Apesar dessa tendência, na esteira da perda da hegemonia dos Estados Unidos, a criação de uma moeda única ou de uma cesta de moedas ainda vai demorar um certo tempo, analisa Kliass, membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Governo Federal.
“Isso não implica que o dólar tenha deixado de perder importância. Ele continua perdendo importância, ele só não está perdendo importância para uma cesta de moedas, mas para uma prática em que os países, nas relações bilaterais, deixam de usar o dólar como moeda denominadora e passam a intercambiar na moeda entre os dois países”, ressalta.
Kliass acrescenta que a China, aparentemente, um dos países mais interessados na desdolarização, ao que tudo indica, está muito cautelosa.
A desdolarização é possível?
A primeira abordagem, um pouco mais estrutural, de médio de longo prazo, diz respeito à perda da hegemonia dos Estados Unidos na dinâmica da economia global, da economia mundial. À medida que os Estados Unidos perdem espaço, no cenário econômico do mundo, o que acontece é que também a sua moeda, o dólar, passa a perder também importância.
Quer dizer, o dólar deixa de ter aquela preponderância que sempre teve, desde o Acordo de Bretton Woods, no final da Segunda Guerra Mundial, com a reorganização do capitalismo em termos planetários, e isso ainda é reforçado ao longo desse período, em 1970, quando você tem a presidência do Richard Nixon, e com ele, a falta de compromisso dos Estados Unidos com o padrão ouro.
Depois, você tem o compromisso com as economias exportadoras de petróleo, logo depois da criação da Opep, e, como estavam na órbita de influência dos Estados Unidos, o compromisso de que todas as operações de compra e venda de petróleo seriam feitas em dólar. Então aí o surgimento dessa massa fenomenal de petrodólares no cenário internacional.
Enfim, a coisa foi mudando e hoje, com a ascensão e a importância da China, da Índia, da Rússia, e também o crescimento dos países europeus depois da criação da União Europeia e do padrão monetário do euro, enfim, tudo isso faz com que o dólar tenha cada vez menos presença nas trocas internacionais.
Então, essa é uma tendência histórica, ao longo das últimas quatro décadas, pelo menos, que se reforçou agora especialmente na última década, de perda da importância do dólar.
Como este processo interfere na economia brasileira?
Também no nosso caso, acontece algo semelhante com o que acontece no mundo. Aqueles Estados Unidos deixaram de ser o principal parceiro comercial do Brasil, como eram até 30, 40 anos atrás, e foram paulatinamente sendo substituídos, principalmente pela China. Agora, a China é a principal parceira econômica do Brasil.
Por outro lado, ao longo desse período, você teve também o incremento da integração regional do Mercosul, e boa parte das transações com os países do Mercosul não mais são feitas em dólar. Muitas vezes são feitas nas relações entre as moedas dos países-membros, em especial no caso do Brasil e da Argentina.
E, mais recentemente, com o avanço, o aprofundamento da crise internacional, principalmente depois da crise de 2008/2009, a crise ficou ainda mais agravada pela crise da Covid, e depois, ainda com a guerra na Ucrânia, e mais recentemente com a invasão, de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Você passa a ter cada vez mais boa parte das trocas internacionais deixando de ser feita com dólar.
E isso acontece também paulatinamente com o Brasil. Algumas trocas com a China, por exemplo, já não são feitas mais intermediadas pelo dólar etc. Então, sim, a desdolarização também é uma tendência que marca a economia brasileira.
Como você avalia este processo do ponto de vista geopolítico?
Ele se liga com a questão anterior e com a resposta anterior, mas, obviamente, o processo da desvalorização do dólar. A primeira delas é o fato de que o Brasil está integrado numa articulação que são os Brics.
Então, Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul, inicialmente, e que agora mais recentemente foi ampliada com a entrada de vários países da Ásia e da África, a tendência é que esses países também cada vez mais deixem de fazer as suas trocas internas, quer dizer, nas trocas entre países-membros do bloco, em dólar.
Isso já acontece na prática depois que os Estados Unidos e os países da Otan implementaram as políticas de sanção contra a Rússia, em especial. Então a Rússia recorreu a países como a China, como a Índia, e mesmo alguns países exportadores de petróleo, para que as suas trocas fossem realizadas na paridade entre as duas moedas, porque ainda não há uma moeda alternativa ao dólar no cenário internacional. Há o euro, mas ainda restrito ao universo dos países que são membros da Zona do Euro na União Europeia.
Mas é a ampliação dessas trocas entre países, sem que você tenha o recurso ao dólar, que também faz parte desse processo de desvalorização da moeda norte-americana.
E tem problemas geopolíticos, na medida que você pode eventualmente sofrer represálias, por exemplo, da parte dos Estados Unidos, que estão efetivamente sentindo na pele a perda da importância da sua moeda. Isso é mais um sintoma da tendência de redução da hegemonia norte-americana na economia internacional.
No caso do Brasil, como a gente não tem um processo ainda muito intenso, de trocas internacionais que não sejam definidas pelo dólar, ainda não tem um avanço de represálias.
Mas com toda certeza, dentre essas medidas que o Trump tem adotado, do tarifaço, e as outras medidas não comerciais, como a questão das terras-raras, do desmatamento etc., quanto a economia brasileira, tem a ver com essa questão. Eventualmente mais à frente eles podem até colocar isso na pauta de negociações: que não haja, por exemplo, uma redução do volume de trocas comerciais que não sejam efetuadas com base no dólar.
Mas, de qualquer maneira, a preocupação maior dos Estados Unidos na cena global é com países como a China, como outros países asiáticos, a Rússia e a própria Índia, que acabam deixando de fazer suas trocas denominadas em dólar.
Em que pé estamos neste momento para a criação de uma moeda comum?
A criação de uma moeda comum, pode ser, por exemplo, uma moeda comum no Mercosul? Agora, a mudança da conjuntura política, geopolítica, institucional, na América do Sul, com certeza está sofrendo um freio de arrumação, certo?
A vitória do Milei foi a primeira, mas depois vieram as vitórias eleitorais de parceiros não só dos Estados Unidos, mas do Trump, como aconteceu no Peru, no Equador, na Colômbia, a ação do sequestro na Venezuela, no Chile. Quer dizer, do desenho da América do Sul de 10, 15 anos atrás, só sobra, efetivamente, Brasil e Uruguai.
Então, com certeza, a ideia de avançar em algum grau, de moeda comum na região do Mercosul, com certeza vai sofrer uma redução no ritmo da velocidade com que vinha.
Sobre uma moeda comum, por exemplo, no âmbito dos Brics, essa também é uma tendência, tem alguns países que pressionam mais, outros que resistem mais. A China, por exemplo, que seria, aparentemente, um dos países mais interessados, ao que tudo indica, está muito cautelosa.
A China prefere fazer relações bilaterais com base na sua moeda, o renminbi, e a moeda do país parceiro, do que, efetivamente, avançar na consolidação de uma moeda única, que seria uma espécie de cesta de moedas dos países dos Brics.
Então, como esse outro bloco está sendo, na prática, liderado pela China, e a China tem um tempo, que é bem mais cadente, muito menos agitado, apressado, por exemplo, do que a dinâmica do Trump ou de outros países, a minha avaliação é que a criação de uma moeda única ou de uma cesta de moedas, ainda vai demorar um certo tempo.
Isso não implica que o dólar tenha deixado de perder importância. Ele continua perdendo importância, ele só não está perdendo importância para uma cesta de moedas, mas para uma prática em que os países, nas relações bilaterais, deixam de usar o dólar como moeda denominadora e passam a intercambiar na moeda entre os dois países: a China e o Brasil, a China e a Índia, a China e a Rússia, a China e outros países.

Fonte Monitor Mercantil