Um guia para quem precisa decifrar governança da China

Compartilhar:

Evandro Menezes de Carvalho, professor, especialista em China
Evandro Menezes de Carvalho (foto divulgação)

O livro China: Tradição e Modernidade na Governança do País, que será lançado nesta quinta-feira na livraria Travessa de Ipanema, no Rio de Janeiro, de Evandro Menezes de Carvalho, é um importante instrumento para quem quer, ou precisa, decifrar o país asiático que “influencia o comércio, a tecnologia, a energia e a própria reorganização da ordem internacional, portanto, ignorá-la não é mais uma opção estratégica”, segundo o autor.

Evandro Menezes de Carvalho já foi à China mais de 30 vezes, morou lá mais de quatro anos e prepara-se para ir em março para nova jornada de três anos, com o objetivo de desenvolver um programa para os países de língua portuguesa, “mas o foco principal são os brasileiros, que, dentre outros objetivos, vão ao país para estudar ou conhecer todo o ecossistema de negócios”.

O convite, do reitor da Universidade Politécnica de Macau veio pela sua trajetória: Evandro é professor Associado da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, é professor da Cátedra Wutong da Universidade de Língua e Cultura de Pequim, recebeu o Prêmio Amizade do Governo Central da China (2023), possui pós-doutorado na Escola de Governo da Universidade de Pequim (2023-2024) e na Universidade de Xangai de Finanças e Economia (2013-2014), recebeu também o World Sinology Outstanding Achievement Award, Beijing Language and Culture University (2025), e por fim, é editor executivo-chefe da revista China Hoje no Brasil (chinahoje.net).

Capa do livro 'China, Tradição e Modernidade na Governança do País, de Evandro Menezes de CarvalhoCapa do livro 'China, Tradição e Modernidade na Governança do País, de Evandro Menezes de Carvalho

“O livro, de uma maneira muito didática, explica a governança da China, tendo em conta, que eu acho muito importante, os elementos históricos, culturais, o processo de formação da sociedade chinesa”, diz o autor. No Brasil, segundo Evandro, a maioria das análises sobre a China remontam à revolução de 1949, portanto, ficam restritas a uma interpretação ideológica.

Espaço Publicitáriocnsegcnseg

Ele diz que este aspecto é importante, mesmo porque o Partido Comunista Chinês conta com mais de 100 milhões de membros, mas lembra que a população daquele país é cerca de 1,4 bilhão de pessoas que são herdeiras de 5 mil anos de História. “A sociologia chinesa explica muitos aspectos da governança da China. E isso é uma dimensão muito ausente nos debates sobre a governança da China”

Ele ressalta que os aspectos da cultura milenar são, além de apreciados pela população e seus dirigentes, também grifados de importância: “Quando lemos o livro, ou qualquer um dos livros, de autoria do presidente chinês Xi Jinping, como o Governança da China, notamos que há muitas citações a filósofos chineses, a muitas remissões a sabedoria chinesa por parte do presidente chinês”.

Evandro conta que o último congresso do PCCh sublinha que para entender o sistema político chinês é importante colocar lado a lado “as teorias orientadoras do partido e a fina tradição da cultura chinesa”.

“No seu discurso, Xi disse que a China oferece para o mundo a sabedoria chinesa e a abordagem chinesa, quer dizer, o que seria esse método chinês, essa abordagem chinesa de resolver problemas, de se relacionar com outros países”, explicou.

“O governo chinês se define como um sistema socialista com características chinesas, e o livro sugere que talvez estejamos assistindo a um processo de transformação, onde o que é adjetivo – as características chinesas que qualificam o sistema socialista – tende a se tornar cada vez mais o substantivo. Então, estaríamos caminhando para uma governança chinesa com características socialistas. Isso é um ponto de vista realmente meu, muito original”. Um artigo do Global Times, inclusive, já publicou em inglês este posicionamento do professor Evandro.

Evandro esclarece que, cada vez mais, a China traz para a superfície esses elementos que foram semeados e nasceram no solo da sociedade e da cultura chinesa ao longo de muitos anos. “Então, esse livro procura preencher um pouco esse vazio, pelo menos no debate nacional aqui do Brasil”.

Evandro Menezes de Carvalho, professor, especialista em ChinaEvandro Menezes de Carvalho, professor, especialista em China
Evandro Menezes de Carvalho: criticam a China em vez de se questionar se a ‘régua’ é adequada

Uma das motivações de escrever o livro foi que as teorias ocidentais “acabam ideologizando o debate sobre a China. E o desafio de decifrar a China é epistemológico e não ideológico. Ou seja, conceitos como Estado, Partido, Sociedade Civil, Liberdade etc. são tomados como universais e neutros, mas eles são construções históricas ocidentais. E quando se os utiliza para explicar ou tentar entender a sociedade chinesa, percebe-se que falta algo e ao faltar algo, acaba-se criticando a China em vez de se questionar se a ‘régua’ é adequada”.

A primeira parte, mais agradável para o leitor, está numa linguagem mais fluida, mais literária, segundo o autor, e está ali, “a costura dos fatos históricos, e entremeados com estes, as sabedorias chinesas presentes nesses fatos, para poder explicar o porquê da China estar onde ela está hoje”.

Estão ali as reivindicações ou demandas do povo chinês desde o começo do século 20 e que naturalmente, como o movimento republicano, de 1919, toda a discussão sobre o renascimento da nação chinesa, a integridade da unidade territorial, que ficou ali pendente com o fim da guerra civil entre nacionalistas e comunistas e a fuga dos nacionalistas para Taiwan, e a fundação da República Popular da China.

A segunda parte, “que talvez exija um pouquinho mais do leitor, porque ela procura explicar toda a estrutura institucional e todos os mecanismos de decisão, tanto do Estado quanto do partido, e quando e como eles se relacionam, porque é impossível compreender a China se também não compreendermos esse modelo de governança, que inclusive envolve a própria sociedade, por isso que eu não uso a palavra governo no livro, no título, mas sim, governança, a busca dos objetivos do país, previstos na Constituição, que é tornar economicamente desenvolvido, culturalmente desenvolvido, poderoso etc”.

“Então essa questão em um governo republicano, esse é um ponto importante, quer dizer, um governo no qual os poderes da república e a burocracia devem servir ao povo, e as políticas públicas estão centradas na população, na pessoa. Esse é um ponto chave, é a régua, para poder analisar e avaliar a governança chinesa.”

Nesta segunda parte o sistema de justiça também é abordado, “porque a dimensão da governança baseada na lei, é uma das quatro estratégias do governo Xi Jinping para o desenvolvimento da nação”.

Na terceira parte, o livro analisa o governo de Xi Jinping com os desafios domésticos, as transformações domésticas e os desafios internacionais.

Siga o canal “Monitor Mercantil” no WhatsApp:cnsegcnseg



Fonte Monitor Mercantil

Artigos relacionados

Escândalo no PAD em Pirassununga: defesa pede inclusão do prefeito em investigação que hoje atinge apenas servidoras

O mês de março, tradicionalmente dedicado à valorização das mulheres e ao reforço do compromisso com igualdade e justiça, ganhou um contorno inesperado na cidade de Pirassununga (SP). Um Processo Administrativo Disciplinar instaurado pela Prefeitura tem provocado forte repercussão política e jurídica ao colocar em discussão quem deve, de fato, responder por um pagamento considerado indevido aos cofres públicos.

NR-1 atualizada coloca riscos psicossociais no centro da gestão empresarial e exige preparo das organizações

Especialistas alertam que empresas e profissionais precisam se capacitar para atender às novas exigências relacionadas à saúde mental...

Na Mooca, um pedaço da Itália: uma experiência de memória, tradição e alta gastronomia no Mizzica

São Paulo tem o raro privilégio de permitir que o mundo inteiro caiba à mesa. Mas há lugares na cidade em que a experiência vai além da gastronomia: ela toca memória, identidade e pertencimento. Foi exatamente essa sensação que encontrei ao visitar o Mizzica, na Mooca — um restaurante que traduz, com autenticidade, o espírito da cozinha italiana.

RespirArte 4 propõe imersão na Serra da Cantareira para discutir a potência feminina como energia vital

Com uma programação que integra saúde, consciência corporal e desenvolvimento humano, o encontro reúne especialistas para um dia...