lucro recorrente do Itaú e economia brasileira fraca

Compartilhar:

Hoje a redação da GZM resolveu explorar um tema de forma diferente por conta da força de reflexão que ele sugere. E vamos demonstrar isso no texto a seguir, pois há algo de intrigante nos números que saem de São Paulo. 

Eles estão “fresquinhos” e se referem ao segundo trimestre de 2026, quando o Itaú Unibanco registrou um lucro recorrente gerencial de R$ 12,3 bilhões, com um retorno sobre o patrimônio (ROE) de 24,8%. O paradigma é que isso ocorre num país que convive com uma sensação persistente de crescimento aquém do potencial, o que deixa uma pergunta quase óbvia pairando no ar: como um banco engorda tanto enquanto a economia real não consegue ganhar peso?

A resposta está menos no “milagre” e parece estar mais na engenharia. Lucro recorrente não significa dependência do PIB, mas, acima de tudo, gestão de risco afiada, eficiência operacional e disciplina cirúrgica na relação entre crédito, provisões e custos. 

Assim, podemos deduzir que o exercício bem feito está na precificação de risco, na exigência de garantias, na segmentação refinada da carteira de crédito e nos ajustes constantes nas condições de empréstimo, que juntos funcionam como escudos. Somados à escala e à diversificação de receitas, esses mecanismos permitem que a lucratividade se sustente mesmo quando a economia real tropeça. A as provisões, quando bem dimensionadas, atuam como amortecedores que suavizam o impacto das perdas ao longo do tempo.

Isso tudo explica o forte resultado, mas o problema é que ele convive com cenários em que sua carteira do comércio está sofrendo com a oscilação do poder de compra dos clientes ao mesmo tempo em que a carteira da indústria geme com investimentos produtivos desacelerados. E isso não é simplesmente “a outra ponta”, mas, sim, uma mesma parte de uma cadeia de negócios que opera no país.

Itáu > 20 capitais brasileiras

Outro dado que coloca a questão em escala, e que também soa como um alerta silencioso, é quando comparamos o lucro trimestral do Itaú com o PIB das capitais brasileiras. Em resumo, ele é superior a todo o valor que circula em 20 das 27 capitais, segundo dados oficiais do IBGE. Vale dizer que a instituição não apura PIB municipal por trimestre, apenas em valores anualizados, então tivemos que fazer o exercício de “trimestralizar” os resultados para fazermos uma comparação mais contundente.

A lista de cidades com seus números é a seguinte: 

São Luís (MA), com R$ 10,59 bilhões por trimestre; Campo Grande (MS), R$ 10,56 bilhões; Belém (PA), R$ 10,13 bilhões; Cuiabá (MT), R$ 9,76 bilhões; Vitória (ES), R$ 8,92 bilhões; Maceió (AL), R$ 8,43 bilhões; Florianópolis (SC), R$ 7,79 bilhões; Natal (RN), R$ 7,79 bilhões; Aracaju (SE), R$ 7,25 bilhões; Teresina (PI), R$ 7,25 bilhões; João Pessoa (PB), R$ 7,10 bilhões; Porto Velho (RO), R$ 6,60 bilhões; Macapá (AP), R$ 5,69 bilhões; Boa Vista (RR), R$ 4,55 bilhões; Palmas (TO), R$ 3,54 bilhões; e Rio Branco (AC), R$ 3,24 bilhões.

Todas elas veem seu fluxo econômico total superado pelo resultado de um único banco, ou seja, temos banco forte, mas numa economia bastante frágil. E o PIB, vale lembrar, é a soma de todos os valores que circulam na economia, não o “lucro” do município, por isso já informamos que a comparação não é nada perfeita, mas, mesmo assim, é inquietante.

Tudo dentro das regras

A conclusão que emerge dessa notícia não é de natureza jornalística, mas de algo maior, de natureza sistêmica. Cabe logo dizer que o modelo financeiro do banco opera totalmente dentro das regras, de forma legal e lícita. E tampouco não há ilegalidade em lucrar alto. Mas, ainda assim, estamos à frente de um paradoxo.

E, com tudo isso, vale fazer uma reflexão pragmática. Fortalecer a economia real não é uma meta “social” ou “política”, no sentido vazio do termo, mas uma forma de reduzir o risco sistêmico, aumentar a estabilidade do crédito e criar um ciclo virtuoso onde todos — bancos incluídos — ganham.

O Brasil pode e deve se orgulhar de ter instituições sólidas e lucrativas, capazes de competir em escala global. Mas o paradigma que esses números trazem não pode ser ignorado, pois de nada adiantará ser o “dono da bola” se poucos ainda terão forças para “entrar em campo e jogar”.



Fonte Startupi

Artigos relacionados

Empreendedorismo feminino ganha espaço na Zona Leste de São Paulo com imersão marcada para outubro

Idealizado pela multiempresária, advogada e criadora do Papo de Leoa, Andressa Gnann, evento acontecerá no dia 24 de...

TaR Grupo Editorial Digital: a marca que transforma presença em ativo estratégico

Com atuação multiplataforma, a TaR organiza conteúdo, reputação e mídia para marcas, especialistas e negócios que precisam ser...

O voto é secreto. E a sua timeline?

Ninguém é reprovado por votar diferente de quem te entrevistou. O problema começa quando o outro lado descobre...

Desafio MCPM de Impacto Social abre inscrições para imersão gratuita em São Paulo

Desafio Estadual MCPM de Impacto Social acontece em 26 de setembro de 2026, no Campus Paraíso da Faculdade Belas Artes, com 40 vagas gratuitas.