3 Maneiras de Transformar a Sobrecarga em uma Ferramenta de Produtividade

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Considere um cenário que será familiar para a maioria dos profissionais: é terça-feira de manhã, sua caixa de entrada tem 47 e-mails não lidos, você tem três entregas para o fim da semana, sua agenda está lotada até quinta-feira e, no meio de tudo isso, você simplesmente trava. Abre uma aba do navegador, fecha, abre de novo e não realiza nada por vinte minutos. Essa experiência de paralisia diante de tarefas demais é o que a maioria das pessoas chama de sobrecarga. E a reação quase universal é tentar fazer com que ela desapareça.

Mas e se esse instinto estiver levando você pelo caminho errado? Um conjunto crescente de pesquisas em psicologia cognitiva e de desempenho sugere que a sobrecarga, quando compreendida corretamente, não é um mau funcionamento; é um sinal do seu sistema mente-corpo. Em outras palavras, o sentimento em si não é o problema. O que acontece é que a maioria das pessoas nunca foi ensinada a interpretá-lo pelo que ele realmente tenta comunicar.

Aqui estão três estratégias baseadas em evidências para transformar a sobrecarga de um inimigo da produtividade em uma das ferramentas mais confiáveis do seu repertório cognitivo.

1- Trate a sobrecarga como um sinal de atenção, não como um sinal de alerta

    Uma das descobertas mais contraintuitivas da psicologia cognitiva é que o cérebro sob pressão não simplesmente se torna menos “funcional”. O que realmente acontece é que o estresse força o cérebro a se tornar mais seletivo.

    Quando as demandas sobre a memória de trabalho excedem sua capacidade, o cérebro inicia uma espécie de triagem forçada, estreitando a atenção para aquilo que considera mais prioritário e filtrando ruídos concorrentes. Esse processo, conhecido como estreitamento da atenção sob carga cognitiva, é bem documentado na literatura psicológica.

    Na prática, isso significa que a sensação de sobrecarga muitas vezes contém informações sobre o que realmente importa. Pense na última vez em que você se sentiu genuinamente sobrecarregado no trabalho. Provavelmente havia uma tarefa específica, um e-mail que você não queria responder, uma conversa que estava evitando ou um projeto que vinha adiando, no centro desse sentimento. Todo o resto era ruído periférico. A sobrecarga não era aleatória; ela apontava para algo específico.

    O erro comum é tentar responder a esse sinal tentando ampliar novamente a visão: fazer uma nova lista, reorganizar prioridades ou tentar enxergar tudo ao mesmo tempo. Embora psicologicamente compreensível, esse esforço vai contra a tentativa do cérebro de direcionar sua atenção.

    Uma abordagem mais eficaz é fazer apenas uma pergunta quando a sobrecarga surgir:
    “Para onde esse sentimento está tentando me apontar?”
    Na maioria dos casos, a resposta aparece rapidamente — e geralmente é exatamente aquilo que você vinha evitando porque é o que mais importa. Nesse sentido, a sobrecarga é menos um sintoma de má gestão do tempo e mais um sinal diagnóstico de um cérebro que já sabe o que precisa acontecer em seguida.

    2- Reinterprete a sobrecarga, em vez de suprimi-la

      Do ponto de vista fisiológico, sentir-se sobrecarregado e sentir-se animado são experiências quase idênticas. Ambos envolvem aumento de cortisol, aceleração da frequência cardíaca, maior estado de alerta e intensificação da atenção sensorial. O corpo não distingue significativamente entre os dois estados.

      O que muda é a interpretação que a mente faz dessas sensações físicas e pesquisas sugerem que essa interpretação é muito mais flexível do que imaginamos.

      Uma série de estudos publicados no Journal of Experimental Psychology mostrou que indivíduos que reinterpretaram sua ansiedade como entusiasmo antes de situações de alta pressão, como falar em público, negociar ou fazer provas, tiveram desempenho significativamente melhor do que aqueles que tentaram simplesmente se acalmar.

      O mecanismo é importante: dizer a si mesmo para se acalmar exige suprimir um estado de ativação já presente, algo cognitivamente caro e raramente eficaz. Reinterpretar essa ativação como entusiasmo, por outro lado, redireciona a energia existente sem lutar contra ela.

      Esse princípio está ligado à Lei de Yerkes-Dodson, um dos achados mais replicados da psicologia do desempenho. A relação entre ativação e desempenho não é linear; ela segue uma curva em U invertido. Em termos simples: pouca ativação gera trabalho apático, enquanto ativação excessiva gera pânico e paralisação. Mas o pico de desempenho ocorre em um nível de ativação que a maioria das pessoas descreveria como estar pressionado, alerta e levemente desconfortável.

      Ou seja, parece muito com estar sobrecarregado.

      Pense em várias situações em que essa reinterpretação poderia ajudar:

      • um engenheiro apresentando uma arquitetura técnica para a liderança;
      • um terapeuta prestes a dar um feedback difícil a um cliente;
      • um escritor diante de um documento em branco com prazo de duas horas.

      Em cada caso, a sensação de sobrecarga já contém o nível de ativação necessário para o desempenho máximo. A mudança produtiva nesses momentos não é buscar calma, é direcionar a energia.

      3- Use a sobrecarga para criar as condições de fluxo

        O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi passou décadas estudando o que chamou de estado de fluxo, quando uma pessoa está totalmente absorvida em uma tarefa desafiadora, a autoconsciência diminui, o tempo parece distorcer e o desempenho atinge seu pico.

        Sua principal descoberta foi que o fluxo não surge da facilidade. Ele surge de uma tensão específica: uma tarefa difícil o suficiente para exigir total engajamento, mas não tão difícil a ponto de provocar desistência.

        O desafio precisa estar ligeiramente acima do nível atual de habilidade. Se estiver muito abaixo, a mente se dispersa. Se estiver muito acima, a ansiedade domina.

        Curiosamente, as condições que Csikszentmihalyi descreve como necessárias para o fluxo são as mesmas que frequentemente produzem a sensação de sobrecarga. Sentir-se sobrecarregado muitas vezes significa estar no limiar do fluxo: no limite da capacidade, incerto quanto ao resultado, diante de um desafio que exige tudo de você.

        O motivo pelo qual muitas pessoas nunca atravessam esse limiar é comportamental. Quando estão sobrecarregadas, a reação padrão é fragmentar a atenção: alternar entre tarefas, checar notificações compulsivamente e completar pequenas atividades de baixo risco para sentir progresso, evitando a tarefa realmente importante.

        Esse padrão, que psicólogos chamam de troca de tarefas sob estresse, impede o foco prolongado necessário para o fluxo. É como ficar na borda de um trampolim e recuar repetidamente.

        Pesquisas sobre inoculação ao estresse, método usado em treinamento militar, cirúrgico e esportivo de elite, oferecem uma correção prática. O princípio central é que profissionais de alto desempenho aprendem a entrar deliberadamente em estados de pressão e tratar a ativação da sobrecarga como um sinal de partida, não de parada.

        Na prática, isso significa: quando a sobrecarga atingir o pico, identifique a única tarefa mais importante, elimine todas as distrações e comprometa-se com ela por um bloco de tempo contínuo. Noventa minutos é um período bem sustentado por pesquisas sobre ritmos ultradianos.

        Nesse momento, você não está tentando eliminar a sobrecarga, está usando-a como combustível.

        A sobrecarga é uma das experiências mais mal administradas da vida profissional moderna, não porque seja inerentemente destrutiva, mas porque fomos treinados a tratá-la como um problema a ser eliminado, em vez de informação a ser usada.

        Quando reinterpretada corretamente, a sobrecarga:

        • indica o que realmente importa,
        • fornece o nível de ativação necessário para alto desempenho,
        • e cria as condições psicológicas para o seu melhor trabalho.

        O objetivo, no fim, não é sentir menos sobrecarga. É se tornar o tipo de pessoa que entende o que a sobrecarga está pedindo, e sabe como responder a ela.

        *Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.



FonteForbes

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