O choque do petróleo na esteira da guerra no Oriente Médio já está provocando pressões inflacionárias globais que complicam a vida dos bancos centrais. Agora, porém, segundo o economista Livio Ribeiro, sócio-fundador da consultoria BRCG e pesquisador associado do FGV-IBRE, há outra fonte de pressão mundial sobre os preços: a China parou de exportar deflação para o resto do mundo.
O analista observa que, a partir do segundo semestre de 2025, parece ter chegado ao fim um longo período na China, que vem desde 2022, de deflação dos preços ao produtor (PPI) e de letargia dos preços ao consumidor (CPI). Isso significa que o país asiático conseguiu em certa medida reduzir a sobreoferta de produtos que pressiona os preços para baixo.
Ribeiro acrescenta que esse fenômeno de redução de sobreoferta ocorreu pela última vez no período 2016-2018, invertendo na época a pressão sobre preços exercida pela China no resto do mundo, de deflacionária para inflacionária.
O consultor aponta que o CPI chinês de março recuou 0,7%, sendo bastante afetado por questões de base, mas o índice acumulado em 12 meses está em 1%. Já o PPI de março foi de 1%, e a inflação ao produtor acumulada em 12 meses está em 0,5%.
Segundo Ribeiro, o PPI de março acendeu a luz amarela para alguns analistas, mas a média móvel trimestral dos índices de inflação já sinalizava o fim do período deflacionário desde o segundo semestre do ano passado. A reversão, portanto, se inicia antes do atual choque da guerra no Oriente Médio, que elevou o preço do petróleo e de outras matérias primas.
O economista assinala ainda que é a primeira vez que se observa a inflação de bens rodando acima da inflação de serviços e dos núcleos desde 2024. Adicionalmente, há um “processo silencioso” de elevação de preços de matérias-primas e de insumos industriais.
O ajuste entre oferta e demanda (que inclui a externa) na economia chinesa vem, de acordo com Ribeiro, do combate do governo ao chamado Neijuan, ou “involução econômica”. O Neijuan ocorre quando setores maciçamente incentivados pelo governo acabam tendo tantos players e tanta produção que preços e margens desabam, numa competição tão feroz que provoca distorções e prejuízos à produtividade.
A intervenção do governo, portanto, é no sentido de consolidar o setor, que acaba com um número bem menor de empresas que geralmente se transformam em exportadoras robustas e globais. Nesse processo, a produção tende a cair, pela eliminação de muitas das empresas que tentaram sem sucesso se sobressair naquele setor específico.
Em 2017 e 2018, prossegue o economista, o combate à sobreoferta pelo governo chinês atingiu principalmente a mineração e a siderurgia. Agora, para além do mercado imobiliário (no qual o excesso de oferta se tornou um dos principais problemas econômicos da China), o combate ao Neijuan se dá em setores de tecnologia como carros elétricos, painéis solares, automação, informática, comunicação e outros.
Ribeiro ressalva que a sobreoferta na economia chinesa não foi eliminada pelo governo, mas sim reduzida. Em carros elétricos, por exemplo, há mais de cem empresas na China, o que claramente é excessivo, indicando que o setor deve passar por uma depuração.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/4/2026, quarta-feira.
Fonte ONU