Imagine um setor que adotou em massa a tecnologia mais transformadora da década — e que, na hora de provar se ela gera resultado, simplesmente não tem resposta. É esse o retrato do mercado de capitais brasileiro revelado pela primeira edição da pesquisa “Retrato da IA no Mercado de Capitais“, divulgada pela Anbima: 92% das instituições participantes já utilizam inteligência artificial de alguma forma, mas a maioria ainda opera no escuro quando o assunto é mensurar o que essa aposta devolve ao negócio. Para os líderes do setor, o recado é direto — a fase de experimentar acabou, e a de demonstrar valor começou sem que a infraestrutura estivesse pronta.
Adoção consolidada, maturidade em construção
Os números divulgados pela Anbima mostram que 63% das instituições esperam que a IA ganhe ainda mais relevância nos próximos 12 meses. No entanto, o índice de maturidade desenvolvido pela entidade, com apoio da MatchIT, registra média geral de 2,7 em uma escala de 1 a 5 — o que posiciona o mercado brasileiro em um estágio de estabilização: a fase de descoberta ficou para trás, mas os mecanismos para avançar com consistência ainda estão sendo construídos.
A próxima fronteira, portanto, não é tecnológica, é gerencial. Trata-se de transformar iniciativas isoladas em valor comprovado e escalável, com impacto direto na criação de produtos, na experiência dos clientes e no potencial de crescimento das instituições — um desafio que, como veremos, não é exclusividade do Brasil.
A pressão vem do topo: conselhos e investidores já cobram supervisão
O movimento deixou de ser restrito às áreas de inovação. Segundo estudo da consultoria de recrutamento Spencer Stuart, a supervisão de IA figura entre as três prioridades dos comitês de nomeação e governança das grandes empresas americanas em 2026. No mesmo levantamento, a menção à tecnologia e à transformação digital como foco central saltou de 75% para 92% em apenas um ano.
A cobrança também vem de fora. Conforme material da Clearwater Analytics, companhia de tecnologia e dados para gestão de investimentos, 91% das gestoras relatam aumento da exigência dos investidores sobre o uso de IA. A implicação estratégica é clara: quando conselho e investidor olham para o mesmo tema, o amadurecimento na tecnologia deixa de ser questão técnica e se torna critério de alocação de capital e de reputação corporativa — inclusive no ecossistema brasileiro de asset management, cada vez mais conectado a fluxos internacionais.
O ponto cego: 43% avaliam a IA de forma informal e subjetiva
Se a relevância é consenso, a demonstração de resultados é a exceção. De acordo com a pesquisa da Anbima, 43% dos respondentes avaliam o uso de inteligência artificial de maneira informal e subjetiva, sem métricas ou registro, e 15% das instituições simplesmente não medem nem acompanham resultados.
E não é um problema de porte. O Evident AI Index, benchmark internacional que mede a maturidade em IA do setor financeiro, examinou os 20 maiores bancos da América Latina e constatou que, embora 70% publiquem casos de uso com resultados, nenhum deles declara um retorno consolidado de IA no nível corporativo. A convergência é reveladora: a amostra da Anbima, composta majoritariamente por lideranças de gestoras brasileiras, e os gigantes do continente enfrentam a mesma lacuna estrutural. Sem medição consistente, priorizar investimentos, justificar escala e prestar contas torna-se um exercício de fé — algo que o mercado de capitais, por definição, não tolera por muito tempo.
Governança deixa de ser custo e vira alavanca de receita
O dado mais provocativo do conjunto vem de um estudo global da Deloitte: cada aumento de dez pontos em seu índice de governança está associado a cerca de dez pontos percentuais a mais de crescimento de receita. A governança, tratada até aqui como custo de conformidade, migra para o centro da estratégia de negócio.
No Brasil, o gap é visível. Segundo a Anbima, os estágios mais avançados de maturidade somam apenas 13% das instituições. E a distância entre ambição e entrega é ainda mais gritante: 73% das instituições veem na IA a chance de criar novos produtos, serviços ou modelos de negócio, mas somente 17% afirmam ter chegado lá. Como os próprios clientes já usam a tecnologia para apoiar suas decisões de investimento, o risco não é apenas financeiro — é de relevância competitiva.
A fundação invisível: sem dados confiáveis, não há IA escalável
Aceleração, retorno e governança convergem para um denominador comum: a qualidade dos dados. O estudo da Clearwater Analytics quantifica essa barreira — 99% dos executivos apontam dados não confiáveis como o maior obstáculo para confiar nos resultados da IA. Entre as instituições que mais avançaram em produtividade com a tecnologia, 86% consideram a qualidade de seus dados boa ou excelente; nos demais grupos, o percentual cai para perto da metade.
Ainda que o levantamento deva ser lido com a ressalva de que a empresa atua justamente na solução desse problema, a conclusão resiste: fontes com métodos e interesses distintos apontam para o mesmo lugar. O amadurecimento da IA depende do trabalho menos glamouroso e mais complexo de todos — organizar a base onde a informação nasce.
O descompasso que definirá os próximos anos
Somados, os estudos desenham um cenário de tensão estrutural. No andar de cima, lideranças elegem a IA como prioridade e investidores cobram supervisão; no andar de baixo, a capacidade de resposta ainda está sendo erguida, no esforço minucioso de estruturar dados, montar controles e medir resultados. Esses dois movimentos ainda não se tocaram — e é exatamente aí que reside a oportunidade para quem se mover primeiro.
A inteligência artificial deixou de ser uma aposta sobre o futuro e passou a ser uma questão de execução. Para o mercado de capitais brasileiro, os próximos anos serão definidos menos pela capacidade de imaginar novos casos de uso e mais pela habilidade de transformar experimentação em resultado, com a velocidade que o mercado demanda e a confiança que a atividade exige.
Fonte Startupi