O mercado hoje (8/7, 4ª feira) reagiu à nova piora na situação no Oriente Médio e à consequente alta do petróleo. A bolsa cai e o dólar e a curva de juros sobem.
Mas alguns analistas consideram que os fundamentos não justificam toda a melhora ocorrida recentemente, antes do ajuste de hoje.
O economista Livio Ribeiro, da consultoria BRCG e do FGV-IBRE, aponta que é consensual que o Copom tem o viés de prosseguir cortando a Selic, mesmo que as expectativas e o cenário inflacionário não recomendem reduções adicionais da taxa básica.
Dessa forma, ele critica a visão de muitos no mercado de que o acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã, que levou à queda do preço do petróleo, abriria espaço de manobra para o BC fazer mais cortes da Selic.
Ribeiro nota que a queda do barril foi acompanhada por desvalorização do câmbio, o que torna o recuo em reais bem menor. Adicionalmente, o governo mitigou com subsídios a alta da gasolina e do diesel, mas agora, ele diz, “se ignora a possibilidade de redução do subsídio; o argumento só vale quando é para baixo”.
Mas o principal incômodo do economista é que o otimismo do mercado estava atrelado ao acordo extremamente frágil entre Trump e o Irã. Ele inclusive teme que surja alguma nova “narrativa” para justificar o prosseguimento do ciclo de corte de juros.
Ribeiro nota que o mercado ganha com a queda dos juros não só pela valorização dos títulos de renda fixa, mas também pela ampliação de projetos rentáveis na economia, aumentando o leque de operações financeiras que se tornam interessantes para investidores e empresas.
Outro analista ouvido pela coluna, economista-chefe de uma gestora de recursos, vê uma extrema fragilidade na economia brasileira – ligada ao desequilíbrio fiscal e ao ritmo de crescimento da relação dívida/PIB – que parece não estar sendo sentida pelo mercado.
Ele aponta que investidores estrangeiros com os quais tem interlocução não parecem tão preocupados, e têm a visão de que o País pode ir tocando para a frente com o atual mix de políticas econômicas, ainda que elas estejam longe do desejável. Mas acrescenta que essas percepções podem mudar muito rápido, lembrando a crise da virada de dezembro de 2024, quando o câmbio se aproximou de US$ 6,3.
O analista vê a melhora recente do mercado – assim como o ajuste de hoje – muito ligada ao preço do petróleo. O barril de Brent saiu de um pico recente de US$ 121 no final de abril para quase encostar em US$ 70 na virada de junho para julho. Hoje se aproximou de US$ 80.
Ele observa que, no Brasil, a política de subsídios do governo reduziu a alta da gasolina a aproximadamente 10% na refinaria e 5% na bomba. Coincidentemente, cerca de 90% da gasolina é produzida internamente e 10% é importada. Nos Estados Unidos, aponta o economista-chefe, a gasolina chegou a subir 50% na bomba, dez vezes mais que no Brasil.
Mas o analista acrescenta que a queda do petróleo vai além do combustível para veículos terrestres, afetando também as passagens aéreas via querosene de aviação, alimentos via insumos de fertilizantes, e produtos que usam matéria prima a partir de derivados de petróleo, como plásticos.
Outro elemento importante na melhora recente do mercado, segundo o economista, foi a própria sinalização do BC de deixar a porta aberta para novos cortes da Selic. Adicionalmente, a inflação de alimentos está dando a aliviada sazonal desta época do ano, além do efeito mais substantivo da queda do petróleo no preço dos fertilizantes, afetando a cotação dos grãos.
O economista assinala que o fato de o BC cortar a Selic com condições inflacionárias adversas e de interromper o forward guidance desnorteou um pouco o mercado, ampliando a dispersão sobre as projeções dos próximos passos do Copom.
Ele aponta como surpreendente que, a cerca de três meses do primeiro turno, as eleições estejam influenciando de forma apenas suave o mercado, que segue puxado pelo cenário externo. O analista avalia inclusive que é possível, mas não garantido, que essa relativa tranquilidade com o resultado eleitoral prossiga, mesmo à medida que a eleição se aproxima.
Por outro lado, no caso de vitória de Lula e de continuidade da atual política econômica, ele pensa que dificilmente mais quatro anos com essa trajetória acelerada de crescimento da dívida/PIB transcorram sem a ocorrência de uma crise mais grave.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/7/2026, quarta-feira.
Fonte ONU