O novo rosto do Renascimento: entre a arte de transformar e a delicadeza de permanecer

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Do olhar renascentista à dermatologia contemporânea, a trajetória da Dra. Camila Ferrer Stroligo nos convida a pensar sobre o que muda em um rosto e sobre aquilo que, mesmo com o tempo, ainda desejamos reconhecer.

O Renascimento e o desejo humano de permanecer

Larissa Laurianno Brand Artist e Diretora Criativa
FŌRMA – Governança Estética e Curadoria de Legado Médico

Há algo comovente em permanecer diante de um retrato renascentista. A pessoa que vemos pertenceu a outro século, atravessou dias que jamais conheceremos e, ainda assim, continua ali. Não sabemos como era sua voz, o que temia ou quem amou, mas reconhecemos em seu olhar alguma coisa profundamente humana: o desejo de não desaparecer por inteiro.

​Talvez o Renascimento tenha começado justamente nesse gesto de voltar a olhar para o ser humano como alguém digno de ser compreendido. Entre os séculos XIV e XVI, artistas e pensadores retomaram referências da Antiguidade greco-romana e fizeram do corpo, da natureza e da experiência humana um campo de investigação. A arte se aproximou da ciência porque observar também era uma forma de respeito.

Para desenhar um corpo, era preciso conhecer sua anatomia; para criar profundidade, compreender perspectiva e geometria; para alcançar harmonia, perceber como cada parte encontrava seu lugar dentro do todo. A beleza não era tratada apenas como um dom da inspiração, mas como algo que exigia tempo, estudo e uma atenção quase íntima. Nas pinturas de Botticelli, tecidos e cabelos parecem guardar o movimento do vento. Em Leonardo da Vinci, o sfumato aproxima luz e sombra com tanta suavidade que não percebemos exatamente onde uma termina e a outra começa. A técnica está em toda parte, mas não interrompe a emoção da imagem. Ao contrário, sustenta-a em silêncio.

Talvez seja isso que ainda nos toca nessas obras: a sensação de que alguém estudou profundamente a forma para conseguir alcançar algo que não cabia nela, uma presença, uma atmosfera, um vestígio de alma.

​Entre a moldura e a alma: o que um retrato revela a quem permanece diante dele

​Nos retratos do Renascimento, nada estava ali por acaso. A posição das mãos, a luz sobre a pele, a delicadeza de um tecido, uma joia ou um objeto ao fundo ajudavam a revelar origem, repertório e posição. A imagem apresentava aquela pessoa ao mundo, mas os melhores retratos faziam algo além: deixavam a impressão de que ainda havia muito a descobrir.

Foi assim que me aproximei da trajetória de Camila Ferrer Stroligo. Sua beleza é percebida primeiro, acompanhada por uma feminilidade delicada e por uma imagem em que cada escolha parece ocupar o lugar certo. Mas permanecer apenas nessa leitura seria enxergar a moldura e não se aproximar da obra.

​Existe uma pergunta que atravessa muitas mulheres cuja imagem chama atenção: quantas vezes elas são admiradas antes de serem verdadeiramente escutadas? Em Camila, a delicadeza convive com uma estrutura que o primeiro olhar não revela por inteiro. Há a médica formada pela ciência, a professora que divide conhecimento e a mulher que transforma sua visão em espaço, equipe e experiência.

​Sua imagem não precisa negar a beleza para comunicar autoridade. Também não precisa endurecer para ser levada a sério. Talvez sua força esteja justamente em sustentar as duas presenças: a mulher que compreende a linguagem do belo e a médica que sabe que um rosto jamais termina naquilo que pode ser visto.

À flor da pele, uma biografia: tudo o que o tempo escreve sem precisar de palavras

Dra. Camila Ferrer Stroligo
Médica Dermatologista ‧ UFRJ UNIRIO
Membro Titular SBD SBCD ‧ RQE 39843 CRM-SP 289112

Eu gosto de beleza, mas nunca consegui enxergá-la separada da pessoa. Um rosto não é somente um conjunto de proporções; é o lugar para o qual alguém retorna todos os dias quando se olha no espelho. Nele estão as expressões repetidas ao longo dos anos, os afetos, as fases difíceis, o riso, o cansaço e as mudanças que nem sempre conseguimos explicar.

​A pele também guarda memória. Ela responde ao sol, ao sono, aos hábitos, à saúde e ao tempo, carregando na superfície sinais de uma história que aconteceu por dentro. Por isso, duas pessoas podem chegar ao consultório com a mesma queixa, mas nunca chegam trazendo a mesma vida.

​Antes de pensar no que pode ser feito, eu preciso compreender o que aquela pessoa sente quando se vê. Algumas desejam suavizar algo que passou a incomodar; outras procuram no espelho uma expressão que ainda sentem existir, mas já não conseguem encontrar. Escutar esse desejo é importante porque uma mudança no rosto nunca toca apenas a aparência. Ela pode alcançar a maneira como alguém se reconhece e volta a ocupar o próprio corpo.

​Observar um rosto envolve compreender contornos, proporções, movimento e qualidade da pele, mas também perceber aquilo que não deveria ser perdido. Cada pessoa possui uma arquitetura própria, uma forma singular de sorrir e de se expressar. O cuidado começa quando deixamos de perguntar como aquele rosto poderia se aproximar de um padrão e passamos a perguntar o que faria sentido para a vida que existe nele.

​A arte silenciosa da medida: transformar sem apagar aquilo que torna um rosto reconhecível

​Naturalidade, para mim, não significa fazer pouco. Significa fazer com medida, respeitando o momento, a história e o limite a partir do qual uma mudança deixaria de conversar com aquela pessoa. Em alguns casos, o cuidado está em devolver viço ou melhorar a qualidade da pele; em outros, em suavizar sinais, reorganizar um contorno ou simplesmente esperar. O resultado mais bonito não é aquele que faz alguém parecer outra pessoa. É aquele que permite um reencontro. Quem olha talvez não saiba explicar exatamente o que mudou, mas percebe uma expressão mais descansada, uma presença mais segura ou alguém que voltou a se sentir confortável diante do próprio reflexo.

​Existe delicadeza em saber intervir, mas também existe delicadeza em saber parar.
A técnica precisa estar presente sem ocupar o centro da imagem, porque o rosto não deveria se transformar em vitrine de um procedimento. Quando o conhecimento oferece direção, a mudança acontece sem apagar os traços que tornam aquela pessoa reconhecível para o mundo e, principalmente, para si mesma.
Talvez cuidar da beleza seja menos sobre vencer o tempo e mais sobre atravessá-lo com a liberdade de continuar se reconhecendo em cada nova versão de si.

​O gesto que permanece além das mãos: quando o conhecimento encontra novas formas de cuidar

​Minha formação me ensinou que sensibilidade e rigor precisam caminhar juntos. Graduei-me em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, fiz residência em Dermatologia pela UNIRIO e me tornei membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. Também participei da assessoria científica da SBD-RJ, seguindo uma trajetória em que estudar nunca significou apenas acumular conhecimento, mas aprender a decidir com mais responsabilidade.

​A medicina muda, as tecnologias evoluem e novas possibilidades surgem o tempo inteiro. Ainda assim, nenhum equipamento consegue compreender sozinho o rosto que está diante dele. A tecnologia pode ampliar o cuidado, mas é o olhar médico que reconhece quando utilizá-la, como combiná-la e quando escolher outro caminho.

​Com o tempo, ensinar outros médicos também se tornou parte da minha forma de cuidar. Quando compartilho uma técnica, quero dividir o raciocínio que a antecede: a avaliação, a indicação, os limites e as escolhas que muitas vezes não aparecem no resultado final. O conhecimento, quando é transmitido com responsabilidade, pode alcançar pacientes que talvez eu nunca conheça e continuar produzindo cuidado mesmo na minha ausência.

​Essa vontade de construir algo que ultrapasse minha atuação individual também está presente na Casa Conceito Wellness. Ser cofundadora é pensar na experiência inteira: no ambiente, na equipe, na linguagem e na maneira como cada pessoa será recebida. Uma casa de cuidado não vive apenas naquilo que pode ser fotografado, mas no que alguém sente ao chegar, na atenção que encontra e na lembrança que leva consigo ao partir.

​Quero que a beleza da Casa seja consequência dessa coerência. Que apareça na arquitetura, nas cores e nos materiais, mas que permaneça, sobretudo, nos gestos discretos: no tempo respeitado, na pergunta feita antes de qualquer decisão e na sensação de ter sido visto sem precisar pedir por isso.

Camila Ferrer Stroligo

Entre o espelho e o tempo: aquilo que muda em nós e aquilo que escolhemos preservar

​As obras do Renascimento atravessaram os séculos porque a beleza que carregavam não terminava na superfície. Havia pensamento por trás da forma, conhecimento por trás da leveza e uma tentativa profundamente humana de compreender aquilo que o tempo transforma, mas não consegue apagar por completo.

​Talvez por isso a trajetória de Camila encontre nesse movimento uma correspondência tão sensível. Seu trabalho não nasce da promessa de interromper o tempo, mas da possibilidade de acompanhá-lo com atenção. Ela não observa o rosto como algo separado da vida; reconhece nele uma história que pode ser cuidada sem precisar ser substituída.

Em um tempo no qual tantos rostos começam a se parecer, preservar uma identidade também se torna uma forma de coragem. É preciso segurança para não seguir todos os excessos, sensibilidade para perceber o que realmente pertence e conhecimento para fazer da técnica uma presença quase invisível.

​Camila constrói sua trajetória nesse encontro entre a ciência que conhece a estrutura e o olhar que reconhece a pessoa. Ao cuidar, procura preservar; ao ensinar, permite que o conhecimento continue circulando; ao criar uma experiência, transforma sua visão em algo que outras pessoas também podem sentir.

O Renascimento não recebeu esse nome apenas porque voltou ao passado, mas porque fez nascer outra maneira de olhar. Talvez todo cuidado verdadeiro também carregue um pequeno renascimento: não o nascimento de uma pessoa diferente, mas a possibilidade de alguém voltar a encontrar a si mesma.

​Há trabalhos que impressionam no primeiro olhar. Outros se tornam mais valiosos à medida que nos aproximamos. Na trajetória de Camila, a delicadeza não está em evitar a transformação, mas em conduzi-la sem ruptura, permitindo que o tempo continue passando e que, apesar de todas as mudanças, alguma coisa essencial ainda permaneça.

​“Cuidar de um rosto, para mim, é permitir que o tempo siga sem que a pessoa deixe de se reconhecer nele.”
— Dra. Camila Ferrer Stroligo

THE LEGADO — Volume IV
Dra. Camila Ferrer Stroligo — Dermatologista · @camilastroligodermato
@casaconceitowellness 

Idealização e direção criativa: Larissa Laurianno · FŌRMA · @larissalaurianno · @formade.br
São Paulo, Brasil

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