O preço invisível da prosperidade: por que mulheres negras ainda enfrentam culpa ao lidar com o dinheiro?

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Pesquisa com 350 mulheres negras revela que 72,2% relatam culpa ou constrangimento relacionados ao desejo de prosperar e amplia o debate sobre raça, gênero e autonomia econômica no Brasil.

O debate sobre desigualdade econômica no Brasil costuma concentrar-se em indicadores de renda, emprego e acesso ao crédito. Entretanto, uma dimensão menos visível começa a ganhar espaço nas discussões sobre autonomia financeira: a influência das experiências sociais, familiares e raciais na maneira como mulheres negras se relacionam com o dinheiro, o consumo e a possibilidade de construir patrimônio.

Uma pesquisa independente conduzida por Patrícia Marins, especialista em finanças decoloniais comportamentais, com 350 mulheres negras, identificou que 72,2% das participantes relataram sentimentos de culpa ou constrangimento relacionados ao desejo de prosperar. O levantamento também revelou que 58,2% não possuíam reserva financeira e 52% não realizavam investimentos.

Os resultados, referentes ao grupo pesquisado e sem pretensão de representar estatisticamente todas as mulheres negras brasileiras, apontam para questões que ultrapassam o conhecimento sobre produtos financeiros. Entre elas estão a percepção de merecimento, a responsabilidade econômica com familiares, o medo da instabilidade e as dificuldades de transformar a renda em patrimônio.

Patrícia Marins

Patrícia Marins

Quando ganhar dinheiro não significa conquistar autonomia

A existência de uma renda não garante, por si só, segurança ou liberdade financeira. Uma mulher pode ter emprego, desenvolver uma carreira, empreender e contribuir significativamente para o orçamento familiar sem conseguir construir uma reserva para seus próprios projetos.

A situação torna-se especialmente complexa quando o dinheiro disponível precisa responder não apenas às necessidades individuais, mas também às demandas de uma rede familiar que, em muitos casos, enfrenta suas próprias restrições econômicas.

Nesse contexto, consumir, investir ou reservar recursos para objetivos pessoais pode despertar conflitos entre responsabilidade, solidariedade e desejo de crescimento.

Para Patrícia Marins, o desafio não se resume a ensinar alguém a gastar menos.

“Não podemos discutir a relação das mulheres negras com o dinheiro sem considerar as condições históricas e sociais que atravessam suas escolhas. Muitas aprenderam a organizar a vida a partir das necessidades de outras pessoas e encontram dificuldades quando precisam colocar seus próprios projetos no planejamento financeiro”, analisa.

O peso do merecimento nas decisões financeiras

Um dos aspectos mais expressivos do levantamento é a presença de sentimentos de culpa ou constrangimento associados à prosperidade.

Esse resultado levanta uma questão pouco explorada nas abordagens tradicionais sobre finanças pessoais: de que maneira as experiências de desigualdade, as responsabilidades familiares e as expectativas sociais interferem na possibilidade de desejar uma vida economicamente mais confortável?

A culpa pode surgir diante de decisões aparentemente simples, como realizar uma viagem, contratar um serviço para melhorar a qualidade de vida ou separar parte da renda para um projeto de longo prazo.

O problema não está na solidariedade familiar ou na responsabilidade coletiva, mas na dificuldade de estabelecer limites que permitam conciliar o cuidado com outras pessoas e o direito de construir uma vida financeiramente sustentável.

“Existe uma diferença entre ajudar alguém por escolha e sentir que você não tem o direito de utilizar o próprio dinheiro para realizar seus sonhos. A autonomia econômica também exige reconhecer que nossos desejos são legítimos e merecem espaço no orçamento”, afirma Patrícia.

Uma perspectiva decolonial sobre o comportamento financeiro

A abordagem das finanças decoloniais comportamentais propõe ampliar a análise das decisões econômicas, considerando que a relação com o dinheiro não se desenvolve de forma isolada das condições históricas, culturais e sociais.

Essa perspectiva questiona a ideia de que os resultados financeiros dependem exclusivamente de disciplina individual. Embora planejamento, organização e conhecimento sejam importantes, desigualdades estruturais, oportunidades de renda e experiências acumuladas também condicionam as possibilidades de escolha.

No caso das mulheres negras, compreender a relação entre dinheiro, pertencimento, responsabilidade e mobilidade social pode contribuir para estratégias de autonomia econômica mais conectadas às suas realidades.

Para a pesquisadora, o conhecimento financeiro precisa dialogar com o cotidiano e não apenas com cálculos ou recomendações padronizadas.

“Organizar o dinheiro é importante, mas precisamos discutir também o que fazemos com a possibilidade de escolher. Uma mulher pode aprender a investir e continuar acreditando que não merece usufruir da própria conquista. É essa dimensão do comportamento que precisamos trazer para o debate econômico”, destaca.

Da periferia à produção independente de conhecimento

Nascida no Jardim Catarina, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Patrícia Marins é filha de uma trabalhadora doméstica, graduada em Matemática pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e possui 18 anos de experiência no setor bancário.

Palestrante internacional e pesquisadora independente, tem desenvolvido estudos e debates sobre comportamento financeiro, raça, gênero e autonomia econômica de mulheres negras.

Em 2026, levou seu trabalho a espaços acadêmicos no Brasil e nos Estados Unidos, incluindo o John Jay College, em Nova York, o Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, realizado na Universidade de Brasília, e a Universidade Federal Fluminense.

Também é autora do livro Entre Contas, Talentos e Sobrevivência, obra que aborda as relações entre dinheiro, escolhas, experiências sociais e possibilidades de transformação.

Sua atuação articula experiência profissional no sistema financeiro, pesquisa independente e reflexões sobre as condições de acesso à prosperidade.

Da sobrevivência à possibilidade de escolher

Os resultados da pesquisa reforçam a importância de desenvolver estratégias de organização financeira que considerem tanto as condições materiais quanto os aspectos comportamentais.

A construção de uma reserva, o planejamento das despesas e a definição de objetivos pessoais continuam sendo ferramentas fundamentais. Entretanto, essas práticas precisam estar associadas a uma compreensão mais ampla das possibilidades e limitações enfrentadas por diferentes grupos sociais.

No mês da Consciência Negra, o debate ganha relevância por permitir que a discussão sobre igualdade racial avance para além do acesso à renda e alcance questões relacionadas ao patrimônio, à liberdade de escolha e ao direito de usufruir das próprias conquistas.

“Prosperar não pode ser entendido apenas como acumular dinheiro. É também ter condições de decidir sobre a própria vida, realizar projetos e construir segurança para o futuro. Nós temos direito de ser prósperos e felizes com nosso dinheiro”, conclui Patrícia Marins.

SOBRE A PESQUISA

Levantamento independente realizado com 350 mulheres negras. Os percentuais apresentados descrevem as participantes do estudo, não constituindo estimativas representativas de toda a população brasileira.

SOBRE A FONTE

Patrícia Marins é palestrante internacional, pesquisadora independente, especialista em finanças decoloniais comportamentais e idealizadora do Mulheres Pretas Finanças.

Contato e informações: Instagram @mulherespretasfinancas.
Site: mulherespretasfinancas.com.br
LinkedIn de Patrícia Martins: patricia-marins-rosa

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