Direita leva Chile e Argentina à recessão

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Eleito com a promessa de reduzir o Estado, cortar impostos e reativar a economia, o presidente do Chile, José Antonio Kast, vem enfrentando uma crise econômica em apenas sete meses de mandato, com retração do Produto Interno Bruto (PIB) e desemprego em alta em meio a um ajuste fiscal.

No terceiro trimestre de 2026, o país registrou aumento de 1 ponto percentual (pp) no desemprego em 12 meses, que chegou a 9,6%. Além disso, houve queda de 0,3% no Produto Interno Bruto (PIB), depois de uma retração de 0,2% no 2º trimestre.

A receita do político de direita não difere muito de seu colega na Argentina, Javier Milei. Os resultados também não: após uma queda de 1,5% em julho, a economia argentina registrou, em agosto, retração de 1,7% na comparação com agosto do ano passado.

O PIB argentino caiu 0,6% no segundo trimestre em relação ao primeiro trimestre de 2026. Se a economia recuar novamente no terceiro trimestre, a atividade econômica terá registrado seis meses consecutivos de contração, entrando, assim, em recessão.

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O desempenho ruim levou o presidente do Chile a lançar, no final de setembro, um programa de investimentos públicos para tentar reativar a economia.

O plano prevê investimentos de 1,3 bilhão de pesos chilenos, com objetivo de criar empregos por meio de obras de infraestrutura, subsídios para criação de novos postos de trabalho e apoio ao financiamento de empresas.

Kast tomou posse em março deste ano, prometendo um plano de austeridade com corte de 3% das despesas do Estado e redução de impostos para empresas. A fórmula é semelhante à adotada na Argentina por Javier Milei.

Diante do choque no preço dos combustíveis nos últimos meses, motivado pelas guerras no Oriente Médio, o governo Kast decidiu não intervir para reduzir o preço, devido ao custo fiscal da medida. Com isso, o valor da gasolina e do diesel vêm crescendo com efeito inflacionário sobre toda economia.

Nesse cenário, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a previsão de 1,8% de crescimento do PIB chileno em 2026, calculada em julho, para 0,6%, segundo projeção de outubro. Este é o segundo pior resultado da América do Sul, atrás apenas da Bolívia, onde o FMI prevê uma recessão de 3% neste ano.

O especialista em Chile e professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Fernando Henrique Lemos Rodrigues argumentou à Agência Brasil que o corte nos gastos praticado por Kast prejudica uma economia com dificuldades.

“Ele está freando a expansão dos gastos. Só isso já dá um impacto brutal sobre a economia chilena, porque ela está diante de uma conjuntura bastante precária no seu principal setor, que é do cobre”, disse.

Mineração do Chile em queda

As dificuldades na exploração de cobre vêm alimentando a crise. De janeiro a agosto deste ano, a produção está 8% inferior ao mesmo período de 2025, segundo a Câmara Mineira do Chile.

O doutor em teoria econômica Fernando Rodrigues explica que o cobre representa entre 30% a 40% do total das exportações chilenas.

O esgotamento de algumas minas e os problemas de tecnologia para extração do minério, somados a eventos climáticos extremos que impediram o escoamento da produção e a movimentos operários por aumentos salariais, têm criado entraves à economia do cobre

Fernando Henrique Lemos Rodrigues, professor da UFRRJ

A Minera Escondida, a maior mina de cobre a céu aberto do mundo — localizada no Deserto do Atacama, no norte do Chile —, registrou uma queda de 23% na produção no trimestre de julho a setembro de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a sua controladora, a BHP.

A mina produziu 252.600 toneladas do metal durante esse trimestre, conforme informado no relatório operacional da BHP. A empresa explicou que a queda se deveu a uma menor concentração de mineral puro na rocha — um indicador conhecido como teor do minério, que passou de 0,94% para 0,81% —, somada a atividades de manutenção programadas.

Corte de gastos

A agenda de austeridade do presidente José Antonio Kast, um admirador da ditadura chilena de Augusto Pinochet (1973-1990), previa uma redução bruta de 3% nos gastos do Estado. Os dois primeiros informes do governo indicaram uma redução de despesas da ordem de 2 trilhões de pesos, algo em torno dos 0,6% do PIB chileno.

Um levantamento do jornal chileno The Clinic, que analisou decretos de 17 das 25 pastas do governo, calculou que o corte ultrapassou US$ 1,4 bilhão. A maior redução foi na saúde, que teve menos 413 bilhões de pesos chilenos.

Os demais ministérios mais afetados foram Habitação (corte de 200 bilhões); Educação (197 bilhões) e Trabalho (141 bilhões). Os cortes no ministério da Previdência somaram 706 milhões.

Rodrigues destacou que, ao mesmo tempo que deduz despesas em áreas sociais, o governo corta impostos das empresas. Para ele, isso se reflete em perda de receita do Estado, mas sem aumento dos investimentos privados.

“O rico faz o que nesse momento de extrema incerteza que é a crise? Ele pega esse dinheiro da redução dos impostos e retira do circuito econômico, normalmente direcionando a aplicações financeiras. É isso que ele faz”, explicou.

Orçamento 2027

Para o orçamento de 2027, o governo prevê um aumento de 1,5% do PIB nas despesas, crescimento menor que o previsto anteriormente. Organizações e movimentos sociais têm denunciado a retirada de recursos de programas sociais.

A Fundação Horizonte Cidadão, criada pela ex-presidente Michelle Bachelet, apontou que os cortes no orçamento de 2027 devem prejudicar 48 programas sociais focados na população mais pobre, que somam 325 bilhões de pesos.

“Estes resultados contrastam com a promessa de campanha do presidente José Antonio Kast de que reduziria os gastos fiscais sem cortar benefícios sociais”, registrou o Centro de Investigação Jornalística (CIPER) do Chile.

Cortes anunciados na educação têm mobilizado estudantes no país em marchas que acabam em repressão policial. Nesse cenário, o recém-empossado presidente do Chile registra taxas superiores a 60% de desaprovação após apenas sete meses no poder.

Com informações das agências Brasil e Xinhua

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Fonte Monitor Mercantil

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