Roberto Waack: ‘Brasil tem que liderar a discussão de capital natural’
Medida pode tornar Amazônia um vetor de desenvolvimento para o Brasil, segundo o cofundador da Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Crédito: Imagns: Léo Souza
A pecuária brasileira conta com sistemas de produção altamente sofisticados, competitivos e ambientalmente comprometidos. A afirmação pode soar estranha por conta das críticas que o setor sofre por haver segmentos que fazem uso de práticas danosas ao meio ambiente, envolvidas em desmatamento e grilagem de terras. Heterogeneidade é o que melhor caracteriza a atividade no Brasil.
Para o segmento que adota ou quer adotar as melhores práticas, é da maior importância o rigor científico na aplicação de metodologias relacionadas à aferição de integridade climática. Nesse campo, a SBTi (Science Based Targets Initiative) tem sido a principal referência global para metas corporativas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) alinhadas ao Acordo de Paris – pelo qual os países signatários devem contribuir para limitar o aumento da temperatura global em 1,5°C até o fim do século, em relação aos níveis pré-industriais.
A SBTi, por sua vez, fundamenta-se no GHG Protocol (Greenhouse Gas Protocol), o padrão internacional mais usado para medir, gerenciar e reportar emissões. Foi desenvolvido pelo World Resources Institute (WRI) e pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), com o intuito de ajudar empresas e governos a calcularem suas pegadas de carbono de forma padronizada.
A relação dessa iniciativa com o sistema financeiro e os mercados é relevante. Validando metodologias empresariais para metas relacionadas a emissões de GEE, com base em ciência, a SBTi outorga referências reputacionais e reduz custos de transação associados a verificações e auditorias realizadas por fornecedores de capital financeiro, por canais de vendas e clientes expostos a danos reputacionais ligados a questões ambientais. Com crescente frequência, emissões de GEE estão associadas ao acesso a mercados internacionais, além de serem objeto de políticas tributárias. A SBTi é, portanto, um importante instrumento de gestão de riscos em cadeias complexas como a da pecuária.

Reduzir a emissão de metano do gado ainda é um desafio para a pecuária Foto: J.F. Diorio/Estadão
Ao controlar a origem da matéria-prima, evitando causar desmatamento, as empresas mais sofisticadas do setor fortalecem sua política de redução de emissões. De uma maneira geral, mais de 90% das emissões das companhias do setor estão no escopo 3, relativo à cadeia de suprimentos. Das emissões de escopo 3, a maior parte (acima de 80%) é FLAG (Forest, Land and Agriculture), ou seja, vinculada diretamente à mudança e ao uso do solo – por exemplo, a forma como o produtor cria os animais e maneja o solo.
Para empresas que já atingiram o compromisso de desmatamento zero, resta o grande desafio de vencer a emissão de metano, que responde por aproximadamente 50% das suas emissões. O metano, liberado pelo sistema digestivo do gado, tem potencial dezenas de vezes maior de gerar aquecimento da atmosfera do que o dióxido de carbono.
As formas de reduzir as emissões de metano incluem técnicas para aumento de produtividade, redução do ciclo de vida do animal, genética e mudanças na alimentação do gado. Além dessas medidas, a produção em sistemas integrados de floresta e pecuária, com adesão a protocolos de carne de baixo carbono desenvolvidos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), tem gerado oportunidades de mercado interessantes. Ao mesmo tempo, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) reconhece a intensificação sustentável como caminho central para a redução das emissões globais da pecuária sem comprometer a segurança alimentar.
Além das inovações em sistemas produtivos, outro aspecto desafiador dessa agenda é o desenvolvimento de metodologias de mensuração adequadas à realidade da agropecuária tropical. A SBTi basicamente utiliza parâmetros globais e em práticas de produção da Europa e dos Estados Unidos. O GHG Protocol está evoluindo e reconhecendo lacunas, mas ainda enfrenta desafios relevantes para incorporar a realidade do agronegócio tropical.
A FLAG/SBTi considera que as reduções de emissões sejam feitas em termos absolutos, o que certamente é relevante. No entanto, desconsidera se um produtor conseguiu produzir mais carne ou leite com menos emissão por tonelada ou por hectare. O que importa é que a quantidade total de GEE emitidos pela cadeia caia em números brutos. Reduções por intensidade, que sempre foram utilizadas como forma de medir avanços concretos, deixam de ter valor, desconsiderando a importância do aumento de produtividade e menor emissão por volume de alimento gerado. Essa abordagem coloca em xeque a adesão a práticas sustentáveis amplamente reconhecidas pela ciência e por políticas públicas. A realidade da produção tropical indica que as duas vertentes deveriam ser contempladas.
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Além dessa demanda quantitativa, a metodologia enfrenta um desafio relacionado à forma como se dá a comercialização de gado. O Brasil se caracteriza por sistemas de transações de compra e venda de gado na modalidade spot, ou seja, o produtor negocia livremente com clientes (frigoríficos) dentro de condições específicas do mercado, em determinadas época e circunstâncias. A base de fornecedores muda constantemente, ano após ano. Na sua maioria, não há relações de fidelidade e, menos ainda, contratos de longo prazo.
A metodologia da SBTi demanda rastreabilidade durante períodos plurianuais, envolvendo transações que muitas vezes não se repetem e, portanto, não são mensuráveis. Uma grande empresa pode ter, por exemplo, 5 mil fornecedores em um ano e, no ano seguinte, ter uma rotação de 50% desses fornecedores e assim por adiante. Ao final de cinco anos, poderá ter adquirido animais de 15 mil a 20 mil fornecedores. Dessa forma, o ponto de partida das mensurações com o momento de seu cálculo já não é o mesmo, trazendo incongruências metodológicas relevantes. Ou seja, a metodologia proposta não é adequada à realidade do mercado.
Por fim, a metodologia demanda incrementalidade contínua, desconsiderando esforços de efetivas reduções obtidas por empresas que iniciaram esses compromissos há muito tempo. Quem já vem fazendo esse trabalho há anos e capturou reduções importantes naturalmente terá menos espaço para continuar reduzindo emissões no mesmo ritmo. Não faz sentido uma metodologia penalizar quem saiu na frente.
Em sistemas produtivos tropicais, a dimensão social precisa ser considerada. A FAO projeta um aumento de 14% na demanda global por proteína animal até 2030. Cortar a oferta pode significar insegurança alimentar, inflação e instabilidade social. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a cadeia da pecuária no Brasil emprega cerca de 7 milhões de pessoas, direta e indiretamente. Muitos desses trabalhadores estão em regiões de baixa renda, onde a pecuária é uma das poucas atividades econômicas viáveis.
Ao tornar as regras para a validação da produção sustentável incompatíveis com a realidade da produção tropical, corre-se o risco de expulsar da legalidade e da formalidade os produtores que mais precisam de apoio para evoluir. O efeito da exclusão social tem sido amplamente discutido como resultado de medidas ambientais desconectadas da realidade social. O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhece que as estratégias climáticas devem considerar cobenefícios sociais, econômicos e ecológicos.
Não se trata de questionar a relevância de iniciativas como a SBTi ou de flexibilizar metodologias para simples acomodação da realidade brasileira. Pelo contrário, o que os segmentos mais sofisticados desse setor têm demandado é ainda mais ciência e metodologias que incorporem a realidade dos sistemas tropicais, sem perder rigor e integridade científica.
Fonte ONU