Luyu Zhang se mudou da China para os Estados Unidos no ano passado e fala um pouco de inglês. Porém, no momento, ele também não está tentando aprimorar o idioma. Isso ficará para depois.
“Estou ocupado demais com o trabalho para melhorar meu inglês agora”, disse àForbes, por meio de um tradutor, sentado em um escritório temporário em Menlo Park. “Isso exige tempo, e neste momento não tenho um dia a perder.”
Zhang é CEO da startup de inteligência artificial Dify. Ele integra um grupo crescente de fundadores chineses de IA que estão transferindo suas famílias e empresas para o Vale do Silício. À primeira vista, a tendência parece contraditória, já que Washington endureceu os controles de exportação sobre chips avançados de IA.
Legisladores norte-americanos alertam há anos para o risco de roubo de propriedade intelectual e para as ambições militares e econômicas da China. Em ambos os países, há contradições sobre o assunto. Ainda assim, os empreendedores continuam chegando.
A aposta de Zhang é simples: quem deseja construir uma empresa global de infraestrutura em inteligência artificial precisa estar onde o mundo está competindo. Ele abandonou o ensino fundamental e se destacou como prodígio da programação.
Recentemente, captou US$ 30 milhões (R$ 154 milhões) a uma avaliação de US$ 180 milhões (R$ 927 milhões) em rodada liderada pela HSG (antiga Sequoia Capital China) e pelos fundos asiáticos Hillhouse Capital, 5Y Capital e Mizuho Leaguer Investment.
Antes de fundar a Dify, trabalhou em diversas startups e, posteriormente, liderou uma grande equipe de engenharia na Tencent.
O topo da Dify
A Dify surgiu como um projeto que auxilia desenvolvedores a criar aplicações de IA por meio de uma interface, dispensando a escrita extensiva de códigos. Atualmente, ocupa a 52ª posição entre os repositórios mais estrelados do GitHub.
A empresa estruturada em torno do projeto emprega 100 pessoas, é lucrativa e atende mais de 280 clientes corporativos, entre eles Volvo, Thermo Fisher Scientific e Novartis.
Zhang cita a proposta da Meta de adquirir a Manus — startup de IA fundada na China e posteriormente transferida para Singapura — por US$ 2 bilhões (R$ 10,3 bilhões) como um modelo de referência. Ele define essa estratégia como “origem na China + operação no exterior”.
A Manus enfrentou críticas dos dois lados: reguladores dos EUA analisaram um investimento da gestora norte-americana Benchmark, enquanto autoridades chinesas avaliam se devem bloquear a aquisição pela Meta.
Segundo Zhang, construir uma empresa global a partir da China é desafiador. O ecossistema tecnológico do país é, em grande parte, autossuficiente, e os softwares desenvolvidos ali tendem a atender principalmente o mercado doméstico.
“Se você é um atleta de elite, não compete apenas em torneios locais. Treina para disputar as Olimpíadas. Para uma empresa de tecnologia que constrói infraestrutura para a era da IA, o Vale do Silício é a nossa arena olímpica”, afirma. “Queremos competir no mais alto nível.”
Imigrando
Ele diz conhecer quase 20 fundadores chineses que estão em processo de mudança para os Estados Unidos. A investidora Lake Dai, ex-chefe de produto do Alibaba e fundadora da Sancus Ventures, afirma que o movimento é ainda mais amplo.
Nos últimos dois anos, pelo menos 100 empreendedores chineses a procuraram para discutir uma possível transferência para os EUA. O capital estrangeiro tem recuado na China, levando fundadores a buscar outros mercados.
“Empreendedores chineses estão se mudando para os Estados Unidos”, afirma. “Temos visto cada vez mais casos nos últimos anos.”
Ao mesmo tempo, ninguém deseja enfrentar a situação vivida pelo TikTok, que após anos de questionamentos sobre sua origem chinesa chegou a ficar temporariamente fora do ar nos EUA e acabou sendo obrigado a vender suas operações no país para não ser proibido.
Para evitar resistência, muitas startups preferem destacar o que seus produtos fazem, e não o local de nascimento de seus fundadores. “Eles não querem ser rotulados antes da hora”, diz Dai.
Crescer de forma estratégica é um exercício de equilíbrio que empresas fundadas por chineses ainda estão aprendendo a administrar. A Dify não esconde suas origens, mas, embora Zhang esteja contratando na região da Baía de São Francisco e em Tóquio, a equipe principal de engenharia de código aberto — com 60 profissionais — permanece na China.
Outras startups adotaram estruturas híbridas semelhantes, mantendo o núcleo técnico no país asiático e contratando funções como vendas e atendimento ao cliente no exterior. Algumas, como OpusClip e HeyGen, transferiram integralmente suas operações para fora da China.
Quem é Luyu Zhang?
Zhang cresceu na província de Anhui. Ainda no ensino fundamental, afirma que ganhava US$ 1 mil por mês (R$ 5.150) desenvolvendo sites — valor superior ao salário de seu pai, funcionário público.
Abandonou a escola por não se adaptar ao rígido sistema educacional chinês. Sua independência financeira impediu que os pais o obrigassem a retornar. Em 2018, assumiu um cargo de liderança de produto na Tencent.
Após conhecer a IA generativa em 2022, criou a Dify com o objetivo de facilitar o desenvolvimento e a implementação de aplicações de inteligência artificial em larga escala. Uma visita à conferência anual GTC, da Nvidia, o convenceu a se mudar. “A energia era diferente”, afirma.
Ainda assim, os desafios persistem. Autoridades norte-americanas alertam para o risco de transferência de tecnologias sensíveis ao setor chinês de IA.
Alguns investidores evitam startups com capital chinês. Paralelamente, o sentimento anti-China ainda existe em partes do Vale do Silício. Recentemente, um pesquisador chinês da Anthropic deixou a empresa e declarou em seu blog que comentários “anti-China” influenciaram sua decisão.
Para Zhang, o debate precisa ser mais equilibrado. Ele reconhece que a segurança nacional é prioridade, mas ressalta que nem todos os produtos de IA apresentam os mesmos riscos. A Dify é um software de código aberto que, em geral, é hospedado nos próprios servidores dos clientes, o que a coloca fora do que ele classifica como “setor sensível”.
Segundo ele, trata-se de uma situação diferente da de plataformas sociais de consumo com forte influência algorítmica ou de empresas que desenvolvem chips de ponta sujeitos a restrições de exportação.
Ponto em comum
Além disso, há espaço para esses empreendedores nos Estados Unidos. Startups americanas sempre contaram com talentos chineses em IA. Um estudo de dezembro do Carnegie Endowment identificou 100 dos principais pesquisadores chineses de IA atuando em instituições e empresas norte-americanas em 2019.
Em dezembro do ano passado, 87 ainda permaneciam nos EUA, enquanto dez haviam retornado à China. Dos 11 fundadores da Meta Superintelligence Labs — todos imigrantes — sete nasceram na China.
Assim, embora Washington e Pequim estejam se distanciando em diversas frentes, ao menos na inteligência artificial o talento parecem ser um ponto em comum. Para Dai, é preciso superar a desconfiança generalizada, mantendo uma análise criteriosa.
“Sei que há pessoas preocupadas, perguntando o que cidadãos chineses estão fazendo aqui na indústria de IA”, afirma. “Mas devemos encontrar uma maneira de receber esses fundadores talentosos. Eles querem construir aqui a próxima geração de empresas de inteligência artificial, e isso beneficia a todos.”
Para empreendedores como Zhang, a decisão é menos ideológica e mais pragmática. Se o Vale do Silício concentra o maior volume de talentos, capital e ambição em IA, é ali que ele deseja estar. Ele afirma não querer tomar partido em uma corrida tecnológica, apenas competir na arena.
“Empreendedores que vêm da China para os Estados Unidos não estão movidos por política”, conclui. “Queremos apenas criar grandes produtos que as pessoas utilizem.”
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com
FonteCâmara dos Deputados