O Que Jorge Gerdau Me Ensinou sobre Felicidade Aos 89 Anos

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E se a felicidade não fosse apenas uma busca, mas uma consequência direta de ser útil?

Foi com essa pergunta que saí de uma conversa com o voluntário Jorge Gerdau Johannpeter, 89 anos.

Dessa vez, ele não será enaltecido aqui como o grande empresário que é, nem por fazer parte da famosa lista da Forbes dos bilionários brasileiros. Vou te apresentar um Jorge Gerdau que talvez você ainda não conheça.

Nosso primeiro encontro foi em 7 de novembro de 2018. Era a minha primeira reunião como conselheira da Junior Achievement (JA), uma das maiores e mais antigas organizações educativas sem fins lucrativos do mundo.

Éramos 12 conselheiros, todos presidentes e CEOs, além da nossa extraordinária diretora superintendente, Bety Tichauer. Quando o Dr. Jorge começou a falar, algo mudou na sala.

Existem pessoas que parecem carregar o sol dentro delas. É difícil explicar. A presença delas ilumina o ambiente.

Ficamos ali, encantados com sua mistura de sabedoria, serenidade, clareza e uma paixão genuína pelo que estávamos construindo juntos.

Antes de seguir, vale uma imagem simples para diferenciar três conceitos que costumam se confundir: filantropia, caridade e voluntariado.

Filantropia é quando uma pessoa ou instituição doa um valor significativo do seu patrimônio e comunica isso ao mundo. Caridade é quando a doação financeira acontece no anonimato. Voluntariado é quando você cruza a porta, doa seu tempo e suas habilidades, técnicas ou emocionais, e passa a fazer parte da transformação.

Tudo é absolutamente importante. São forças que sustentam a sociedade, especialmente onde o governo não consegue chegar.

Mas hoje quero exaltar o voluntariado. Porque ele não exige capital, muito menos classe social. Exige o seu tempo. E isso está ao alcance de todos.

Minha história com o voluntariado começou em 1992. Eu tinha 17 anos quando minha mãe, Antonia, voluntária da extinta Febem do Pacaembu, em São Paulo, me levou para conhecer o abrigo, com cerca de 400 crianças carentes e abandonadas.

Naquele dia, entendi algo que nunca mais me deixou.

Passei horas brincando com uma menina de 4 anos chamada Marilene. No fim da tarde, quando eu estava indo embora, ela disse: “Me leva para sua casa?”.

Lembro dos olhinhos dela, do cabelo cacheado nos ombros, da camiseta azul que usava e de como segurava minha mão com força. Passei a semana chorando, pedindo para minha mãe adotá-la. Não era possível. Já éramos quatro filhos. Mas minha mãe prometeu que voltaríamos todos os sábados. E voltamos, até que, seis meses depois, Marilene foi adotada.

Anos depois, minha mãe me contou que começou aquele voluntariado após o falecimento da minha avó, Theodora. Havia um vazio grande demais, e ela decidiu transformá-lo em cuidado. Foram mais de 15 anos dedicados àquelas crianças. E, até hoje, ela repete que recebeu muito mais do que deu.

Na conversa com o Dr. Jorge, ele fez questão de honrar a importância de sua querida esposa, Maria Elena, que foi quem o levou por esse caminho sem volta do voluntariado.

Com seu sotaque gaúcho, ele disse: “Lu, tu és ligeira e sabes que tudo o que recebemos ao longo da vida, de alguma forma, temos a responsabilidade de devolver.”

Ele acredita que o voluntariado ainda é mais cultura do que sistema, e que temos muito espaço para avançar. Que é inadmissível a taxa de cerca de 27% de analfabetismo funcional em nosso país, e que precisamos nos envolver. Que todos nós temos algo a oferecer: nossas habilidades, nossas experiências, nosso olhar de mundo.

Talvez a pergunta mais importante não seja o quanto temos para doar, mas de que forma podemos ser úteis. No fim, não é só sobre ajudar alguém. É sobre o tipo de sociedade que queremos construir.

Aprendi muito como conselheira da Junior Achievement e me realizei ao contribuir com aquele grupo de pessoas tão inteligentes e generosas. Mas foi em 2019, dentro das salas de aula das ETECs, ensinando empreendedorismo para jovens de 17 anos da periferia de São Paulo, que entendi onde realmente eu fazia a diferença.

Ali, de alguma forma, a adolescente que não pôde levar Marilene para casa ainda estava presente, oferecendo o melhor de si para que aqueles jovens tivessem a chance de entrar no mercado de trabalho um pouco mais preparados.

Como escreveu o português Valter Hugo Mãe, “somos o resultado de tanta gente, de tanta história, de sonhos que passam de pessoa para pessoa, que nunca estaremos sós.”

Quem sabe você termine este texto concordando com o Dr. Jorge: o segredo de uma vida feliz é ser útil. Afinal, ser útil tem o poder de transformar o impacto individual em algo muito maior no mundo.

P.S.: 2026 é reconhecido como o Ano Internacional dos Voluntários. Segundo o IBGE, existem 7,3 milhões de voluntários ativos no Brasil. E cerca de 28% dos brasileiros já fizeram voluntariado ao menos uma vez na vida. Fonte: TETO

P.S.1: Em 2024, a família Gerdau, por meio do Instituto Helda Gerdau, doou R$ 30 milhões para um fundo de reconstrução no Rio Grande do Sul. Em 2025, anunciou um aporte de R$ 5 milhões anuais, até 2029, para um fundo de bolsas de estudo voltado à educação. Um grande exemplo de filantropia.

P.S.2: A Bety Tichauer segue com sua missão de impactar a vida de milhares de jovens e suas famílias por meio da educação e, há três anos, é responsável pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

P.S.3: Junior Achievement Portugal, me aguarde. Estou chegando, de mangas arregaçadas.

*Lu Rodrigues é conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade e do comitê estratégico de presidentes da Amcham. Também é aluna de pós-graduação em neurociências e comportamento.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.



FonteForbes

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