Indústria de autopeças da Argentina sofre com Milei – 10/05/2026 – Economia

Compartilhar:

Em uma pequena fábrica familiar de autopeças nos arredores de Buenos Aires, as linhas de produção estão paradas.

A fábrica opera abaixo da capacidade enquanto a empresa, Suspenmec, luta para competir com a enxurrada de peças importadas mais baratas, muitas da China, depois que a Argentina flexibilizou drasticamente as restrições comerciais.

As vendas este ano caíram cerca de 30% na empresa, que fabrica 600 tipos de peças de suspensão.

As reformas econômicas agressivas do presidente Javier Milei —incluindo a redução drástica das barreiras de importação e a valorização do peso— ajudaram a estabilizar a economia. Mas para muitos pequenos e médios fabricantes há muito protegidos da concorrência estrangeira, o ajuste foi repentino e doloroso.

As importações de autopeças subiram 11,6% em 2025 em relação ao ano anterior, para cerca de US$ 10,32 bilhões (cerca de R$ 51 bilhões), segundo a associação do setor AFAC. As exportações, principalmente para o vizinho Brasil, cresceram apenas 1,2%, para aproximadamente US$ 1,28 bilhão (R$ 6,29 bilhões) (R$ 6,3 bilhões). As importações da China, por sua vez, saltaram 80,9% na comparação anual, para US$ 1,46 bilhão (R$ 7,17 bilhões) (R$ 7,1 bilhões), embora o Brasil tenha permanecido como principal fornecedor.

“É preocupante. Sentimos o impacto das importações livres [de tarifas] de tantas marcas”, disse Lucas Panarotti, sócio da Suspenmec, enquanto estava ao lado de máquinas paradas na fábrica.

Outros fabricantes de autopeças, incluindo a sueca SKF e a americana Dana, fecharam algumas de suas fábricas na Argentina.

As dificuldades dos fabricantes locais se refletem na queda da produção de autopeças, que recuou 22,5% nos dois primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período de 2025, segundo a agência de estatísticas do governo INDEC, que não especificou volumes.

A produção de veículos, que atingiu 490 mil unidades em 2025, caiu 19% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao ano anterior.

“É um ponto de virada. Entramos muito rapidamente em um novo ecossistema, onde a abertura da economia e do comércio internacional pressionou as empresas industriais argentinas”, disse Nicolás Ballestrero, CEO do Grupo Corven, que registrou queda na produção e nas exportações este ano.

Especialistas afirmam que a indústria automotiva argentina precisa se especializar e expandir as exportações para se adaptar. Andrés Civetta, economista especializado no setor industrial na consultoria Abeceb, estima que o país poderia eventualmente exportar cerca de 400 mil veículos comerciais leves por ano, ante os aproximadamente 280 mil enviados no ano passado, principalmente para o Brasil e outros mercados latino-americanos.

O governo argentino não respondeu a um pedido de comentário.

EQUILÍBRIO DELICADO PARA MILEI

A situação no setor de autopeças reflete uma tendência mais ampla que está beneficiando grandes exportadores de commodities enquanto boa parte da indústria argentina voltada ao mercado doméstico enfrenta dificuldades.

Embora o superávit comercial do país sul-americano tenha subido para US$ 2,5 bilhões (R$ 12,28 bilhões) (R$ 12,29 bilhões) em março, 24.180 empresas, ou cerca de 5% do total em funcionamento, fecharam entre novembro de 2023, pouco antes de Milei assumir o cargo com uma agenda libertária de direita, e janeiro deste ano, segundo a consultoria Fundar.

Enquanto dados do INDEC mostram que a atividade econômica caiu 2,1% em fevereiro em relação ao ano anterior, setores como mineração, agricultura e pesca registraram altas entre 8% e 15%. A indústria manufatureira, no entanto, teve queda de 8,7%, e o comércio varejista recuou 7%.

“Com um peso que se valorizou 10% em relação a dezembro passado, implicando 10% de inflação em dólar, haverá muitas dificuldades para empresas que produzem e competem com importações fazerem isso com sucesso”, disse Ricardo Delgado, economista que dirige a consultoria Analytica.

Delgado, que espera um crescimento econômico de cerca de 2% na Argentina em 2026, disse que a maior questão é que os setores prejudicados pelo modelo econômico de Milei geram mais empregos e receita tributária do que outros, potencialmente minando o superávit fiscal prezado pelo governo.

É um equilíbrio delicado para Milei antes de sua tentativa de reeleição no próximo ano. Uma pesquisa da consultoria Giacobbe & Associates mostra sua taxa de aprovação em 36%, queda de quase seis pontos percentuais em relação a março.

O índice de confiança no governo da Universidade Torcuato Di Tella caiu para 2,02 pontos em abril, recuo de 12% em relação à leitura do mês anterior. O índice é medido em uma escala de zero a cinco.

As fábricas também estão sendo pressionadas pelo enfraquecimento da demanda após a política de austeridade de Milei para conter a alta inflação ter reduzido o poder de compra dos argentinos.

A desaceleração afetou o mercado de trabalho. O desemprego subiu para 7,5% no quarto trimestre de 2025, ante 6,4% um ano antes. Somente o setor de autopeças perdeu cerca de 5.000 empregos em 2025, ou 10% de sua força de trabalho, mostram dados da AFAC.

Analistas afirmaram que o desemprego seria maior se não fosse pelos trabalhadores demitidos migrando para o emprego informal, como motoristas de aplicativo.



Fonte UOL

Artigos relacionados

O RH da empresa no celular do colaborador

É possível ao RH tornar-se protagonista da estratégia do negócio? Por Armando Ribeiro No início dos anos 2000, liderei um...

Sam Altman nega traição e diz que Musk queria controlar OpenAI

O CEO da OpenAI, Sam Altman, negou a acusação feita por Elon Musk de que teria traído a...