Imposto de Renda para pessoa física e com pulverização entre 130 mil cotistas (média de R$ 7 mil por investidor).

Para as agtechs, o FIAGRO proporciona um financiamento de longo prazo que não utiliza a linha bancária e não exige garantias reais convencionais. Uma startup financia o produtor, cria um recebível e esse recebível serve como garantia para uma cota de FIAGRO.

CRAs: A Que Custo é Possível Captar Direto?

Em 2025, as emissões de CRA na B3 totalizaram R$ 46 bilhões (+13% em relação a 2024), com um estoque que ultrapassa os R$ 350 bilhões. O instrumento possibilita que agtechs de médio e grande porte realizem captações de forma direta, sem a intermediação de bancos, lastreando contratos de venda futura.

A estruturação, no entanto, não sai barata: em uma emissão de R$ 200 milhões, as taxas de coordenação, securitização, due diligence, classificação e distribuição ficam entre R$ 4 milhões e R$ 10 milhões — algo em torno de 1% ao ano, que é diluído em cinco anos. Isso preserva o CRA como uma ferramenta para empresas já estabelecidas, mas a linha se desloca: as 852 agtechs que atuam “dentro da porteira” começam a alcançar o porte necessário para estruturar operações.

O Custo Real do Dinheiro e o Perigo da Inadimplência

Em média, CRA e FIAGRO pagam CDI + 2% a 4% — ou 17% a 19% ao ano com a Selic em 15%. Para o produtor, o custo efetivo pode ultrapassar 20%. Ainda assim, o crédito privado se torna compensador ao distribuir o risco entre milhares de investidores.

Banco do Brasil: A inadimplência bancária no setor agropecuário fez com que o Banco do Brasil adotasse uma postura mais cautelosa, resultando em um aumento de sua taxa de inadimplência de 1,19% para 3,04% no início de 2025. Isso levou o banco a elevar suas provisões de R$ 3 bilhões para R$ 5,2 bilhões, o que impactou seu lucro ajustado, que caiu em 20,7%. Quando os bancos se tornam cautelosos, o mercado de capitais assume um papel de substituto, embora não ideal, mas essencial.

As gestoras oferecem garantias reais adicionais, um processo rigoroso de seleção de originadores e estruturas de subordinação. O discurso da Suno — “não tivemos inadimplência até hoje” — é o resultado de uma seleção de devedores, e não da ausência de um risco sistêmico.

A Agtech enquanto Plataforma de Financiamento: O Efeito Cascata

Quando uma agtech começa a emitir recebíveis e a estruturar títulos, ela se transforma em um componente essencial da infraestrutura financeira do agronegócio. Isso produz três resultados:

1. Concentração de informações: acesso a dados históricos sobre produtividade, custos e clima diminui a assimetria informacional, possibilitando uma avaliação de riscos mais precisa;

2. Lock-in comercial: o produtor financiado provavelmente ficará dentro do ecossistema da agtech, o que resulta em uma receita contínua;

3. Escalabilidade: a estrutura de securitização, que já está montada, é replicada a cada safra.

O perigo reside na concentração de várias funções—tecnologia, crédito e mercado de capitais—em uma única empresa. Se a colheita não tem sucesso, o produtor não efetua o pagamento; caso o produtor não pague, a agtech não cumpre o CRA; se o CRA não é honrado, o FIAGRO acaba registrando uma perda. A cadeia é interconectada — e vulnerável.

Previsões: O Que Acompanhar nos Próximos 18 Meses?

O crédito privado não é uma alternativa ao crédito bancário. Foca onde o banco não chega. Com a Selic alta e a inadimplência em níveis recordes, os bancos continuam a agir com cautela. Três variáveis irão determinar o caminho a seguir:

1. Selic: um corte diminuiria o diferencial entre crédito privado e bancário, tornando o CRA/FIAGRO menos atraente. Contudo, o “estrago acumulativo” da inadimplência prolonga a fragilidade mesmo após cortes;

2. Fim da isenção de IR: o governo está debatendo a revogação da isenção para novas emissões a partir de 2026. Se aprovada, a medida diminuiria a rentabilidade líquida do investidor em 22,5%, tornando a captação mais cara;

3. Agtechs em fase de maturidade: das 2.075 startups, só aquelas com receita recorrente e previsível se tornarão originadoras. As outras continuarão a depender do capital de risco — um mercado que também secou com a elevação das taxas de juros.

O Que Deve Ser Analisado Pelo Investidor?

O financiamento do agronegócio está passando por uma reestruturação dinâmica. Para o investidor, a questão não é se CRA e FIAGRO são atrativos — eles são. Se o lastro consegue se manter diante da queda das commodities, do real valorizado e dos altos custos de produção devido a insumos importados.

O desafio para as agtechs é a governança: criar um sistema de crédito que seja tão sólido quanto o de uma cooperativa, mas sem abrir mão da agilidade de uma startup. O mercado de capitais não tolera a inadimplência com a mesma calma que um fundo de capital de risco.

Segundo o produtor, a nova realidade consiste em diversificar as fontes de receita. O crédito dos bancos estatais não vai acabar, mas vai ser cada vez mais suplementado — e, em alguns casos, substituído — por instrumentos negociados na B3, emitidos por fintechs que ele jamais imaginou que fossem seus credores.

O agronegócio brasileiro é sustentado por algoritmos, empresas de securitização e cotas de fundos. A questão que fica é: quando a próxima crise climática ou financeira chegar, quem terá lastro suficiente para cumprir suas promessas?



Fonte Startupi

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