Da parceria com John Casablancas ao encontro com Donald Trump, da mobilização de milhões de pessoas com o Câncer de Mama no Alvo da Moda à criação da Dealmakers Academy, a trajetória de Ricardo Bellino aponta para uma nova fronteira: usar a arte da negociação para construir pontes, promover o diálogo e transformar capital de relacionamento em impacto humanitário.
Durante a maior parte de sua trajetória profissional, Ricardo Bellino foi definido por uma palavra: dealmaker.
Ao longo de mais de quatro décadas, negociou parcerias, criou empresas e conectou pessoas e interesses que, à primeira vista, pareciam distantes. Sua trajetória começou muito cedo e foi marcada pela capacidade de transformar ideias improváveis em possibilidades concretas.
Ainda jovem, tornou-se sócio de John Casablancas, fundador da Elite Model Management, em uma parceria que ajudou a transformar o mercado da moda e de modelos no Brasil. Anos depois, Bellino protagonizaria um dos episódios mais conhecidos de sua trajetória ao conseguir apresentar uma proposta de negócios a Donald Trump em apenas três minutos, transformando um encontro improvável em uma parceria.
As duas experiências, apesar de muito diferentes, ajudaram a formar uma convicção: uma negociação bem-sucedida raramente depende apenas de números. Ela exige compreender motivações, construir confiança e encontrar o ponto em que interesses diferentes podem avançar na mesma direção.
Agora, sua recente nomeação como Diplomata Civil Humanitário pela Jethro International acrescenta uma nova dimensão a essa trajetória.
A pergunta que surge é provocadora: e se as mesmas habilidades utilizadas para fechar negócios milionários fossem aplicadas também à construção de acordos humanitários, coalizões sociais e iniciativas em favor da saúde física e mental?
O mundo precisa de bons negócios. O capital cria empresas, inovação, empregos e oportunidades. Mas uma sociedade fragmentada também precisa de construtores de pontes capazes de conectar organizações, comunidades e indivíduos em torno de propósitos comuns.
É nesse espaço que Bellino enxerga o potencial da diplomacia civil humanitária.
Diferentemente da diplomacia tradicional, conduzida por Estados e representantes oficiais, a diplomacia civil pode criar espaços complementares de diálogo e cooperação por meio da sociedade civil, de empresários, educadores, filantropos e outros atores não estatais.
Para um dealmaker, as ferramentas são familiares: ouvir, compreender interesses, administrar conflitos, construir confiança e encontrar pontos de convergência.
A diferença está no propósito da negociação. Quando um negócio se transforma em movimento
Um dos capítulos mais importantes da trajetória de Bellino começou há mais de 30 anos, quando ele trouxe para o Brasil o movimento Fashion Targets Breast Cancer, conhecido no país como O Câncer de Mama no Alvo da Moda.
Criada a partir da força da indústria da moda e tendo Ralph Lauren como um de seus grandes pilares internacionais, a iniciativa mostrou que uma causa de saúde poderia mobilizar empresas, celebridades, mídia, varejo e milhões de consumidores em torno de uma mensagem comum.
No Brasil, algo extraordinariamente simples — uma camiseta — transformou-se em veículo de educação, conscientização e arrecadação de recursos.
Mais de 14 milhões de camisetas foram comercializadas no país, ajudando a gerar mais de US$ 50 milhões para iniciativas relacionadas à pesquisa e ao tratamento do câncer de mama.
Mas talvez a maior lição do movimento tenha sido sobre a construção de coalizões.
Uma causa precisava de um símbolo. O símbolo precisava de distribuição. A indústria da moda ofereceu escala. Personalidades públicas amplificaram a mensagem. Consumidores transformaram uma compra em participação. Instituições ligadas ao câncer de mama ganharam recursos e visibilidade.
Nenhum desses grupos teria produzido o mesmo impacto isoladamente. O papel do dealmaker foi conectá-los. A experiência ajudou Bellino a ampliar sua visão sobre negociação. Nem toda negociação termina com duas assinaturas em um contrato. Algumas resultam na criação de empresas. Outras, na criação de movimentos.
O mesmo princípio pode ser aplicado a desafios como saúde mental, crises humanitárias, fragmentação social e reconstrução da confiança. Nenhum setor é capaz de resolvê-los sozinho.
Esses desafios exigem coalizões. E coalizões exigem pessoas capazes de construir alinhamento.
Cinco princípios do Humanitarian Dealmaking
A combinação das experiências de Bellino no mundo dos negócios e em iniciativas de impacto social aponta para cinco princípios que podem orientar líderes interessados em aplicar a arte da negociação além das transações tradicionais.
- Negociar interesses, não apenas posições
O primeiro papel de um dealmaker é descobrir o que cada parte realmente precisa. Segurança? Reconhecimento? Recursos? Oportunidade? Dignidade?
Posições frequentemente dividem. Interesses podem revelar convergências.
Antes de apresentar uma solução, é preciso compreender as expectativas reais de cada participante. Uma coalizão dificilmente sobrevive quando seus integrantes compartilham um slogan, mas possuem interesses incompatíveis.
- Ouvir antes de tentar convencer
A objeção visível nem sempre é a verdadeira. Por trás da resistência podem existir medo, desconfiança ou experiências negativas anteriores.
A escuta ativa, nesse contexto, transforma-se em inteligência estratégica.
Grandes negociadores procuram compreender a lógica da decisão da outra parte antes de apresentar uma solução. A qualidade de um acordo frequentemente depende da qualidade das perguntas feitas antes que uma proposta seja colocada sobre a mesa.
- Construir um resultado que todos possam defender
Acordos sustentáveis não podem ser construídos sobre a humilhação de uma das partes.
Uma boa negociação permite que cada participante explique aos seus stakeholders por que o acordo faz sentido.
O objetivo não é fazer o outro lado perder, mas criar uma solução que todos os envolvidos possam legitimamente defender.
Essa lógica vale para uma negociação empresarial, uma coalizão social ou uma iniciativa humanitária.
- Transformar símbolos em ação
O sucesso da camiseta do Câncer de Mama no Alvo da Moda oferece uma lição: movimentos precisam de significado, mas também de mecanismos de participação.
A camiseta tornou uma causa complexa visível, compreensível e acessível.
A pergunta para líderes é: qual é a ação significativa mais simples capaz de transformar espectadores em participantes?
Em alguns casos, as estratégias mais sofisticadas se expressam por meio dos mecanismos mais simples.
- Medir valor além do retorno financeiro
Líderes empresariais estão acostumados a medir receita, margem e valuation. Iniciativas humanitárias exigem métricas adicionais: pessoas mobilizadas, conscientização gerada, instituições conectadas, recursos direcionados e confiança construída.
Confiança também é capital. Assim como credibilidade, cooperação e a capacidade de reunir pessoas que normalmente não estariam sentadas à mesma mesa.
Nem tudo o que cria valor aparece em um balanço financeiro.

Da experiência ao legado: a Dealmakers Academy
A criação recente da Dealmakers Academy representa outro capítulo dessa evolução. Depois de décadas construindo negócios e parcerias, Bellino decidiu transformar sua experiência em metodologia e criar uma plataforma de formação para uma nova geração de negociadores.
Mais do que ensinar técnicas para fechar negócios, a proposta da Academy parte de uma visão mais ampla: formar pessoas capazes de identificar oportunidades, conectar interesses e transformar relacionamentos em valor.
Nesse contexto, a Dealmakers Academy também pode ser entendida como um projeto de legado. Se a primeira fase da trajetória de um empreendedor é dedicada a fazer, a seguinte pode ser dedicada a ensinar. E uma terceira talvez seja dedicada a colocar experiência, reputação e relacionamentos a serviço de desafios maiores.
É justamente nesse ponto que a educação de novos dealmakers e a diplomacia civil humanitária começam a convergir. A negociação deixa de ser apenas uma competência comercial e passa a ser compreendida como uma ferramenta de transformação. Quando uma rede se transforma em infraestrutura de impacto
Depois de décadas no mundo dos negócios, muitos líderes acumulam um ativo extraordinário sem reconhecer todo o seu potencial: uma rede de relacionamentos. Normalmente, uma network é vista por sua utilidade comercial. Quem pode apresentar um investidor? Quem pode abrir um mercado? Quem pode facilitar uma parceria?
A diplomacia civil humanitária propõe outras perguntas. Quem pode ajudar a resolver um problema? Quais instituições deveriam se conhecer? Que conhecimento pode ser conectado a um desafio humanitário? Qual relacionamento poderia iniciar uma conversa que hoje não existe?
Uma agenda de contatos pode se transformar em infraestrutura de impacto.
Isso não significa que todo empresário deva se tornar diplomata. A diplomacia civil não substitui governos, diplomatas profissionais ou organizações humanitárias especializadas. Seu papel é complementar.
Líderes experientes podem contribuir com aquilo que aprenderam a fazer durante suas trajetórias: reunir pessoas, mobilizar recursos, construir coalizões e transformar ideias em execução.
A ideia não é se tornar o centro da solução. É ajudar a tornar a solução possível.
O negócio mais valioso de uma vida
Todo líder experiente, em algum momento, precisa enfrentar uma pergunta: o que fazer com o capital acumulado ao longo da vida? E não se trata apenas de capital financeiro.
Existe o capital de relacionamentos, de reputação, de conhecimento e de confiança.
Da parceria com John Casablancas ao encontro de três minutos com Donald Trump, da mobilização nacional do Câncer de Mama no Alvo da Moda à criação da Dealmakers Academy, a trajetória de Bellino foi construída ao redor de uma mesma competência: conectar pessoas, interesses e possibilidades.
Sua atuação na diplomacia civil humanitária propõe agora um novo destino para essa experiência.
Dealmakers podem negociar muito mais do que transações. Podem negociar colaboração. Podem colocar pessoas diferentes na mesma sala. Podem conectar capital a causas. Podem transformar visibilidade em conscientização e conscientização em ação.
Depois de quatro décadas negociando no mundo dos negócios, Bellino passa a defender uma nova evolução para o papel do dealmaker: tornar-se melhor não apenas em vencer negociações, mas em construir acordos nos quais mais pessoas possam vencer.
Talvez a pergunta mais importante para um líder não seja apenas: “Qual é o próximo negócio que posso fechar?”
Mas sim:
Qual é o acordo que somente alguém com meus relacionamentos, minha experiência e minha credibilidade pode ajudar a tornar possível?
A resposta talvez nunca apareça em um balanço. Mas pode se tornar o negócio mais valioso de uma vida.
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