O Pior Fracasso é Vencer Tudo e Perder a Própria Vida

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Há pessoas que passam décadas construindo uma vida que, quando finalmente fica pronta, já não têm tempo para viver.

Talvez esta seja uma das contradições mais perversas do nosso tempo.

Nunca tivemos tantos instrumentos para economizar tempo e, paradoxalmente, nunca parecíamos ter tão pouco tempo disponível. Nunca estivemos tão conectados e talvez nunca tenhamos oferecido tão pouca atenção verdadeira uns aos outros. Nunca fomos tão estimulados a produzir, crescer, conquistar e acumular — e nunca se falou tanto em exaustão, ansiedade, solidão e burnout.

Transformamos produtividade em virtude moral. Agenda cheia virou símbolo de importância. Cansaço virou prova de relevância. Responder mensagens durante o jantar parece responsabilidade. Perder o aniversário do filho por causa de uma reunião importante parece, de alguma maneira estranha, o preço natural do sucesso.

E talvez seja exatamente aqui que precisemos fazer uma pergunta desconfortável:

Sucesso para quê?

Há quase dois mil anos, Sêneca já advertia, em Sobre a Brevidade da Vida, que nosso maior problema não seria propriamente dispor de pouco tempo, mas desperdiçar grande parte daquele que recebemos.

Mudaram os impérios. Mudaram as moedas. Mudaram as tecnologias.

O problema permanece.

A diferença é que agora carregamos no bolso uma máquina extraordinariamente eficiente para desperdiçar nossa existência alguns segundos de cada vez.

O grande engano do “depois”

Existe uma palavra perigosíssima na vida adulta:

Depois.

Depois eu descanso.

Depois viajo com minha família.

Depois cuido da saúde.

Depois passo mais tempo com meus filhos.

Depois retomo meus amigos.

Depois volto a jantar em casa.

Depois converso com minha esposa.

Depois diminuo o ritmo.

Primeiro é necessário fechar aquele negócio. Alcançar aquele faturamento. Comprar aquele imóvel. Resolver aquela pendência. Chegar àquele cargo. Atingir determinado patrimônio.

O problema é que a linha de chegada possui rodas.

Quando nos aproximamos, ela se move.

O objetivo que parecia definitivo torna-se rapidamente insuficiente.

O apartamento dos sonhos vira endereço. O carro desejado vira transporte. O primeiro milhão transforma-se em ponto de partida para o segundo. A posição profissional tão sonhada vira apenas mais um cargo no cartão de visitas.

E então precisamos da próxima conquista.

Blaise Pascal identificou algo semelhante no século XVII ao escrever sobre o divertissement, a necessidade humana de preencher permanentemente a existência com distrações, ocupações e movimento para evitar encarar questões mais profundas sobre nós mesmos.

Quatro séculos depois, provavelmente Pascal ficaria fascinado com nosso talento.

Não precisamos mais de grandes distrações.

Basta uma notificação.

A sociedade que transformou o indivíduo em seu próprio capataz

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve, em Sociedade do Cansaço, uma mudança decisiva no mundo contemporâneo.

Não vivemos apenas sob ordens externas dizendo “você deve”.

Vivemos sob uma pressão ainda mais poderosa dizendo:

“Você pode.”

Você pode produzir mais. Ganhar mais. Empreender mais. Treinar mais. Viajar mais. Acumular mais. Ser mais eficiente. Ser mais relevante. Ser uma versão permanentemente melhorada de si mesmo.

O resultado é curioso: já não precisamos necessariamente de alguém nos explorando.

Frequentemente fazemos isso sozinhos.

Somos simultaneamente patrão e empregado. Carrasco e vítima.

Criamos metas, ultrapassamos essas metas e imediatamente nos punimos criando outras maiores.

E chamamos isso de ambição.

Ambição é extraordinária.

Foi ela que construiu empresas, cidades, universidades, medicamentos e civilizações.

O problema começa quando aquilo que deveria servir à vida passa a exigir a vida como pagamento.

Seus filhos desconhecem seu EBITDA

Existe uma métrica empresarial que mede desempenho financeiro.

Existe outra, muito mais importante, para a qual ainda não inventaram um dashboard.

Ela poderia começar com perguntas simples:

Quantas refeições você fez olhando verdadeiramente para sua família esta semana?

Quando foi a última vez que conversou durante uma hora com seu filho sem tocar no telefone?

Você ainda conhece os medos dele?

Sabe quem são seus amigos?

Sabe o que ele sonha ser?

Seus filhos provavelmente jamais saberão qual era o faturamento de sua empresa quando tinham sete anos.

Mas saberão se você estava presente.

Não lembrarão do EBITDA daquele trimestre.

Lembrarão da apresentação da escola. Da arquibancada. Da viagem. Do domingo. Do café da manhã. Daquela ocasião em que disseram:

“Pai, olha isso.”

E você respondeu:

“Só um minuto.”

O problema é que milhares de “só um minuto” podem se transformar em uma infância inteira.

E infância não possui segunda temporada.

Existe um patrimônio que não aparece no balanço

Não há nada de errado em ganhar dinheiro.

Ao contrário.

Dinheiro compra segurança. Compra educação. Compra saúde. Compra conforto. Compra experiências. Compra liberdade para dizer não. Em muitas circunstâncias, dinheiro compra até tempo.

Por isso, romantizar a pobreza é tão irresponsável quanto idolatrar a riqueza.

O problema não está no dinheiro.

Está na função que atribuímos a ele.

Uma coisa é perguntar:

“Quanto preciso construir para oferecer segurança e liberdade àqueles que amo?”

Outra completamente diferente é perguntar:

“Quanto preciso possuir para sentir que sou alguém?”

Esta segunda conta jamais fecha.

Sempre haverá alguém mais rico. Mais poderoso. Mais famoso. Com empresa maior. Casa maior. Avião maior. Rede social maior.

Se sua autoestima estiver indexada ao patrimônio de outras pessoas, você terá inventado uma corrida que não possui linha de chegada.

Viktor Frankl, em Em Busca de Sentido, insistiu que o sentido da existência não nasce simplesmente do prazer ou do sucesso, mas da responsabilidade diante da vida, das pessoas que amamos e daquilo que somente nós podemos realizar.

Isso muda completamente a pergunta.

Talvez a questão não seja apenas:

“O que eu ainda quero conquistar?”

Talvez também devamos perguntar:

“Quem precisa de mim enquanto estou ocupado conquistando?”

A aceleração pode estar nos levando para lugar nenhum

O sociólogo alemão Hartmut Rosa dedicou boa parte de sua obra ao fenômeno da aceleração social.

Produzimos mais em menos tempo. Nos deslocamos mais rápido. Nos comunicamos instantaneamente. Consumimos informações em velocidades inimagináveis algumas décadas atrás.

Mas o tempo liberado pela tecnologia não virou necessariamente tempo disponível.

Ele foi imediatamente preenchido por novas demandas.

É como uma esteira cuja velocidade aumenta na mesma proporção em que aprendemos a correr.

Rosa oferece uma ideia particularmente poderosa como contraponto: ressonância.

Uma vida boa não seria necessariamente aquela na qual conseguimos controlar, possuir ou acelerar tudo, mas aquela na qual ainda conseguimos estabelecer relações verdadeiras com o mundo e com as pessoas.

Conversar. Ouvir. Contemplar. Ser tocado por alguma coisa. Estar verdadeiramente presente.

Talvez seja exatamente isso que estamos perdendo.

Estamos registrando momentos que já não experimentamos.

Fotografamos o jantar antes de prová-lo. Filmamos o show em vez de assisti-lo. Respondemos mensagens enquanto nossos filhos contam histórias. Passamos férias administrando problemas que provavelmente seriam resolvidos sem nós.

É possível estar em todos os lugares e, ainda assim, não estar verdadeiramente em nenhum.

A morte como instrumento de lucidez

Martin Heidegger tratou a consciência da morte não apenas como algo sombrio, mas como uma possibilidade de autenticidade.

Em Ser e Tempo, a consciência de nossa finitude possui o poder de arrancar o indivíduo do modo automático de existência.

Quando entendemos verdadeiramente que o tempo é limitado, algumas coisas imediatamente perdem importância.

A discussão que parecia indispensável deixa de ser.

A opinião de determinada pessoa perde peso.

A necessidade de responder a cada provocação parece infantil.

Certas guerras deixam de merecer soldados.

Talvez precisemos pensar mais sobre a morte justamente para aprender a viver melhor.

Não de maneira mórbida.

De maneira estratégica.

Imagine descobrir que você possui apenas mais doze meses.

Provavelmente sua agenda mudaria amanhã.

Algumas reuniões seriam canceladas. Certas pessoas receberiam telefonemas. Você viajaria para alguns lugares. Diria algumas coisas. Pediria perdão. Talvez concedesse perdão. Passaria mais tempo perto de determinadas pessoas.

E, curiosamente, deixaria de se importar com dezenas de assuntos que hoje consomem horas de sua semana.

A pergunta inevitável é:

Se essas coisas perderiam importância diante da morte, por que possuem tanta importância diante da vida?

Nem toda guerra merece sua presença

Há também outra forma sofisticada de jogar tempo fora:

passar a vida reagindo.

Respondendo. Discutindo. Tentando provar. Tentando vencer. Tentando explicar-se para pessoas que já decidiram não compreender.

Existem indivíduos carregando ressentimentos há dez anos contra pessoas que talvez nem se lembrem mais do episódio.

Há algo de tragicamente narcísico nisso.

Acreditamos que precisamos corrigir todas as injustiças, responder todas as críticas e vencer todas as narrativas.

Não precisamos.

Maturidade também é selecionar batalhas.

Algumas pessoas não precisam ser derrotadas.

Precisam apenas perder acesso à nossa atenção.

Paz também é patrimônio.

E frequentemente descobrimos seu valor tarde demais.

Um dia ninguém mais precisará de você naquela reunião

Existe um exercício particularmente desconfortável para empresários, executivos e profissionais que se consideram indispensáveis.

Imagine sua ausência definitiva.

No primeiro dia, haverá choque.

Alguns dias depois, alguém terá acesso às suas senhas. Outro profissional assumirá suas reuniões. Os clientes serão atendidos. As planilhas continuarão sendo atualizadas. A folha será paga.

Algumas decisões serão melhores do que as suas.

Outras, piores.

Mas a organização encontrará uma maneira de continuar.

O mercado possui extraordinária capacidade de substituir pessoas.

Sua família, não.

Seu cargo pode ser ocupado por alguém.

Seu lugar na vida de um filho não deveria poder.

Sua cadeira na empresa possui sucessor.

Sua cadeira na mesa de casa possui memória.

Essa distinção deveria reorganizar muitas agendas.

O verdadeiro luxo do nosso século

Talvez estejamos também usando uma definição ultrapassada de luxo.

Durante muito tempo, luxo significou possuir aquilo que poucas pessoas podiam comprar.

Hoje talvez esteja se tornando algo diferente.

Luxo é ter tempo.

É dormir tranquilo.

É almoçar sem pressa.

É colocar o telefone em outra sala.

É chegar cedo em casa numa quarta-feira.

É viajar e realmente viajar.

É conseguir caminhar sem destino.

É conversar durante horas.

É possuir saúde suficiente para brincar com seus filhos.

É ter amigos para quem você não precisa apresentar currículo.

É sentar ao lado dos seus pais enquanto ainda estão aqui.

É poder dizer “não” para dinheiro porque determinada experiência vale mais.

É presença.

O curioso é que passamos grande parte da vida acumulando patrimônio justamente para comprar aquilo que estamos sacrificando durante a acumulação.

Tempo.

Liberdade.

Paz.

A contabilidade final

Michel de Montaigne escreveu que filosofar é aprender a morrer.

Talvez administrar a própria vida seja aprender a calcular corretamente aquilo que realmente possui valor antes que a conta chegue.

Trabalhe muito. Construa empresas. Assuma riscos. Ganhe dinheiro. Seja competitivo. Seja ambicioso. Busque excelência. Deixe patrimônio.

Nada disso precisa ser abandonado.

Apenas não confunda os meios com o fim.

Você pode reconstruir uma empresa. Pode recuperar dinheiro perdido. Pode vender um imóvel e comprar outro. Pode começar novamente uma carreira. Pode refazer um patrimônio.

Mas existem ativos que depreciam até desaparecer e jamais podem ser recomprados.

A infância dos seus filhos.

A juventude.

A saúde dos seus pais.

Certos amigos.

Certos domingos.

Determinadas viagens.

Uma conversa que deveria ter acontecido.

Um abraço que deveria ter sido dado.

O tempo possui uma característica que nenhum grande investidor conseguiu derrotar:

ele é um ativo impossível de recomprar.

E talvez por isso o maior fracasso humano não seja chegar ao fim sem conquistar tudo aquilo que desejávamos.

O maior fracasso talvez seja exatamente o contrário:

conquistar tudo aquilo que desejávamos e perceber, tarde demais, que oferecemos a própria vida como pagamento.

No fim, ninguém perguntará quantas reuniões você realizou. Quantos e-mails respondeu. Quantas vezes trabalhou até meia-noite. Ou quantos metros quadrados possuía.

A contabilidade será outra.

Quem você amou?

Quem se sentiu amado por você?

Onde você esteve verdadeiramente presente?

Que lembranças seus filhos carregarão?

Que tipo de pessoa você se tornou durante a corrida?

Porque existe uma diferença gigantesca entre possuir uma vida extraordinária e ter realmente vivido uma.

E talvez a maior inteligência que alguém possa desenvolver seja perceber essa diferença antes que o tempo ensine da maneira mais cara.

Afinal, de todas as formas de idiotice, talvez nenhuma seja maior do que passar a vida inteira tentando vencer — e descobrir, no fim, que a própria vida era a única coisa que não deveríamos ter perdido.

Sidarta Gadelha
Sidarta Gadelha
Sidarta Gadelha é empresário e doutorando em Ciências Empresariais e Sociais. Atua na interseção entre comportamento humano, liderança, cultura organizacional e responsabilidade pública. Em sua coluna, reflete sobre decisões, instituições e pessoas, traduzindo temas complexos em ideias simples e aplicáveis ao cotidiano profissional e social.

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