Aos 21 anos, a neurocientista paranaense Daniele de Mari transformou uma frustração profissional no combustível para um feito histórico no setor de inteligência artificial. Após quatro anos imersa em pesquisas sobre interfaces cérebro-máquina na Georgia University, nos EUA, seus planos foram interrompidos pelo fechamento repentino da instituição durante a pandemia.
De volta ao Brasil, em vez de recuar, Daniele adaptou sua ambição. Em 2021, uniu-se ao sócio Heitor Ettor para fundar a Neurogram, plataforma que utiliza inteligência artificial para organizar dados neurológicos complexos. Os resultados estão chegando: no ano passado, a startup captou R$ 23 milhões de investidores como Maya Capital e Canary.
Integrante da lista Forbes Under 30, Daniele não é um caso de sucesso isolado; ela simboliza uma geração que aposta que o Brasil não quer apenas consumir IA, mas criá-la. Em 2025, o setor de TI no país formou 21 mil especialistas mulheres, um vigoroso salto de 32,4% em apenas um ano. Segundo a Brasscom, principal entidade do setor, a representatividade feminina já atinge 39,1% dessa força de trabalho, um nicho crucial de rigor técnico para lidar com a tecnologia mais transformadora dos nossos tempos.
Esse avanço é uma vantagem competitiva, diz Sandra Vaz, presidente da empresa de software Red Hat Brasil. “A tecnologia ganha escala real com o protagonismo feminino”, declara. Para a executiva, essa visão plural evita que os sistemas do futuro repliquem os preconceitos do passado.
Em se tratando de IA, trata-se de minimizar a perpetuação de estruturas machistas nos sistemas que contribuirão para a tomada de decisões nas organizações. “O maior desafio nunca foi capacidade técnica”, resume Flavia Neves, fundadora da Mosaic.ai e membro da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria).

Se o gargalo do déficit de profissionais do sexo feminino em programação e desenvolvimento está sendo sanado, hoje o desafio reside na liderança e no empreendedorismo. Dados da FGV e do Stanford AI Index 2025 revelam que, embora o Brasil exporte talentos, ainda há um abismo a ser superado para que elas assumam o comando da criação algorítmica, o núcleo onde se definem as regras do jogo.
Paula Souto Tempelaars, cofundadora da entidade dedicada a promover o avanço das mulheres na tecnologia Women in AI (W.AI), defende que a diversidade cognitiva se justifica como estratégia de mercado. “A neurociência mostra que essa pluralidade aumenta a robustez das soluções. Diversidade não é apenas uma pauta de inclusão; é uma estratégia de board”, afirma.

Soberania digital
A discussão, segundo ela, transcende a equidade: trata-se de soberania nacional. Roberta Piozzi, diretora da Brasscom, alerta que a sub-representação feminina em cargos estratégicos limita o potencial de inovação do país: “Se os times que desenvolvem algoritmos não são diversos, os riscos de vieses aumentam e o Brasil perde relevância global”.

Na atual fase dessa tecnologia revolucionária, o país não pode prescindir de gente capacitada. A liderança feminina está florescendo em frentes que vão da cibersegurança à educação, como mostram nomes como a professora Cristiane Lindner, à frente da Cristal.blue, e a própria Flavia Neves, na Mosaic.ai. Mas ainda é pouco. O Fórum Econômico Mundial, em seu relatório de janeiro de 2026, alertou que mais de 60% das economias em desenvolvimento carecem de infraestrutura digital ou marcos regulatórios para capitalizar os ganhos de produtividade da IA.
Esse despreparo, segundo o fórum, decorre da escassez de investimentos em data centers e na educação especializada, o que ameaça aprofundar a desigualdade global e reduzir nações a meras consumidoras de tecnologias externas. Neste contexto, conclui Roberta, mobilizar o talento das cientistas e engenheiras brasileiras será fundamental para mitigar riscos e garantir a independência econômica do país.
Acesso ao capital
De acordo com o mapeamento da Forbes Brasil sobre as 10 startups nacionais de IA prontas para captações de até US$ 100 milhões em 2026, o ecossistema brasileiro demonstra maturidade, mas ainda revela o longo caminho para a liderança feminina.
O estudo aponta que as empresas de IA que devem encabeçar as rodadas de investimento em 2026 concentram-se em eficiência operacional (SaaS), logística, agronegócio e saúde.
Embora as mulheres ocupem quase 40% das vagas técnicas, a lista de startups com maior potencial de captação permanece majoritariamente dominada por fundadores homens. Isso reforça a tese de especialistas: o gargalo atual não é a competência técnica, mas o acesso equitativo das mulheres ao venture capital e às posições de fundadores.
No centro da decisão
Veja algumas mulheres que já se posicionam como líderes em IA:
Tania Cosentino

Ex-presidente da Microsoft Brasil, Tania é uma das principais vozes sobre como a IA pode ser usada para sustentabilidade e inclusão social em conselhos de empresas como a WEG.
Cristina Palmaka

Após anos na presidência da SAP na América Latina e Caribe, Cristina migrou para uma atuação focada em conselhos (atuando em empresas como Arcos Dorados, Eurofarma e C&A). Sua expertise é fundamental para empresas que buscam integrar IA ao negócio.
Sandra Vaz

Atual country manager da Red Hat Brasil, Sandra possui uma trajetória consolidada em empresas como Oracle e SAP. É especialista na infraestrutura de open source, essencial para garantir que a IA adotada pelas empresas brasileiras seja transparente.
Paula Bellizia

Com passagens pela liderança da Microsoft e Google, Paula é vice-presidente da AWS na América Latina. A executiva tornou-se referência em expansão global via tecnologia. Sua visão conecta a IA diretamente ao crescimento de receita e à competitividade internacional.
Ana Paula Assis

Vice-presidente sênior da IBM (EMEA), Ana Paula é uma das brasileiras mais influentes no cenário global de tecnologia. Ela pauta discussões sobre a ética nos algoritmos e a necessidade de “IA de confiança” para setores regulados, como o bancário.
*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.
FonteCâmara dos Deputados