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Uma conta de R$ 1,7 trilhão por ano pesa sobre a economia brasileira. Não aparece diretamente no orçamento público, mas está embutida no preço dos produtos, nos investimentos que deixam de sair do papel e nas dificuldades enfrentadas pelas empresas para competir com concorrentes estrangeiros. É o chamado Custo Brasil, uma combinação de impostos elevados, juros altos, burocracia, infraestrutura deficiente e insegurança jurídica que encarece a produção e limita o crescimento nacional. A diferença aparece nos preços, reduzindo o espaço para investimentos e comprometendo a geração de empregos.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) quer colocar o enfrentamento desses obstáculos no centro do debate econômico. A entidade defende uma agenda de reformas que vai da tributação à infraestrutura, passando pelo financiamento empresarial, pela qualificação profissional e pela segurança jurídica.
O tamanho da insatisfação aparece em uma pesquisa encomendada pela CNI ao Instituto Nexus, realizada entre 14 de julho e 7 de agosto de 2025, com 1.002 empresários industriais de pequeno, médio e grande portes, nas cinco regiões do País. Para 70% dos entrevistados, o pagamento de tributos é o principal problema associado ao Custo Brasil. A dificuldade de contratar trabalhadores qualificados aparece em segundo lugar, mencionada por 62%.
O levantamento também aponta obstáculos relacionados ao financiamento dos negócios, citado por 27% dos empresários; à segurança jurídica e regulatória, com 24%; e às condições de concorrência, mencionadas por 22%.
Uma conta que chega ao consumidor
Segundo o Observatório do Custo BrasiI, o cálculo desses entraves estruturais equivale a aproximadamente 20% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
Não se trata de uma despesa direta do governo, mas de uma estimativa dos custos adicionais e das ineficiências que prejudicam a atividade econômica. E quem paga parte dessa conta é o consumidor. Segundo a pesquisa do Instituto Nexus, 77% dos empresários industriais acreditam que o Custo Brasil aumenta os preços finais dos produtos. Para 64% dos entrevistados, o problema se agravou nos três anos anteriores ao levantamento, realizado no ano passado.
Dentre os riscos mais citados pelos entrevistados, destacam-se o aumento das falências e o fechamento de negócios, mencionados por 24%, e a possibilidade de crise ou recessão econômica, apontada por 19%.
Precisamos reduzir o Custo Brasil para promover a competitividade da indústria e um ambiente de negócios mais eficiente, estimulando o setor brasileiro tanto no mercado interno quanto no externo. Isso faz com que os brasileiros possam acessar produtos mais baratos e melhorar a qualidade de vida.
Léo de Castro, vice-presidente da CNI
Impostos: o principal nó a desatar
O desafio não está apenas no peso dos impostos, mas também na complexidade das regras. Para cumprir as obrigações fiscais, as empresas precisam manter estruturas administrativas que consomem tempo e recursos os quais poderiam ser direcionados à atividade produtiva.
A reforma tributária sobre o consumo, já aprovada e em fase de implementação, é considerada um avanço pela CNI. A expectativa é que o novo modelo simplifique o sistema e reduza distorções na cobrança de impostos ao longo das cadeias produtivas. Mas a entidade avalia que ainda há mudanças importantes a fazer, sobretudo na tributação sobre o lucro das empresas.
No Brasil, a alíquota nominal combinada do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) pode chegar a 34%. O porcentual supera a média de 23,3% dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e de 26,9% do G20, segundo os dados apresentados pela CNI.
Para tornar o País mais atraente, a CNI propõe reduzir a alíquota combinada do IRPJ e da CSLL a um patamar próximo ou inferior à média da OCDE. A entidade também defende a modernização das regras de apuração dos tributos, a ampliação dos mecanismos de depreciação acelerada de máquinas e equipamentos e mudanças na compensação de prejuízos fiscais.
Hoje, a compensação de prejuízos fiscais acumulados está limitada a 30% do lucro tributável de cada período. A CNI propõe eliminar essa restrição, eventualmente com limites temporais, e permitir mecanismos de compensação com impostos pagos em exercícios anteriores, prática conhecida como carryback.
A entidade também sugere ampliar as deduções tributárias para pesquisa e desenvolvimento previstas na Lei do Bem, flexibilizar o enquadramento das despesas e melhorar as condições tributárias para investimentos em tecnologia, patentes e propriedade intelectual.
Essa discussão ganhou importância com as mudanças na tributação dos dividendos remetidos ao exterior. Desde 2026, a legislação prevê retenção de 10% de Imposto de Renda (IR) nessas operações, observadas as condições legais. Para a CNI, a combinação dessa cobrança com a tributação já incidente sobre os lucros pode reduzir a atratividade do Brasil a determinados investimentos estrangeiros.
Crédito caro e infraestrutura precária

O custo do crédito determina se a indústria vai investir em compra de máquinas ou ampliação de produção, entre outras decisões Foto: CLARABOIA FILMES / CNI
O peso dos impostos está longe de ser o único problema. Para uma indústria que precisa comprar máquinas, financiar estoques ou ampliar a produção, o custo do crédito pode determinar se um investimento vai ou não sair do papel.
A pesquisa da CNI revela o tamanho dessa barreira. Entre os empresários entrevistados, 77% afirmaram que aumentariam os investimentos caso as taxas de juros cobradas nos empréstimos a pessoas jurídicas fossem reduzidas pela metade. Por isso, a CNI defende ampliar o acesso ao crédito e aperfeiçoar os instrumentos de financiamento produtivo, sobretudo aqueles destinados a projetos de longo prazo.
A infraestrutura é outro gargalo. Segundo dados apresentados pela entidade, o Brasil investe aproximadamente 1,6% do PIB nesse setor, enquanto seriam necessários investimentos equivalentes a cerca de 4% para combater as deficiências em transportes, energia, saneamento e mobilidade. Rodovias precárias, ferrovias insuficientes e problemas de integração logística encarecem o transporte de matérias-primas e produtos acabados. A conta de energia também entra nessa equação. A CNI aponta o peso de encargos e subsídios nas tarifas de eletricidade como um fator que compromete a competitividade da indústria e aumenta as despesas das famílias.
Há ainda uma questão que não se resolve apenas com obras ou mudanças tributárias: a falta de trabalhadores qualificados. O problema, citado por 62% dos empresários, limita a capacidade das empresas de incorporar novas tecnologias, modernizar processos e aumentar a produtividade.
A qualificação profissional está diretamente ligada à inovação. Sem investimentos em educação, ciência e tecnologia, a indústria encontra dificuldades para desenvolver produtos de maior valor agregado e competir em segmentos mais sofisticados do mercado internacional.
O que a indústria quer do futuro governo?
Com as eleições presidenciais deste ano, a CNI procura transformar o diagnóstico em uma agenda de propostas para o próximo governo. Em junho, a entidade reuniu pré-candidatos à Presidência da República e representantes do setor produtivo para discutir medidas destinadas a melhorar o ambiente de negócios.
A lista de reivindicações vai muito além da redução de impostos, incluindo medidas para fortalecer a segurança jurídica, modernizar as relações trabalhistas, ampliar o financiamento à inovação, diversificar a matriz de transporte de cargas, reduzir os encargos da conta de energia e melhorar a infraestrutura.
Para investimentos de longo prazo, como a construção de fábricas ou a ampliação de instalações industriais, mudanças frequentes na legislação, disputas judiciais e incertezas regulatórias representam riscos que podem afastar investidores. No campo da inovação, a CNI propõe simplificar o acesso a recursos públicos voltados para a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico.
A entidade também defende o combate ao mercado ilícito, à pirataria e à concorrência desleal. O argumento é que empresas que cumprem suas obrigações tributárias, ambientais e trabalhistas acabam prejudicadas quando disputam mercado com negócios que operem fora das regras.
O desafio de tirar as propostas do papel
Transformar essa agenda em realidade, porém, não é uma tarefa simples. A redução da tributação sobre as empresas, por exemplo, precisa ser conciliada com seus efeitos sobre a arrecadação e a necessidade de equilíbrio das contas públicas. Já a ampliação dos investimentos em infraestrutura exige financiamento, planejamento e capacidade de execução.
Para a CNI, o enfrentamento do Custo Brasil precisa ser tratado como uma política de Estado, com medidas capazes de produzir resultados ao longo de vários governos. O objetivo é permitir que as empresas destinem uma parcela maior de seus recursos à modernização, à inovação, à contratação de trabalhadores e à expansão da capacidade produtiva, em vez de absorver despesas provocadas por ineficiências estruturais.
Fonte ONU