Além das Cotas: O Empreendedorismo como Minha Resposta à Exclusão e a Força da Minha Trajetória

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Por Nânci De Negri Garcia*

Imagine acordar todos os dias sabendo que o seu maior desafio não é uma limitação interna, mas sim a barreira invisível do preconceito institucional. Para milhões de Pessoas com Deficiência (PcD) e indivíduos neurodivergentes, o mercado de trabalho formal não se apresenta como um espaço de acolhimento, mas como um território de constante rejeição.

Embora a Lei de Cotas (Lei nº 8.213/91) exista para garantir a inclusão legal, a realidade prática mostra que muitas empresas preferem arcar com multas a adaptar seus ambientes e culturas organizacionais. Diante de portas sistematicamente fechadas, o empreendedorismo deixa de ser apenas uma opção de carreira ou um sonho de liberdade. Ele se torna uma imposição: empreende-se por absoluta necessidade de sobrevivência.

As dificuldades começam no processo de seleção, frequentemente permeado pelo capacitismo, e se estendem à falta de acessibilidade arquitetônica e digital. O profissional é, muitas vezes, subestimado em sua capacidade intelectual e técnica, sendo empurrado para vagas operacionais, sem perspectivas de plano de carreira. Essa exclusão sistemática gera um impacto psicológico profundo, minando a autoestima e a dignidade de cidadãos plenamente capazes de contribuir para a sociedade.

Quando o mercado formal falha em enxergar o potencial humano, a alternativa que resta é criar o próprio caminho através do próprio negócio.

Exemplos Inspiradores de Resiliência Global

Apesar das adversidades estruturais, a história é repleta de indivíduos que transformaram suas realidades e se tornaram referências globais de inovação e liderança, provando que as diferenças podem se tornar grandes catalisadores de sucesso:

Richard Branson: O bilionário fundador do Virgin Group convive com a dislexia severa. Ele transformou o que muitos viam como uma limitação de aprendizado em uma habilidade única de simplificar processos de negócios e focar em uma comunicação direta e humanizada.

Daymond John: Conhecido investidor do programa Shark Tank e fundador da marca FUBU, enfrentou a dislexia na juventude. Sua dificuldade com a leitura tradicional o forçou a desenvolver uma sensibilidade visual e comercial aguçada para o mercado de moda.

Geraldo Rufino: O fundador da JR Diesel começou sua trajetória como catador de lixo na periferia. Embora sua principal barreira inicial tenha sido a extrema vulnerabilidade social e racial, que operam de forma interligada com outras exclusões, sua história exemplifica a resiliência necessária para vencer a falta de oportunidades estruturais.

Thomas Edison: O inventor e empresário que fundou a General Electric perdeu grande parte de sua audição na infância. Longe de se isolar, Edison creditava ao silêncio a sua extraordinária capacidade de concentração absoluta para desenhar e testar suas invenções.

Ingvar Kamprad: O fundador da gigante de móveis IKEA era disléxico. Sentindo extrema dificuldade em memorizar códigos numéricos de produtos, ele decidiu dar nomes de cidades e pessoas às mobílias, uma estratégia que se tornou a identidade global de sua marca.

Paul Orfalea: Fundador da Kinko’s (adquirida pela FedEx), conviveu com dislexia e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Incapaz de realizar tarefas burocráticas tradicionais, ele focou sua liderança em observar o comportamento humano e motivar seus funcionários, delegando a execução técnica.

A Intersecção Necessária: Direito, Gestão e Inclusão

Para que o empreendedorismo inclusivo deixe de ser uma jornada solitária e dolorosa, é fundamental cruzar a prática com o conhecimento técnico-científico. Sob a ótica do Direito Aplicado, o ambiente de negócios precisa de mecanismos jurídicos eficazes que desburocratizem o acesso ao crédito para empreendedores que enfrentam vulnerabilidades e garantam incentivos fiscais reais para microempresas geridas por esse público.

Já sob a perspectiva da Gestão Pública e Empresarial, há uma urgência em desenhar políticas públicas transversais que unam o Estado e o setor privado. Isso envolve desde a criação de editais de fomento específicos até programas de mentoria que capacitem tecnicamente o empreendedor. Unir a justiça legal à eficiência de gestão é o único caminho viável para transformar o empreendedorismo por necessidade em um ecossistema de inovação sustentável e verdadeiramente inclusivo.

Da Dor à Liderança: A Minha Trajetória Transformadora

A teoria ganha vida e rosto na minha própria trajetória como CEO e fundadora do Hit Fit Centro Cultural e Educacional.

Minha história é o reflexo exato de como a necessidade e a dor podem ser convertidas em potência empreendedora e excelência acadêmica. Comecei a trabalhar precocemente, aos 12 anos. A necessidade de buscar o meu próprio sustento surgiu em um cenário doméstico hostil, marcado por uma mãe narcisista e um pai extremamente agressivo, que chegavam a trancar os armários e a geladeira com cadeados. Vivenciando contextos de extrema vulnerabilidade emocional e física, enfrentei a bulimia, a anorexia, a osteopenia e a bipolaridade. Mais tarde, descobri também conviver com a fobia social.

Em meio à escassez, fui acolhida por amigas para me esconder e ter o que comer, até que aos 17 anos saí de casa em definitivo. Aos 18 anos, casei-me e mudei-me para São Paulo, cidade que me acolheu calorosamente. Na metrópole, continuei os meus estudos e tive a oportunidade de cursar Artes Cênicas. O sucesso na área artística foi imediato: interpretei a professora de canto e a sereia nos seriados da famosa dupla sertaneja Rosa e Rosinha, além de atuar na novela Cristal, no SBT, e em Coração de Estudante, na Rede Globo.

Nânci De Negri Garcia
Nânci De Negri Garcia

No entanto, as reviravoltas da vida exigiram uma nova mudança de rota. Quando meu primeiro marido perdeu o emprego, a necessidade de empreender bateu à minha porta. Transformei em negócio aquilo que eu já fazia desde a infância: dar aulas. Encontrando na música a minha maior força, uma ferramenta que me torna intensa, afetiva e acolhida, enfrentei o desafio de abrir e fechar estúdios e academias, refinando minha resiliência e segurança empresarial.

Buscando restabelecer minhas raízes, retornei para Novo Hamburgo (RS), minha terra natal. Lá, fui aprovada em um concurso público e tentei equilibrar a rotina trabalhando na prefeitura durante o dia e gerenciando meu Studio à noite. Contudo, o ambiente do funcionalismo público local tornou-se um espaço de profundo desgaste, onde fui vítima de assédio moral por parte de mulheres que antes eu admirava. Recusando-se a ser abafada por um sistema adoecido, deixei o cargo público para me dedicar integralmente ao empreendedorismo.

Hoje, superando a fobia social através da liderança empresarial, comando um megapolo universitário. Minha resposta à exclusão e aos traumas do passado foi uma busca incessante pelo conhecimento: possuo quatro licenciaturas (Artes, Pedagogia, Letras e Educação Física) e sete pós-graduações. Atualmente, atuo como gestora e professora universitária, sou Mestranda em Direito Aplicado à Gestão Empresarial e Pública com Ética Cristã pela Ivy Enber, e Doutoranda em Ciências Empresariais pela SENSU, na Argentina.

A minha história demonstra que o empreendedorismo, quando aliado a uma bagagem técnica e humanística sólida, é capaz de romper os ciclos mais profundos de exclusão, construindo pontes e gerando um impacto social transformador.

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Instagram: @ceo_nanci.888

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