Apenas 3 em cada 10 brasileiros tiram os 30 dias de férias previstos na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) anualmente, segundo um novo levantamento da plataforma de RH Deel, em parceria com a empresa de capital de risco Andreessen Horowitz.
O estudo, realizado em junho de 2026, considerou 993 solicitações de férias de brasileiros — parte de uma amostra global com mais de 1,5 milhão de profissionais de startups e empresas de tecnologia em 150 países.
O índice de aproveitamento das férias pelos brasileiros é de 72%, com uma média de uso de 22 dias por funcionário. Para efeito de comparação, a França registra 88%. O país europeu lidera o ranking de dias de descanso concedidos por lei entre os que foram analisados pela pesquisa, com 34 dias anuais de férias. O Brasil vem logo atrás.
“Uma parte relevante das férias do brasileiro acaba sem aproveitamento efetivo. Já na França, além de terem mais dias de férias, os trabalhadores também utilizam uma parcela maior desse benefício, o que indica uma cultura mais consolidada de descanso integral”, diz Michele Cascardo, diretora de desenvolvimento de negócios para a América Latina da Deel.
Além da questão cultural, fatores financeiros também ajudam a explicar por que tantos brasileiros deixam de usar suas férias. A CLT exige que os profissionais tirem, no mínimo, 20 dias, e garante a possibilidade de conversão dos 10 dias restantes em dinheiro. “Essa conversão é uma faculdade do empregado, que deve requerê-la até 15 dias antes do término do período aquisitivo”, afirma Andrea Giamondo Massei, sócia da área trabalhista do Machado Meyer Advogados. “Não existe a possibilidade de simplesmente ‘perder’ ou renunciar aos dias de férias.”
Já na França, e na União Europeia como um todo, isso não é possível. A norma estabelece um mínimo de quatro semanas de férias anuais remuneradas. “Na prática europeia, o sistema tende a ser ‘use ou perca’”, resume a advogada.
Brasileiros tiram férias mais longas
Se não tira o máximo de dias de férias disponíveis, o brasileiro compensa na intensidade da pausa. A pesquisa mostra que 62% dos profissionais do país tiram ao menos um bloco de 11 dias consecutivos por ano. O Brasil supera nações como a Suécia (55%) e a Dinamarca (51%), conhecidas pelos altos índices de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, que parcelam as férias em períodos mais curtos.
No Brasil, apesar de ser possível fracionar as férias em até três vezes, a lei exige que um dos períodos tenha no mínimo 14 dias corridos e que os demais não sejam inferiores a 5 dias corridos cada um. “A CLT historicamente estruturou as férias em períodos mais longos, muitas vezes associados ao verão ou a feriados prolongados”, diz a executiva da Deel.
Mulheres registram o dobro de licenças médicas
Além da análise das férias, a pesquisa levantou um dado crítico para a saúde ocupacional. No Brasil, 41% das mulheres registraram ao menos uma licença médica no período da análise, contra apenas 21% dos homens.
A disparidade atinge o pico na faixa etária de 35 a 39 anos. Nesse grupo, o índice de mulheres com necessidade de afastamento médico salta para 54%. “O levantamento identifica um percentual maior de licenças médicas entre mulheres, mas não busca apontar as causas desse comportamento”, afirma Cascardo. “Cada organização precisa entender sua própria realidade antes de associar esse resultado a fatores específicos, como carga de trabalho, responsabilidades familiares ou outras questões relacionadas à saúde e ao bem-estar.”
FonteForbes