Em 2023, o artista e comediante Esmond Fountain, radicado em Nova York, participou de um jantar de Ação de Graças preparado por um chef com estrela Michelin e organizado pela Kindred, uma startup de troca de casas fundada dois anos antes.
Fountain havia ouvido falar da empresa por meio de um colega de trabalho que morava em Chicago e, ao visitar Nova York, se hospedava em bairros mais sofisticados do que seu salário normalmente permitiria. Como? Pela Kindred. Fountain ficou intrigado.
Algumas semanas depois daquele jantar, ele fechou um acordo para ficar por duas semanas em um apartamento em Londres pagando apenas US$ 100 (pouco mais de R$ 500) – sua parte, dividida com um amigo. Seria sua primeira vez fazendo stand-up no exterior, mas o custo relativamente baixo da hospedagem o ajudou a dar esse passo. “Eu nem teria considerado isso se não fosse pela Kindred.”
Como funciona a startup de “troca de casas”
É apenas uma das quase 300 mil pessoas que recorreram à troca de casas da Kindred como uma forma mais econômica de viajar. Fundado em 2021 por Justine Palefsky e Tasneem Amina, o serviço é uma versão formalizada do enredo do filme “O Amor Não Tira Férias”, de 2006, dirigido por Nancy Meyers: é preciso criar uma conta na Kindred para anunciar sua casa na plataforma e receber hóspedes. Quando alguém se hospeda na sua casa, você ganha créditos, que podem ser usados para reservar sua hospedagem na próxima viagem.
Nos cinco anos desde que Palefsky e Amina lançaram a startup, cerca de 350 mil noites foram registradas na plataforma e 150 mil pessoas se tornaram membros apenas no último ano. Com os custos se tornando uma preocupação crescente entre viajantes, a dupla espera ainda mais demanda em 2026.
Na última terça-feira, a Forbes anunciou, com exclusividade, que a Kindred captou US$ 125 milhões (R$ 657 milhões) em novos investimentos para atender à demanda por troca de casas. O aporte inclui uma rodada Série B de US$ 40 milhões (R$ 210 milhões), até então não divulgada, co-liderada pela NEA e por Dylan Field, CEO do Figma, além de uma nova rodada Série C de US$ 85 milhões (R$ 447 milhões) liderada pela Index Ventures.
“O que diferencia a empresa não é apenas a força do modelo, mas a clareza da visão das fundadoras. À medida que a troca de casas sai de um nicho e se torna algo mais popular, a Kindred está em uma posição única para liderar essa mudança globalmente”, afirmou Field, do Figma.
Os clientes da Kindred pagam menos por uma estadia do que pagariam no Airbnb ou no VRBO (plataforma global de aluguel de casas e apartamentos), mas a empresa consegue ficar com uma porcentagem maior da taxa de serviço. “Ganhamos mais receita de taxa de serviço por noite do que os modelos existentes de aluguel de curto prazo. E, ao mesmo tempo, para o cliente, isso representa de 10% a 20% do custo. É muito mais acessível”, disse Palefsky. “É esse lindo ganha-ganha.”
Vanessa Larco, board partner da NEA e conselheira da Kindred, disse que ela e sua empresa se sentiram atraídas a investir na startup pelas formas como “os consumidores estão repensando a maneira de viajar” e também como as fundadoras estão respondendo a esse momento. “Uma inovação que torna algo ao mesmo tempo mais acessível e uma experiência melhor é poderosa — ela cria um novo mercado”, disse Larco.
Por que a Kindred é diferente do Airbnb
Palefsky e Amina fazem questão de enfatizar que a Kindred não é VRBO nem Airbnb — um ponto importante, considerando como as regulamentações municipais em lugares como Nova York, São Francisco e Los Angeles têm restringido quando e como os aluguéis de curto prazo podem funcionar.
Para começar, usuários da Kindred não podem pagar por noites além dos créditos que conquistaram ao receber hóspedes, e cada “noite” tem o mesmo valor (ainda que a casa em que você vai se hospedar seja maior do que aquela que você ofereceu).
A empresa cobra a já mencionada taxa de serviço e também uma taxa de limpeza — que pode variar conforme a duração da estadia e o tamanho da casa.
Para Esmond Fountain, que desde o jantar de Ação de Graças da Kindred em 2023 se mudou de Nova York para Atlanta, sua casa de três quartos (que acomoda seis pessoas) cobra uma taxa de serviço de US$ 215 (R$ 1.130) e uma taxa de limpeza de US$ 300 (R$ 1.577) para cinco noites, valores pagos por quem se hospeda em sua casa.
Em comparação, uma casa semelhante no Airbnb em Atlanta custaria mais de US$ 1.000 (R$ 5.257) – também por cinco noites, para seis pessoas. Embora as taxas de limpeza da Kindred e do Airbnb sejam relativamente semelhantes — e também dependam do número de noites e do tamanho da casa ou apartamento —, as taxas de serviço do Airbnb geralmente ficam entre 14% e 16% do custo total da estadia.
As taxas de serviço da Kindred podem variar de US$ 8 (R$ 42) por noite, quando a estadia é superior a um mês, a US$ 45 (R$ 236) por noite, quando a hospedagem é mais curta ou a casa é maior.
Regras da troca de casa e o futuro das viagens
Palefsky e Amina sabem que a troca de casas ainda não é (pelo menos por enquanto) a forma mais comum de viajar, e que algumas pessoas podem não estar dispostas a abrir suas próprias casas para completos desconhecidos. Mas a dupla tenta reduzir as preocupações de potenciais membros promovendo eventos (como aquele jantar de Ação de Graças do qual Esmond Fountain participou) e adotando regras de privacidade rígidas.
Usuários da Kindred precisam concordar com um código geral de conduta e com regras sobre o que pode ser fotografado dentro da casa de outra pessoa. O descumprimento dessas regras pode resultar na exclusão da pessoa da plataforma, embora Palefsky e Amina afirmem que apenas uma pequena fração da base de 250 mil usuários já tenha sido desligada. Isso porque, segundo elas, a Kindred é “radicalmente mais acessível” do que hotéis, aluguéis de curto prazo, Airbnbs e outras opções de hospedagem. “As pessoas não querem correr o risco de perder isso.”
“Estamos em um ponto de virada incrível”, disse Palefsky, que atua como CEO, à Forbes. “Muitas pessoas estão considerando essa como sua forma preferida de viajar.”
Enquanto Palefsky e Amina buscam escalar a Kindred para além das mais de 150 cidades onde a empresa opera atualmente, elas afirmam estar tão comprometidas em construir uma comunidade entre os usuários quanto em melhorar os resultados financeiros. Afinal, o nome da empresa vem da ideia de kindred spirit, ou ‘espírito semelhante’, alguém com quem você se identifica profundamente.
“Essa é uma nova categoria no mundo das viagens”, disse Palefsky. “É uma forma de viajar construída sobre confiança.”
*Francesca Walton é colaboradora da Forbes USA. Ela cobre empresas inovadoras e jovens empreendedores que estão abrindo caminho para grandes negócios.
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com
FonteCâmara dos Deputados