Filantropia climática: quando o sucesso é deixar de ser necessário

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A necessidade de investimentos para enfrentar a crise climática nunca foi tão alta. Ao mesmo tempo, os recursos públicos ficaram mais escassos. Na disputa por espaço nos orçamentos, conflitos geopolíticos, aumento dos gastos com defesa, restrições fiscais e novas prioridades dos governos ganham um peso cada vez maior.

Em 2025, a ajuda oficial ao desenvolvimento dos países da OCDE sofreu a maior retração anual já registrada, com queda de 23,3%. Para 2026, a projeção é de uma nova redução de 6,9%, o terceiro ano consecutivo de queda, levando esses recursos ao menor nível desde 2014.

Até aqui, a filantropia climática seguiu a direção contrária. Os recursos destinados à mitigação chegaram a algo entre US$ 11,7 bilhões e US$ 18,4 bilhões em 2024, mais do que o dobro do observado em 2020. Ainda assim, representam apenas 2,1% de todo o investimento da filantropia mundial e uma fração dos trilhões necessários para financiar a transição. Diante da retração de governos e da cooperação internacional, seria desejável que a filantropia preenchesse parte desse espaço. Mas a conta simplesmente não fecha.

A transição climática será, inevitavelmente, um processo de aprendizado Foto: Hector Retamal/AFP

Se a filantropia não tem recursos para financiar a escala necessária, é preciso entender onde sua contribuição pode produzir maior impacto. Há mais de seis décadas, o economista Kenneth Arrow ofereceu uma pista interessante para essa questão.

Em The Economic Implications of Learning by Doing, publicado em 1962, Arrow mostrou que uma parte importante dos ganhos de produtividade não nasce antes da atividade econômica, mas durante o próprio processo de produção. Empresas, trabalhadores e mercados aprendem fazendo.

A experiência acumulada reduz custos, melhora processos e produz conhecimento. Parece simples, mas há uma consequência econômica importante: quem faz primeiro paga também pelo aprendizado, mas dificilmente captura sozinho todos os seus benefícios.

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Uma empresa testa uma nova tecnologia, fornecedores se desenvolvem, trabalhadores se qualificam, processos melhoram e informações sobre custos e riscos passam a existir. Outros empreendedores aprendem com erros que não precisarão repetir, e o próximo investidor começa de um lugar melhor.

O primeiro investimento pode, portanto, gerar um retorno para a sociedade muito maior do que aquele que aparece no balanço de quem o realizou. É justamente por isso que os mercados tendem a investir menos em aprendizado do que seria socialmente desejável.

Essa lógica ajuda a pensar o papel da filantropia em um momento em que cada recurso precisa produzir efeitos muito além do projeto que o recebeu. Ao longo dos últimos 15 anos, a organização em que trabalho tem atuado no fortalecimento da cadeia do cacau no sul da Bahia.

Nesse período, fomos entendendo que não bastava apoiar o produtor ou melhorar a produção. Era necessário olhar para o sistema ao redor: assistência técnica, crédito, organizações locais fortalecidas, empresas interessadas em comprar e diferentes atores capazes de trabalhar em torno de uma visão comum.

A experiência acumulada permitiu testar caminhos, identificar gargalos, construir relações e gerar conhecimento que não pertence a uma única instituição. É learning by doing aplicado ao desenvolvimento de um território.

Essa experiência também nos ensinou que fortalecer a oferta é apenas parte da equação. Para que essas cadeias ganhem escala, é preciso ter quem compre esses produtos. E de forma estruturada. Foi a partir desse diagnóstico que nasceu uma parceria com o Grupo Trigo, que reúne mais de 850 restaurantes e serve 50 milhões de refeições por ano.

Nessa iniciativa, que busca aproximar quem compra de quem vende, já mapeamos mais de 70 ingredientes da sociobiodiversidade brasileira com potencial para serem inseridos na cadeia de valor do grupo.

A filantropia entra nessa relação não para adquirir esses produtos nem para substituir uma relação comercial, mas para exercer um papel de indução: criar pontes entre esses dois mundos, testar caminhos e criar condições para que produtos da sociobiodiversidade possam se transformar em mercado.

A ideia é estimular grandes empresas a incorporar esses produtos às suas cadeias de valor, usando seu poder de compra para gerar demanda em escala e abrir caminho para que outras empresas façam o mesmo. É um exemplo pequeno diante do tamanho do desafio, mas revela uma mudança importante de perspectiva: para a bioeconomia ganhar escala, não basta financiar mais produção. É preciso construir demanda, reduzir riscos, gerar informação e fazer com que relações comerciais consigam se sustentar ao longo do tempo.

O mesmo raciocínio vale para a restauração florestal. O Brasil precisa restaurar milhões de hectares, e não serão recursos filantrópicos que vão financiar essa escala. Mas eles podem ajudar a responder as perguntas que ainda afastam o capital: quais modelos geram retorno econômico? Como estruturar assistência técnica? Como reduzir o risco para produtores? Como os bancos devem avaliar esses projetos? Quais instrumentos financeiros funcionam? Quais os formatos inovadores de garantias? Os primeiros projetos são importantes pelo aprendizado que geram, porque contribuem para reduzir custos e riscos dos investimentos que virão depois.

O aprendizado gerado por esses investimentos deve permitir que novos projetos dependam cada vez menos do capital filantrópico, até que possam atrair recursos por conta própria. O objetivo deveria ser que o segundo investimento precisasse de menos apoio do que o primeiro, o décimo menos do que o segundo e, em algum momento, que o capital comercial pudesse entrar sem a filantropia. Essa perspectiva muda também a maneira como avaliamos o impacto.

E isso exige olhar além dos resultados diretos, como hectares restaurados, emissões evitadas ou aumento da renda das famílias. É preciso considerar também o que aquele investimento tornou possível: quanto ajudou a reduzir custos e riscos, gerar conhecimento e atrair novos investimentos.

Isso não significa substituir governos, cujas políticas públicas continuarão sendo indispensáveis para criar regras, incentivos e escala, nem substituir o mercado, que responderá pela maior parte do capital e da capacidade de execução necessários à transição.

O papel da filantropia está justamente no espaço entre os dois: onde ainda há incerteza demais para o mercado, pouca coordenação entre os atores e conhecimento insuficiente para transformar uma boa ideia em uma solução capaz de ganhar escala.

Muitas vezes, seu trabalho é reunir quem não costuma estar sentado à mesma mesa: produtores, empresas, investidores, pesquisadores, governos, comunidades e organizações da sociedade civil.

Como mãe, reconheço essa lógica. No começo da vida, nossos filhos dependem de nós para quase tudo. Mas boa parte do nosso trabalho consiste justamente em ajudá-los a precisar cada vez menos: primeiro para andar, depois para escolher, errar e encontrar seus próprios caminhos.

Não deixamos de estar presentes, mas a natureza da nossa presença muda. Em algumas das relações mais importantes que construímos, o sucesso não está em perpetuar a dependência, mas em criar as condições para a autonomia.

A filantropia deveria ser capaz de perseguir uma ambição semelhante, o que exige rever a própria medida de sucesso: tornar-se desnecessária. Uma iniciativa que permanece indefinidamente dependente de recursos filantrópicos pode gerar impactos relevantes, mas dificilmente terá transformado as condições econômicas que deram origem ao problema.

A ambição deveria ser financiar o aprendizado, reduzir o risco, conectar os atores e construir as condições para que governos, empresas, investidores e comunidades possam continuar sem aquele apoio.

A transição climática será, inevitavelmente, um processo de aprendizado. Não temos todas as tecnologias prontas, modelos de negócio, políticas públicas e arranjos institucionais necessários para uma transformação dessa escala.

Esperar que todas as respostas estejam comprovadas antes de investir produz um círculo difícil de romper: sem investimento não há experiência; sem experiência não há redução de risco; sem redução de risco, o capital não chega.

É nesse percurso que a filantropia pode fazer diferença. Ninguém pagará sozinho pela transição climática, mas alguém precisa estar disposto a financiar o aprendizado necessário para torná-la possível.



Fonte
ONU

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