O banco Digimais, ligado à Igreja Universal de Edir Macedo, enfrenta crise financeira e investiu em projetos de alto risco, como um condomínio em Goiana, PE, sem licença, e terras em Paraty, RJ, com histórico de conflitos fundiários. Auditorias revelam que 75% dos R$ 4 bilhões em aportes não foram devidamente escrutinados. O banco é investigado por fraudes e está em negociação com o BTG Pactual. A gestão mudou em 2025, com Aldemir Bendine assumindo a presidência.
Enfrentando uma crise em suas contas, o banco Digimais, do líder da Igreja Universal, Edir Macedo, aportou recursos em um empreendimento que sequer tem licença para ser construído e nunca saiu do papel, e em uma empresa dona de terrenos de praias altamente protegidas pela União, onde moram caiçaras, e com histórico de conflitos fundiários. Os imóveis estão alocados em fundos de investimento dos quais o banco é cotista. Eles têm patrimônio somado de R$ 526 milhões.
A reportagem procurou o banco e a igreja. Nenhum dos dois quis se manifestar.
Trata-se de investimentos com alto risco envolvido. No caso do terreno, há um projeto de condomínio a ser construído na cidade de Goiana, no nordeste de Pernambuco. A Prefeitura não autorizou e não há obras no local. Já a praia em Paraty, no Rio de Janeiro, segundo um empresário ouvido pelo Estadão, viraria uma espécie de investimento em preservação ambiental, à semelhança do crédito de carbono, que depende de uma certificação que pode sair só em 2028. Segundo integrantes do mercado financeiro, trata-se de apostas pouco usuais, principalmente em bancos com problemas financeiros, como é o caso do Digimais.

Área de um antigo engenho de cana de açúcar adquirida pelo ID Goiana, fundo constituído para investir em um projeto de um condomínio na cidade de Goiana, no nordeste de Pernambuco: fundo recebeu investimento do banco Digimais Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução
Nas últimas três semanas, a reportagem obteve auditorias sobre balanços do banco nos últimos anos, processos judiciais, contratos e outros documentos que reconstituem a criação e o uso desses fundos de investimentos que têm o próprio Digimais como cotista. Também conversou com pessoas ligadas à própria Igreja Universal, que relatam, sob condição de reserva, que o banco tem usado esses fundos para maquiar graves problemas financeiros.
Auditores independentes apontaram que cerca de 75% dos R$ 4 bilhões em aportes do banco Digimais não puderam ser devidamente escrutinados por falta de documentos que comprovem a situação de fundos nos quais esses recursos foram alocados. Documentos e relatos levantados pelo Estadão revelam qual foi o destino de pelo menos parte desses R$ 3 bilhões considerados opacos pela fiscalização sobre o banco.
Como já havia mostrado o Estadão, a maior parte desses investimentos, no valor de R$ 1,9 bilhão, está em fundos de investimento em direitos creditórios, os Fidcs. Esses fundos foram usados para o próprio banco comprar sua carteira de créditos com altos índices de inadimplência e precatórios usados para fazer negócio com a própria holding controladora do banco, que pertence a Macedo.

A reportagem também apurou onde foram parar, em parte, os R$ 2,3 bilhões investidos em fundos destinados a financiar empreendimentos imobiliários e empresas. Dessa cifra, R$ 1,9 bilhão não tinha documento suficiente para ser auditado. Em comum, dois fundos com este perfil levantados pela reportagem investem em projetos que estão longe do início ou dependem de licenças que sequer foram aprovadas.
O investimento nesses fundos foi feito nos últimos três anos, em que o banco entrou em crise e passou a ser negociado no mercado. Os aportes ocorreram no mesmo período em que, como mostrou o Estadão, o banco passou a fazer manobras para jogar carteiras cheias de financiamentos para compras de veículos, repletas de inadimplência, em fundos, o que dificulta a análise de suas contas por auditores. Dessa forma, o banco conseguiu fechar o ano com um módico lucro de R$ 31 milhões. A instituição financeira é investigada por supostas fraudes pela Polícia Federal.
Patrimônio da humanidade no Rio
Na lista de fundos que receberam investimentos do Digimais, consta um fundo com patrimônio de R$ 419 milhões, chamado Cajaíba. Constituído em junho de 2025, ele nunca foi auditado. Tem como objeto de seu investimento a Cajaíba Participações, empresa detentora de terras na Praia Grande da Cajaíba, em Paraty, no Rio de Janeiro.

Aérea em Paraty que pertence ao Fundo Cajaíba, que recebeu investimento do banco Digimais Foto: Pedro Berruezo Marques
Trata-se de uma praia isolada, com áreas de proteção ambiental e social, para preservar os caiçaras que vivem na região. Para chegar lá, são 40 minutos de barco de Paraty ou uma trilha em mata fechada. A região foi palco de conflitos por terras ao longo das últimas décadas e houve um êxodo dos caiçaras.
A Cajaíba Participações pertence a Cristiano Tannus Notari, neto de Gibrail Tannus Notari, que adquiriu as terras nos anos 1950. Sua família reivindica ser dona das terras. E conseguiu os registros em cartórios. A ocupação é marcada por controvérsias. No fim da década de 1970, em um depoimento à CPI do sistema fundiário, na Câmara dos Deputados, um desembargador afirmou que Gibrail era grileiro e que havia tomado atitudes contra caiçaras para saírem de lá. O relato consta em um atlas fundiário produzido pelo governo do Rio de Janeiro nos anos 1990. Ele, no entanto, nunca foi condenado pelo crime de grilagem.
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Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, o pesquisador Pedro Berruezo Marques é um estudioso dos conflitos fundiários nas terras caiçaras da Cajaíba, em Paraty. Ele relata que era um expediente comum fazer contratos de transferência das terras, até mesmo com caiçaras não alfabetizados, para aquisição de venda por valores irrisórios. Em seguida, estratégias de intimidação, com uso de capangas.
“Algumas estratégias eram bem relatadas na literatura. Uma delas é que ele (Gibrail) levou uma série de bois e búfalos e os soltou naquela região, na fazenda que comprou, só que os bois vagavam. Então começaram a pisotear a roça dos caiçaras, a assustar as crianças, e os relatos de berne nas crianças aumentaram”, disse.
Ao Estadão, Tannus Notari afirma que “nenhum processo, fundamental esclarecer, envolve qualquer irregularidade, grilagem, ou compromete a titularidade dos imóveis e o curso normal das atividades”. “Todos são regularmente acompanhados pelos advogados da Companhia, no estrito cumprimento do devido processo legal”, diz.
Na última década, o Ministério Público Federal chegou a mover uma ação judicial para derrubar uma casa da família que fica na praia, em frente ao mar. Chegou a conseguir decisões de primeiro e segundo grau para demolir o imóvel. No entanto, diversos recursos foram movidos, o processo se arrastou por anos e a casa continua lá. Também, há pouco mais de dez anos, a família tentou obter a aprovação da construção de um resort de luxo, com heliponto, bangalôs e capacidade para até 729 pessoas na praia da Cajaíba. Licenças ambientais foram negadas e o projeto não andou.
Ao Estadão a empresa de Cristiano Tannus Notari afirma que não pretende construir um resort no local. Ele afirma que está em fase de estudo um projeto para que a área seja preservada e sejam gerados créditos de restauração de biodiversidade, um modelo semelhante ao dos créditos de carbono. A licença, entretanto, está prevista por Notari para sair em 2028, após um longo processo de estudos e validação com certificados internacionais.

Praia em Paraty na área que a Cajaíba pretende explorar; fundo recebeu investimento do banco Digimais Foto: Pedro Berruezo Marques
Uma das matrículas das terras da empresa de Notari recebeu uma anotação com um alerta para eventuais compradores. O magistrado de Paraty mandou o cartório registrar que existia um processo que dizia respeito à falsificação de documentos da propriedade do imóvel correndo em seu gabinete, o que poderia causar insegurança jurídica. “A determinação de simples anotação não produz efeito jurídico sobre o imóvel, não tendo o poder de limitar o direito de propriedade da Companhia”, informou a Cajaíba Participações.
Sobre a participação do Digimais, afirmou que a instituição financeira “detém posição minoritária na Cajaíba Participações S.A”. “O banco ingressou no capital da companhia juntamente com outros investidores, todos privados e em condições de mercado”, afirma.
Terreno vazio em Pernambuco
Outro fundo que recebeu investimentos do Digimais foi o ID Goiana, constituído para investir em um projeto de um condomínio na cidade de Goiana, no nordeste de Pernambuco. A 65 quilômetros da capital Recife, o município tem população de 88 mil pessoas. Fundada em 1568, é conhecida por ter belas praias e um centro histórico colonial.
Ao lado, há engenhos antigos de um grande grupo empresarial que entrou em recuperação judicial. Um deles foi tomado por um banco após a empresa deixar de honrar uma dívida. O terreno foi incorporado ao patrimônio do banco e foi constituído um fundo para investir no projeto de um condomínio. Imagens de satélite e fotos do terreno, que tem 700 hectares, mostram que ele é todo preenchido com vegetação e pequenas estradas de terra. O Estadão apurou que ainda não há licença da Prefeitura de Goiana para construir nada lá.
O fundo de investimentos tem patrimônio de R$ 107 milhões e tem apenas um cotista, segundo seus últimos balanços enviados à CVM. O Estadão apurou que o Digimais é cotista do fundo.
Mudança de direção e venda

Os problemas do banco Digimais, fundos de investimentos escondem prejuízos com financiamento de carros, vítimas financiaram veículos e depois descobriram que carros com defeitos insanáveis Foto: Felipe Rau/Estadão
Os aportes bilionários do Digimais foram feitos em meio à escalada da crise do banco, que teve como marcos mais recentes sua negociação no mercado e a troca de sua gestão. O banco era presidido por João Urbaneja, bispo da Igreja Universal e braço direito de Edir Macedo. Ele foi trocado no fim de 2025 pelo ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, que foi condenado por receber propinas da Odebrecht na Operação Lava Jato e conseguiu a anulação de sua pena no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Nos últimos meses, o banco tem sido negociado com o BTG Pactual, que diz ao Estadão ter interesse em sua “carteira de clientes”. “O BTG Pactual informa que assinou documentos vinculantes para uma potencial aquisição do Banco Digimais, ainda sujeita ao cumprimento de condições precedentes e à realização de um processo competitivo”, afirma.
“A operação não foi concluída e deverá ocorrer por meio de leilão. A eventual transação também depende de mecanismos de suporte financeiro, incluindo a participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)”, diz o banco.
Fonte ONU