O fim da escala 6×1 pode dar aos trabalhadores brasileiros mais tempo para descansar sem perder renda. Para as empresas, porém, a mudança traz um desafio: como manter o mesmo volume de produção e atendimento com menos horas de trabalho, sem elevar demais os custos? A resposta dependerá da capacidade de cada negócio de produzir mais em menos tempo, reorganizar as equipes ou contratar funcionários para cobrir os horários que ficarão descobertos. Quando essas alternativas não forem suficientes, a conta poderá aparecer em preços mais altos, margens menores ou menos vagas de emprego.
Aprovada em dois turnos pelo Senado, a proposta de emenda à Constituição (PEC) prevê dois dias de descanso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos, e a redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem corte salarial. A transição prevê uma primeira redução para 42 horas semanais, dois meses após a promulgação, e para 40 horas um ano depois. Na prática, as empresas terão de pagar o mesmo salário por uma jornada menor, o que aumenta o custo de cada hora trabalhada e exige mudanças na organização das operações.
O tamanho desse impacto dependerá de quanto as empresas conseguirão compensar as horas reduzidas com ganhos de produtividade e de quanto precisarão gastar para manter o funcionamento. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a mudança pode elevar os custos de produção em até R$ 267,2 bilhões e reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) em 0,7%, o equivalente a R$ 76,9 bilhões. A entidade também projeta uma alta média de 6,2% nos preços ao consumidor. Já uma simulação dos economistas Fernando de Holanda Barbosa Filho e Paulo Peruchetti, do FGV Ibre, aponta uma queda de até 2,9% no PIB caso as empresas não consigam compensar a redução das horas trabalhadas com ganhos de eficiência ou outros ajustes.
O ganho de produtividade que o Brasil ainda não encontrou
Para reduzir a jornada sem diminuir a produção, as empresas precisam encontrar uma maneira de fazer o mesmo trabalho em menos tempo. Isso pode ocorrer com máquinas mais eficientes, tecnologia, treinamento ou uma organização melhor das equipes. O problema é que o Brasil tem dificuldade para elevar a produtividade – justamente a capacidade de produzir mais com os recursos disponíveis.
Entre 1981 e 2024, a produtividade por trabalhador cresceu, em média, apenas 0,2% ao ano, segundo dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do FGV Ibre. Em outras palavras, a riqueza produzida por cada pessoa ocupada avançou muito pouco ao longo de mais de quatro décadas. Quando o cálculo considera cada hora trabalhada, o crescimento médio foi de 0,5% ao ano. O quadro recente é ainda pior: entre 2013 e 2024, a produtividade por trabalhador caiu 0,2% ao ano, enquanto a produtividade por hora recuou 0,1%.
Essa estagnação ajuda a explicar por que o crescimento da economia brasileira costuma perder força depois de períodos de expansão. O Produto Interno Bruto (PIB) pode aumentar quando mais pessoas conseguem emprego, o consumo cresce ou os investimentos impulsionam determinados setores. Mas, para sustentar esse avanço ao longo do tempo, também é necessário que cada trabalhador consiga gerar mais riqueza. Sem esse ganho, a economia depende cada vez mais da entrada de novos trabalhadores e de estímulos que nem sempre se mantêm.
É o que está por trás do chamado voo de galinha: o país cresce durante algum tempo, mas encontra dificuldade para manter um ritmo elevado de expansão. A baixa produtividade não é a única explicação para esse comportamento, mas limita a capacidade de produzir mais, elevar a renda e sustentar o crescimento sem pressionar os custos.
É nesse contexto que a redução da jornada de trabalho levanta uma questão adicional: o Brasil tem condições econômicas e demográficas para trabalhar menos sem comprometer sua capacidade de produzir?
Em um estudo sobre a relação entre horas trabalhadas, produtividade e características da população, o economista Daniel Duque, do FGV Ibre, comparou a jornada observada em diferentes países com aquela que seria esperada de acordo com fatores econômicos e demográficos. O Brasil aparece trabalhando cerca de 1,2 hora a menos por semana do que o modelo estimaria para seu perfil.
O resultado não significa que os brasileiros trabalhem pouco, nem que uma jornada menor seja necessariamente inviável. A comparação sugere algo mais específico: consideradas a produtividade e a estrutura demográfica do país, o Brasil já não apresenta uma jornada semanal excessiva em relação àquela que o modelo estimaria para suas condições. Isso questiona a ideia de que seja possível simplesmente aproximar a jornada brasileira da praticada em outros países sem considerar as diferenças entre as economias.
A demografia é parte dessa equação porque o crescimento depende, entre outros fatores, de quantas pessoas estão disponíveis para trabalhar. Quando a população ocupada aumenta, o país pode ampliar sua produção mesmo que a produtividade avance pouco. Mas esse caminho tem limites: se a oferta de trabalhadores crescer mais devagar, será necessário produzir mais com cada pessoa ocupada para manter o mesmo ritmo de expansão.
Por isso, a produtividade se torna ainda mais importante para o crescimento futuro. Se o Brasil continuar produzindo pouco a mais por trabalhador, terá mais dificuldade para sustentar o avanço do PIB à medida que diminuir o impulso vindo do aumento da população ocupada.
A jornada de trabalho no Brasil já vem diminuindo há décadas. Uma das quedas mais acentuadas ocorreu entre 1988 e 1989, quando a média semanal passou de 42,8 para 41,8 horas, após a Constituição de 1988 reduzir o limite legal de 48 para 44 horas. Em 2024, a jornada média havia recuado para 38,4 horas semanais, segundo dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do FGV Ibre, quase seis horas abaixo do teto previsto na Constituição.
Essa diferença ajuda a dimensionar o impacto de uma nova redução: o limite legal pode cair mais do que as horas efetivamente trabalhadas pela média dos brasileiros, mas ainda assim afetar empresas que operam com jornadas próximas ao teto atual. Em estudo sobre o tema, Fernando de Holanda Barbosa Filho, do FGV Ibre, simulou o efeito de uma redução do limite máximo para 36 horas semanais, considerando que a jornada média da economia também cairia de 38,4 para 36 horas. Nesse cenário, se o número de trabalhadores e a produtividade por hora permanecessem constantes, o PIB poderia recuar 6,2%. Em um modelo que também considera o capital utilizado na produção, a queda estimada seria menor, de 3,8%. São simulações, não previsões, e consideram uma jornada de 36 horas, abaixo das 40 horas previstas na proposta em discussão.

Cálculos da consultoria 4intelligence indicam que a produtividade precisaria crescer 1,4% ao ano para evitar uma queda do PIB, isso considerando a redução da jornada para 40 horas semanais. O número contrasta com o avanço médio de 0,2% ao ano da produtividade por trabalhador entre 1981 e 2024, segundo o FGV Ibre. Embora sejam indicadores distintos, a comparação mostra a distância entre o desempenho histórico do país e o ganho considerado necessário nessa estimativa.
Isso não significa que a redução da jornada necessariamente provoque uma queda da produtividade. Trabalhadores mais descansados podem cometer menos erros, faltar menos e produzir mais por hora. Mas esse ganho precisa ser suficiente para compensar as horas que deixarão de ser trabalhadas. Até agora, o histórico brasileiro não mostra uma aceleração persistente da produtividade que permita presumir que essa compensação ocorrerá automaticamente.
A dificuldade é que elevar a eficiência exige investimento. As empresas podem precisar comprar equipamentos, adotar sistemas digitais, treinar funcionários ou reorganizar processos. Com os juros elevados, financiar essas mudanças fica mais caro, e o retorno pode demorar a aparecer. A adaptação tende a ser mais simples para companhias com capital, escala e acesso à tecnologia do que para pequenos negócios com margens apertadas.
É aí que a discussão sobre produtividade deixa de ser apenas uma questão de crescimento econômico e chega ao cotidiano das empresas. Uma fábrica pode automatizar tarefas ou reorganizar turnos para manter a produção. Em atividades administrativas, sistemas digitais podem reduzir o tempo gasto em determinadas funções. Já no comércio, na alimentação, na limpeza, na segurança e em outros serviços presenciais, é necessário manter funcionários disponíveis durante o horário de funcionamento.
Nesses setores, produzir o mesmo volume em menos horas pode exigir a contratação de mais pessoas. Além dos salários, as empresas terão de arcar com encargos, treinamento e organização das equipes. Se não conseguirem elevar a produtividade nem absorver os custos adicionais, poderão repassar parte da despesa aos preços, reduzir margens, adiar contratações ou eliminar postos de trabalho.
A questão, portanto, não é apenas se os brasileiros devem trabalhar menos, mas como a economia poderá produzir o suficiente para sustentar a renda e o crescimento com uma jornada menor
Da folha de pagamento ao preço final
Uma estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que o fim da escala 6×1 pode elevar em até 21% os custos com a folha de pagamento do comércio. O impacto anual seria de R$ 122,4 bilhões para o varejo e de R$ 235 bilhões para o setor de serviços.
O aumento das despesas coloca as empresas diante de escolhas difíceis: absorver o custo com margens menores, repassá-lo aos consumidores, reduzir equipes ou até restringir o horário de funcionamento. “O comércio não tem como absorver um aumento dessa magnitude sem repassar preços, reduzir margens, cortar postos de trabalho ou restringir dias de funcionamento”, afirma Fábio Bentes, economista-chefe da CNC.
Parte dessa pressão pode chegar ao consumidor final. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta altas de 5,7% nos preços de produtos de supermercado, 6% nos bens industrializados e 6,6% em roupas e calçados. A CNC, por sua vez, estima que o repasse aos preços no comércio e nos serviços pode chegar a 13%.
O risco macroeconômico é que a pressão de custos se espalhe por diferentes atividades, especialmente aquelas em que o trabalho representa uma parcela elevada das despesas. “Se a redução da jornada vier desacompanhada de avanço de produtividade, o efeito líquido pode ser de pressão inflacionária via serviços e menor crescimento potencial da economia, justamente em um momento em que o Banco Central ainda monitora a desancoragem das expectativas”, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
O efeito dependerá da extensão do repasse, da reação da demanda e da capacidade das empresas de absorver ou compensar as despesas. Ainda assim, se os aumentos se disseminarem, o Banco Central poderá enfrentar mais dificuldade para trazer a inflação à meta sem manter os juros elevados por mais tempo.
O risco de mais informalidade
Quando contratar formalmente se torna mais caro, algumas empresas podem procurar alternativas para reduzir despesas. Uma delas é recorrer à terceirização ou à contratação de profissionais como pessoas jurídicas, a chamada pejotização. Embora essas modalidades possam ser legítimas em determinadas relações de trabalho, a substituição de vínculos empregatícios por contratos que não refletem a realidade da prestação de serviços pode ampliar a precarização e a informalidade.
Esse ajuste pode ocorrer de maneira gradual e pouco visível. Uma empresa pode deixar de repor funcionários que saem, suspender vagas planejadas ou adiar uma expansão. Em outros casos, poderá reduzir equipes ou encerrar operações que se tornaram menos rentáveis. O risco não é que todas as empresas adotem essas medidas, mas que a mudança altere a conta econômica de contratações que já eram pouco rentáveis.
O movimento não é inevitável, mas constitui um risco quando a empresa precisa cobrir horários adicionais e não consegue elevar a produtividade nem repassar os custos. Em vez de contratar novos empregados com carteira assinada, alguns negócios podem tentar transferir parte dos encargos e dos riscos para os trabalhadores.
Segundo André Matos, CEO da MA7 Negócios, a migração de empregos formais para a informalidade é um dos riscos relevantes no médio prazo. O efeito pode ultrapassar a relação entre empregador e empregado: vínculos menos protegidos podem reduzir a contribuição previdenciária e a arrecadação, além de tornar a renda dos trabalhadores mais instável.
A tecnologia também poderá alterar a composição do emprego. Se a automação permitir que uma equipe menor execute as mesmas tarefas, a empresa poderá manter a produção sem contratar na proporção necessária para cobrir as horas reduzidas. Esse processo pode elevar a eficiência, mas também eliminar determinadas funções. A criação de novas ocupações dependerá de a economia conseguir expandir outras atividades e gerar demanda suficiente para absorver os trabalhadores deslocados.
A redução da jornada não precisa resultar em perda de empregos ou aumento generalizado de preços. Uma transição gradual pode ajudar a reorganizar turnos e planejar investimentos, embora não elimine os custos da adaptação.
O problema é que o Brasil parte de um histórico prolongado de baixo crescimento da produtividade. Sem avanços de eficiência, a redução das horas disponíveis exige que alguém absorva a diferença: o empregador, por meio de margens menores; o consumidor, por meio de preços mais altos; ou o trabalhador, caso a empresa reduza contratações, elimine vagas ou recorra a vínculos mais precários.
O custo também pode aparecer no crescimento da economia. Se as empresas produzirem menos, investirem menos ou reduzirem a expansão dos negócios, o PIB poderá avançar abaixo do que ocorreria sem a mudança.
A questão central, portanto, não é apenas quantas horas os brasileiros devem trabalhar, mas como o país pretende produzir o suficiente para sustentar a renda, o emprego e o crescimento com uma jornada menor. O descanso adicional pode representar um ganho social importante. Porém, será necessário elevar a produtividade – justamente uma das tarefas em que o Brasil tem encontrado mais dificuldade.
FonteForbes