O Brasil gosta de falar da Amazônia como promessa. Promessa climática, diplomática, de bioeconomia, de liderança tropical num mundo que procura novas respostas para a segurança alimentar, energética e ambiental.
Mas há uma pergunta anterior a todas essas promessas: quem manda no território?
Sem responder a essa pergunta, a bioeconomia vira discurso de seminário. O agronegócio legal fica refém da ilegalidade. A floresta em pé compete com a grilagem, o garimpo, a lavagem de dinheiro e o desmatamento criminoso.
É por isso que o relatório “Investigação Sistemática da Criminalidade e Representação Política na Amazônia Legal”, produzido pelo FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo LEGAL – Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal, deveria ser lido muito além dos círculos de segurança pública. Ele interessa ao agro, aos bancos, às tradings, às indústrias, aos investidores da bioeconomia e a todos que ainda acreditam ser possível construir uma economia amazônica baseada em legalidade, rastreabilidade e floresta em pé.

A bioeconomia amazônica precisa de contrato, origem comprovada, segurança jurídica, comunidades protegidas, logística limpa e previsibilidade Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
O mérito do estudo é deslocar o debate. A criminalidade na Amazônia não aparece apenas como problema policial. Surge como um ecossistema político, territorial e econômico. O relatório pergunta algo até aqui pouco explorado: quem são, de onde vêm e como atuam os parlamentares campeões de voto nos municípios da chamada Rota da Criminalidade. A conclusão é incômoda; em geral, esses parlamentares também se especializam eleitoralmente nessas cidades, e a influência política em territórios vulneráveis é, em vários casos, decisiva para a sustentação de seus mandatos. O estudo não acusa ninguém de vínculo com o crime. Mas a coincidência política que ele revela deveria acender um alerta.
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A Amazônia não é apenas um vazio de Estado. Em muitos lugares, é território de presença seletiva: cartório que regulariza o que não deveria, liderança local que intermedia favores, estrutura policial insuficiente ou capturada, fiscalização ambiental enfraquecida. O relatório identifica elites locais marcadas por capital econômico concentrado, redes familiares longevas e atores oriundos das forças de segurança e aponta que esses mandatos frequentemente se traduzem em agendas simbólicas ou corporativas, não em políticas estruturantes de segurança pública ou enfrentamento das economias ilícitas.
A bioeconomia amazônica precisa de contrato, origem comprovada, segurança jurídica, comunidades protegidas, logística limpa e previsibilidade. Nada disso prospera em território onde a ilegalidade controla rotas, intimida lideranças, compra silêncio e molda a política local. A floresta em pé não concorre apenas com a motosserra. Concorre com uma economia do crime que tem financiamento, armas, influência e, muitas vezes, capacidade de se apresentar como atividade legal.
O agronegócio também deveria olhar para esse diagnóstico sem defensividade. O relatório não é uma acusação ao agro. Ao contrário, ajuda a separar o produtor legal do predador territorial.
A agropecuária moderna perde quando boi de área embargada entra na cadeia formal. Perde quando terra pública grilada vira ativo privado. Perde quando madeira ilegal é “esquentada”. Perde quando capital ilícito compra fazenda, posto e transportadora numa aparência de normalidade. Perde, sobretudo, quando o mundo passa a olhar para o produto brasileiro sem distinguir quem cumpre a lei de quem vive da sua violação.
Essa discussão ganhou outra dimensão com a investigação aberta nos Estados Unidos contra práticas brasileiras. A Seção 301, conduzida pelo USTR, ao incluir temas como combate à corrupção e desmatamento ilegal, transforma fragilidades institucionais brasileiras em risco comercial e geopolítico. O órgão afirma que o Brasil aparenta falhar na aplicação efetiva de leis contra o desmatamento ilegal, o que afetaria a competitividade de produtores americanos e justificaria pressão tarifária. A mensagem é dura: numa ordem internacional marcada por rastreabilidade e concorrência estratégica, não basta produzir muito. É preciso provar origem, legalidade e capacidade de fiscalização.
O produtor legal pode ser penalizado pela sombra projetada pelo ilegal. O boi de área embargada e a madeira esquentada deixam de ser problemas locais. Viram argumento externo para barreiras, sanções e encarecimento de capital.
É aqui que o debate se aproxima, em outra escala, do caso Master.
O Master não envolve floresta, garimpo ou grilagem. Mas revela a mesma doença institucional, a dificuldade brasileira de separar dinheiro, poder político, regulação e responsabilização. Quando controles falham no alto sistema financeiro, quando relações políticas protegem interesses privados escusos, quando Executivo, Legislativo e Judiciário parecem incapazes de reagir com a velocidade e a firmeza necessárias, o país recebe o mesmo recado: nossas instituições ainda são vulneráveis à captura.
O Brasil está na 107.ª posição entre 180 países no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, a pior nota e a pior colocação da série histórica, iniciada em 2012. Quando essa percepção se combina com casos de corrupção, infiltração criminosa, impunidade seletiva e baixa confiança na autoridade pública, o resultado é corrosivo. A sociedade passa a desconfiar não apenas de governos, mas da própria capacidade do Estado de proteger o interesse público.
Na Amazônia, essa desconfiança ganha corpo no território. Aparece como terra apropriada, liderança ameaçada, rio contaminado, floresta derrubada, comunidade intimidada e política local alimentada por dependência, corrupção ou medo.
Não haverá bioeconomia amazônica robusta sem segurança pública. Também não haverá segurança pública eficaz sem regularização fundiária, inteligência financeira, controle de cadeias produtivas, fiscalização ambiental e coragem política para enfrentar elites locais quando elas forem parte do problema.
O Brasil precisa parar de tratar crime organizado, corrupção, desmatamento, grilagem, bioeconomia, agronegócio e comércio exterior como agendas separadas. Elas se encontram no território. E é no território que o futuro da Amazônia será decidido.
Na nova geopolítica, soberania não será medida apenas pela posse formal do território, mas pela capacidade de demonstrar que ele é governado pela lei, não pelo crime. Países que conseguem provar origem, integridade e “enforcement” transformarão recursos naturais em poder estratégico.
A floresta em pé precisa de mercado. Mas mercado nenhum floresce onde manda o crime. O agro precisa de competitividade. Mas competitividade verdadeira não se sustenta quando a origem está sob suspeita. A bioeconomia precisa de inovação. Mas inovação não sobrevive sem lei, confiança e segurança.
O estudo do FBSP e do LEGAL nos obriga a abandonar a ingenuidade. A investigação americana nos obriga a abandonar a ilusão de que fragilidades internas não têm custo externo. E o caso Master nos lembra que a captura institucional não tem endereço fixo; ela acontece na fronteira amazônica e no salão nobre da Faria Lima. É o mesmo país. É o mesmo problema.
Nas eleições de outubro, vale perguntar se algum candidato à presidência colocará esse nó no centro do debate. Não a Amazônia como símbolo, não o agro como bandeira, não a segurança pública como pauta de ordem, mas a pergunta estrutural sobre quem governa o território e em nome de quem. A solução não cabe num programa de governo de cem dias. Ela exige uma coalizão rara: setor privado disposto a exigir rastreabilidade real de suas próprias cadeias, mídia disposta a cobrar mandatos pelo que fazem nos territórios onde se elegem, e uma classe política capaz de entender que governar a Amazônia pela lei não é agenda ambiental. É agenda de sobrevivência econômica, diplomática e institucional do Brasil. Quem tiver coragem de dizer isso em voz alta, com propostas concretas e sem populismo, merece ser ouvido. E cobrado.
Fonte ONU