Dona Sônia lembra muito bem do sonho. “Eu estava em um campo de flores muito bonito, em um dia lindo, olhei pra cima e vi bolos voando…”. O que parece apenas um devaneio noturno funcionou como inspiração para um negócio de sucesso consolidado em 16 anos: a Casa de Bolos, atualmente com 608 lojas em 20 estados brasileiros e uma em Lisboa, no valorizado bairro de Areeiro.
Em maio deste ano, a empreendedora vendeu a rede para a AB Mauri Brasil, subsidiária da britânica Associated British Foods e dona de marcas como Fleischmann e Ovomaltine no país. Sem valor divulgado, o negócio ainda depende de aprovação regulatória.
A história de Dona Sônia e da Casa de Bolos
O estopim para a consolidação da ideia que viria a ser a Casa de Bolos foi a demissão do caçula de seus quatro filhos (Rafael Ramos, 42, hoje diretor de marketing da empresa) em 2009, em Ribeirão Preto (SP). Sônia Ramos, hoje com 80 anos, bolou o projeto para garantir uma nova renda ao filho: vender bolos.
“A gente propôs vender bolos de aniversário”, conta Fabrício Ramos, 53, diretor comercial. “Mas ela insistiu em oferecermos algo simples, de fubá, de cenoura, da melhor qualidade possível, bolos inteiros, que proporcionassem um momento de conversa dentro de casa ou no trabalho. Nunca vendemos fatias para comer no balcão.”
Rafael diz que o começo não foi fácil. “No início, viramos motivo de chacota, diziam que não daria certo. Mas fomos firmes no propósito – em três meses, tinha fila na calçada de Ribeirão.” No primeiro dia de operação (11 de abril de 2010), a Casa de Bolos vendeu 11 bolos. Hoje, são 60 mil diários e mais de 100 sabores.
Fecharam o primeiro ano com cinco lojas e abriram para franquias no ano seguinte. Considerando números mais atuais, vê-se que a receita deu certo: o faturamento de R$ 650 milhões em 2024 subiu para R$ 720 milhões em 2025. A projeção para este ano é alcançar R$ 800 milhões. A quantidade de lojas acompanha a ascensão: 537 em 2024, 608 em 2025 e meta de 700 em 2026.
Os números em alta refletem o âmago dos bons momentos que os filhos de Sônia viveram na infância – e que agora fazem parte do legado para a próxima geração. “A gente sempre teve o hábito de café da tarde lá em Ribeirão”, recorda Fabrício. “Hoje, é a mesma coisa com meu casal de filhos [20 e 24 anos]: a hora de sentar e comer um bolo é o momento de conversar, largar o celular, falar com os olhos nos olhos.”
Passado e presente também se encontram no olfato. “A primeira coisa que vem na memória é o cheiro do bolo”, diz Fabrício. “Nossas lojas são inclusive pensadas para valorizar o cheiro do bolo quentinho – é um ativo de venda nosso.” Outros pontos fundamentais para os bons resultados da marca são: uma grande equipe de campo de consultoria para conscientização dos franqueados em relação à qualidade dos bolos servidos e a homologação das matérias-primas.
Para dona Sônia, o segredo do sucesso está no compromisso com o cliente. “Usamos frutas de verdade, nada de conservantes, gorduras e ovo em pó. Sempre experimentamos os bolos, e só vendemos os perfeitos.” A lição parece já ter sido assimilada pelos filhos. “O que ela nos ensinou desde cedo é fazer o certo, sempre. Às vezes, é um caminho bem mais difícil, mas sempre faremos o certo”, garante Fabrício.
*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.
FonteCâmara dos Deputados