Às 8h06 da manhã desta terça-feira (7), o presidente Donald Trump fez uma ameaça apocalíptica ao Irã, declarando que, a menos que sua exigência de abrir o Estreito de Ormuz fosse atendida até o anoitecer, “toda uma civilização morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta”.
Dez horas e 26 minutos depois, às 18h32 no horário da Costa Leste dos EUA (19h32 no horário de Brasília), ele suspendeu a ameaça, por ora. Ele disse que uma intervenção do governo do Paquistão havia levado a um cessar-fogo de duas semanas em uma guerra que abalou a economia mundial e exibiu a dominância tecnológica dos EUA e a resiliência inesperada do Irã.
A tática de Trump de elevar sua retórica a níveis astronômicos certamente o ajudou a encontrar a saída que vinha buscando há semanas. Esse sucesso, por si só, pode alimentar sua crença de que as táticas que aprendeu no mundo imobiliário de Nova York — ignorar convenções antigas, fazer exigências maximalistas — também funcionam na geopolítica.
Sem dúvida, foi uma vitória tática decidida no último minuto, que deve, pelo menos temporariamente, fazer com que petróleo, fertilizantes e hélio voltem a fluir pelo Estreito de Ormuz e acalmar mercados que temiam que um choque global de energia levasse a uma recessão global.
Mas nada disso resolveu as questões fundamentais que levaram à guerra.
A situação deixa um governo teocrático, apoiado pela violenta Guarda Revolucionária, no comando de uma população intimidada que foi castigada por mísseis e bombas, e continua sob o jugo de um regime familiar, ainda que sob nova direção. Deixa também intacto o estoque nuclear do Irã, incluindo os 400 quilos de material quase em grau de bomba que foram, em tese, o casus belli dessa guerra.
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Deixou aliados do Golfo Pérsico atordoados, com a descoberta de que os arranha‑céus de vidro de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e as plantas de dessalinização que tornam habitáveis os enclaves ricos do Kuwait podem ser destruídos por mísseis e drones iranianos. Os preços da gasolina dispararam e estão prestes a testar a promessa de Trump de que voltarão aos níveis antigos assim que os combates pararem.
E deixou a base política de Trump fraturada, com antigos apoiadores agora acusando o presidente e seus aliados, a começar pelo vice-presidente JD Vance, de violarem sua promessa de não envolver os Estados Unidos em guerras impossíveis de vencer no Oriente Médio.
Tudo isso aconteceu num momento em que o Irã demonstrou que é capaz de absorver 13 mil ataques direcionados e ainda assim conduzir uma guerra assimétrica impressionante, estrangulando o fornecimento de petróleo e enviando seu exército cibernético para atacar a infraestrutura dos EUA.
Agora, Trump enfrenta o desafio não apenas de chegar a um acordo mais permanente, mas de provar aos Estados Unidos e ao mundo que esse conflito valeu a pena ser travado. E, para isso, ele terá de demonstrar que removeu o domínio mortal do Irã sobre o canal de 33 quilômetros que compõe o estreito — e suas chances de um dia construir uma arma nuclear.
Nesse ponto, havia um elemento de tom sombrio escondido na descrição iraniana do acordo. O transporte marítimo continuaria, escreveu o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, mas sob o controle das “Forças Armadas do Irã”, que determinariam quem passa e quando.
“O Irã permanece no controle do estreito, o que não era o caso antes da guerra”, disse Richard Fontaine, CEO do Center for a New American Security, um think tank de Washington. “Acho difícil acreditar que os Estados Unidos e o mundo possam aceitar uma situação em que o Irã permaneça no controle de um ponto-chave de energia por tempo indeterminado. Isso seria um resultado materialmente pior do que o que existia antes da guerra.”
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O mesmo pode valer para um acordo final. Há quatro semanas, Trump exigia a “rendição incondicional” do Irã, dizendo que ele próprio determinaria quando o país teria sido derrotado. Na noite de terça-feira, seu tom era outro. Ele concordou em basear as duas semanas seguintes de conversas em um plano de 10 pontos que o Irã submeteu aos paquistaneses. Trump o chamou de “uma base viável sobre a qual negociar”.
“Você leu o plano do Irã?”, perguntou Fontaine. “Ele parece uma lista de desejos de Teerã anterior à guerra, pedindo o reconhecimento global do direito do Irã de enriquecer urânio, a retirada de todas as forças americanas da região e o fim das sanções econômicas. E pede o pagamento de reparações ao Irã pelos danos causados durante a guerra.”
Claro, esse é apenas o ponto de partida para a negociação. Mas o abismo entre a visão iraniana de um acordo de paz final e a visão dos EUA é tão grande que imaginar um acerto em dois anos, quanto mais em duas semanas, exige uma espécie de malabarismo diplomático. O governo Obama levou dois anos e meio para negociar o acordo nuclear de 2015, que Trump descartou em 2018 — e aquilo foi em tempo de paz. Esta negociação será conduzida sob a espada de uma possível retomada das hostilidades.
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Presidentes têm negociado com o Irã, sancionado o Irã e sabotado o Irã há 20 anos. Agora Trump enfrenta o desafio de mostrar que entrar em guerra com o Irã produz resultados melhores. Não será fácil.
Se ele fracassar em tirar do país as 439 quilogramas de urânio enriquecido a 60%, junto com quantidades muito maiores de combustível nuclear de baixo enriquecimento, terá alcançado menos, na guerra de US$ 1 bilhão por dia, do que o presidente Barack Obama conseguiu 11 anos atrás. Naquele acordo, o Irã enviou 97% de seu estoque nuclear para fora do país.
Se ele não conseguir um acordo para que o Irã limite o tamanho de seu castigado arsenal de mísseis, ou a distância que eles podem percorrer, terá falhado em um de seus principais objetivos.
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E se suas conversas com um governo liderado pelo novo líder supremo, Mojtaba Khamenei — que acredita‑se estar se recuperando de ferimentos sofridos no bombardeio que matou seu pai, o aiatolá Ali Khamenei — acabarem consolidando a autoridade do novo governo, ele corre o risco de trair o povo iraniano.
Foi há pouco mais de cinco semanas que Trump incentivava o povo iraniano a se levantar e derrubar seu governo. Agora, ele está fazendo negócios com esse mesmo governo. Na terça-feira, ele repetiu sua afirmação de que o novo líder supremo faz parte de uma geração de líderes “diferentes, mais inteligentes e menos radicalizados”. As agências de inteligência dos EUA têm suas dúvidas.
“Talvez isso funcione”, disse Fontaine, ex-assessor do falecido senador John McCain. “Mas há uma chance de que isso termine com os EUA e o mundo em uma situação pior do que quando tudo começou.”
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c.2026 The New York Times Company
FonteAgência Brasil