A decisão mais confortável no trading costuma parecer a mais lógica. No entanto, para o trader dinamarquês Tom Hougaard, autor do best-seller O Melhor Perdedor Vence, essa percepção está justamente na raiz dos erros mais comuns no mercado.
“No trading, seu instinto básico sempre será que o caminho fácil é o caminho certo”, diz Hougaard ao InfoMoney, durante entrevista na Expert Trader XP nesta sexta-feira (27), em São Paulo.
A partir de anos de experiência prática e observação direta do comportamento de milhares de traders, Hougaard sustenta uma tese simples, mas contraintuitiva: no mercado financeiro, o trade certo costuma ser aquele que é mais difícil de executar. “O trade díficil é o certo. Se parece difícil de fazer, então essa é a coisa certa a fazer”, ressalta”, diz.
O que parece fácil tende a ser seguido por muitos e, por consequência, tende a ser menos eficiente. Por outro lado, o que exige maior esforço emocional costuma ser negligenciado, mas frequentemente está mais alinhado com a lógica do mercado.
Comprar um ativo após uma alta, vender em um movimento de queda ou assumir rapidamente uma perda são exemplos de decisões que entram em conflito com o instinto natural. Segundo Hougaard, o problema não está na falta de conhecimento técnico, mas na tendência humana de evitar desconforto, mesmo quando isso compromete o resultado. “Você nunca está fora da luta com seu instinto básico”, diz.
Leia mais: Por que Tom Hougaard é figura diferenciada no universo do trading
Continua depois da publicidade
Trading e instinto
Para explicar esse comportamento, Hougaard recorre a uma analogia fora do mercado: tentar emagrecer. Segundo o trader, assim como não faltam métodos e dietas disponíveis, também não falta conhecimento no trading. Ainda assim, a maioria das pessoas falha em ambos os casos. “A indústria da dieta é construída no fracasso”, afirma.
O motivo, na sua leitura, está no funcionamento do cérebro humano. Existe um mecanismo natural de busca por prazer e fuga da dor. Esse instinto, essencial para a sobrevivência ao longo da evolução, entra em conflito direto com o que o trading exige na prática. “Nós temos uma voz que quer garantir que você não experimente dor”, explica.
No mercado, isso se traduz em decisões que parecem intuitivamente corretas, mas que, na realidade, comprometem a consistência ao longo do tempo. “Qualquer coisa que você pensou inicialmente, essa resposta automática baseada no medo, quase sempre está errada”, diz.
Continua depois da publicidade
Leia também: Top Traders InfoMoney: Confira a lista dos 200 influencers indicados ao prêmio
O que ele viu na prática
Essa percepção não surgiu apenas da teoria. Durante cerca de uma década, Hougaard trabalhou em uma mesa institucional, atuando como intermediário entre clientes e o mercado. Nesse ambiente, ele teve acesso direto ao comportamento de milhares de traders de varejo.
Ao analisar esse fluxo de ordens de forma sistemática, percebeu um padrão recorrente: os clientes tendiam a evitar comprar mercados que já haviam subido e, ao mesmo tempo, se sentiam confortáveis em comprar ativos que estavam caindo. “Os clientes geralmente têm medo de comprar um mercado que já subiu”, diz.
Continua depois da publicidade
Essa lógica, baseada na percepção de “caro” e “barato”, parecia fazer sentido à primeira vista. No entanto, na prática, levava a decisões sistematicamente equivocadas. “Nós achamos que algo que subiu ficou caro, mas isso é apenas uma percepção”, explica.
A ilusão do preço
Segundo Hougaard, o problema está na forma como os traders interpretam valor. Assim como no cotidiano — ao comparar preços no supermercado — o cérebro tende a avaliar se algo está caro ou barato com base em referências recentes.
No mercado financeiro, porém, essa lógica pode ser enganosa. Um ativo que subiu não necessariamente está caro, assim como um ativo que caiu não está, obrigatoriamente, barato. “O mercado tem uma mente própria”, afirma.
Continua depois da publicidade
Ainda assim, a tendência natural é evitar comprar algo que já valorizou e buscar oportunidades em movimentos de queda. Esse comportamento, repetido em larga escala, ajuda a explicar por que tantos traders acabam posicionados do lado errado do mercado. “A própria coisa que você acha que é o bom trade tende a ser o trade errado”, alerta.
Comportamento e resultado
Essa lógica também aparece na forma como traders gerenciam suas posições. Ao longo de sua experiência, Hougaard observou que a grande maioria tende a aumentar posições perdedoras, enquanto poucos conseguem adicionar posições em trades vencedores. “De 25 mil traders, talvez cinco adicionavam em trades vencedores”, diz.
Essa diferença de comportamento, diz Hougaard, não está relacionada ao nível técnico, mas à forma como o cérebro reage ao risco. Aumentar a posição perdedora parece confortável, pois dá a sensação de estar adquirindo algo mais barato. “É natural querer comprar mais quando fica mais barato”, explica.
Já aumentar um trade que está ao seu favor gera desconforto, pois envolve assumir risco em um preço mais alto. Essa inversão, porém, é o que separa consistência de um fracasso no longo prazo.
Um estilo de vida
Para Hougaard, essa disciplina não se limita ao trading. Ele argumenta que a capacidade de agir contra o próprio instinto precisa estar presente em outras áreas da vida, como hábitos alimentares e rotina de atividades físicas. “Isso se torna um modo de vida”, afirma.
Na sua visão, não é possível ser disciplinado apenas diante da tela e negligente fora dela. O comportamento, nesse sentido, é um padrão que se repete em diferentes contextos. “Como você é em uma área, você é na totalidade da sua vida”, diz.
Por isso, a consistência no mercado está diretamente ligada a um estilo de vida baseado em decisões difíceis, repetidas ao longo do tempo. “Você nunca está fora da luta”, conclui.
A lógica invertida
No fim, a proposta de Hougaard desafia uma ideia central do senso comum no trading. Em vez de buscar o caminho mais confortável ou intuitivo, ele sugere exatamente o oposto: questionar a primeira reação e considerar que o desconforto pode ser um sinal de que a decisão está no caminho certo.
Em um ambiente onde a maioria segue o que parece mais lógico, a vantagem pode estar justamente em fazer aquilo que poucos estão dispostos a executar. “Você precisa fazer o oposto do que a maioria está fazendo.”
Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice.
Fonte Infomoney