Para Captar R$ 13 Milhões, Ela Precisou Parar de Falar em “Saúde da Mulher”

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Hadas Ziso sabia que estava perdendo a atenção da sala. Toda vez que ela dizia “endometriose“, algo mudava nos olhos dos investidores. “Eu simplesmente perdia o foco deles depois de cinco minutos”, conta a cientista e empreendedora israelense em entrevista à Forbes.

Então ela tentou uma nova estratégia. O produto não mudou. A plataforma de ultrassom robótico Revealan, desenvolvida pela startup de tecnologia médica EndoCure, cofundada por ela em Israel, ainda tem como alvo as mesmas lesões e atende os mesmos pacientes. Mas o discurso de venda mudou: agora ela fala de oncologia e monitoramento de câncer, algo que os investidores conseguem compreender imediatamente.

O atalho funcionou. A EndoCure arrecadou US$ 2,7 milhões (R$ 13,6 milhões) e está avançando em estudos clínicos, incluindo um ensaio de monitoramento de câncer de bexiga, de olho na autorização de comercialização pré-mercado da FDA. A tecnologia é real. O interesse clínico está documentado.

Segundo a empreendedora, quando o assunto é saúde da mulher, o caminho para o capital às vezes precisa fazer um desvio em direção à saúde geral. Mas não porque as doenças e desafios femininos sejam menos importantes.

A endometriose afeta quase 200 milhões de mulheres em todo o mundo. O diagnóstico médio leva de 4 a 11 anos. As empresas que tentam mudar esse cenário navegam em um ambiente de financiamento que raramente joga a seu favor.

Os desafios do diagnóstico de endometriose

As lesões de endometriose são frequentemente pequenas demais (muitas vezes com menos de 2 milímetros) para serem detectadas por ressonância magnética, tomografia computadorizada ou ultrassom convencional. As pacientes passam por ciclos de tratamentos hormonais prescritos sem orientação por imagem, retornam em seis meses e repetem o processo.

Quando o tratamento falha, o diagnóstico real muitas vezes ainda requer cirurgia. “As pacientes são ignoradas e dispensadas com um ‘isso é coisa da sua cabeça’”, diz Ziso. “Elas recebem prescrições de medicamentos psiquiátricos. E para provar que não estão loucas, são forçadas a passar por uma cirurgia laparoscópica com o único propósito de diagnóstico.”

O problema não é a indiferença dos médicos, e sim a falta de ferramentas. “Inúmeras condições, incluindo a endometriose peritoneal superficial, permanecem invisíveis para as tecnologias de imagem atuais”, afirma Marc R. Laufer, chefe de ginecologia do Boston Children’s Hospital e professor da Harvard Medical School. “O desenvolvimento pela EndoCure de uma modalidade de imagem capaz de detectar endometriose ou cânceres em estágio inicial seria transformador, revolucionando o diagnóstico e expandindo as opções de tratamento.”

A trajetória empreendedora e o atalho para captar recursos

Ziso possui doutorado em robótica médica pelo Technion–Israel Institute of Technology e passou 20 anos construindo dispositivos médicos. Ela foi responsável por liderar uma aplicação para câncer de próstata desde os ensaios pré-clínicos até a aprovação da FDA, agência federal do governo dos Estados Unidos responsável por proteger a saúde pública. A empreendedora sabe como construir. No entanto, descobriu que captar recursos para a saúde da mulher exige um conjunto de habilidades totalmente à parte.

As empresas de diagnóstico já enfrentam um caminho mais difícil do que as de terapias. Adicione saúde feminina e o desafio se multiplica. “Há muitas conversas entre investidores sobre a saúde da mulher. Ouvi dizer que o JP Morgan publicou que há muito interesse, muito dinheiro, mas isso ainda não chegou a nós, fundadores.”

Dados recentes que acompanham as saídas (vendas ou aberturas de capital) na área de saúde da mulher mostram que o setor ultrapassou os US$ 100 bilhões (R$ 505 bilhões). Mas a experiência de Ziso sugere que a energia nas conferências e as propostas de investimento que chegam aos fundadores continuam sendo duas coisas diferentes.

Sua solução: encontrar um atalho. O reposicionamento em torno da oncologia e de imagens em geral — capacidades que o Revealan possui — abriu portas que a endometriose por si só não conseguiria. A mudança reflete uma capacidade técnica real, não um desvio de atenção. Mas o fato de uma fundadora que constrói tecnologia para 190 milhões de mulheres ter que usar o câncer como chamariz para conseguir uma reunião é uma anomalia que o mercado de capitais ainda não explicou.

O Teuza Fund, um dos fundos venture capital mais antigos de Israel, fez a aposta. “A EndoCure tem uma resolução 10 vezes maior, permitindo que os médicos vejam coisas que nunca puderam ver antes, como câncer em estágio muito inicial. A empresa criou uma nova maneira de adquirir dados de saúde de alta qualidade”, afirma Gil Kerbs, um dos investidores. “Isso abre as portas para que a IA comece a causar um grande impacto neste espaço, o que não era possível no passado, já que o ultrassom produz imagens de qualidade muito baixa, com as quais a IA tinha muito pouco para trabalhar.”

Nova tecnologia

O Revealan se conecta a qualquer transdutor de ultrassom padrão já existente no mercado. Ele move a sonda com precisão mecânica pelas áreas abdominal e pélvica, produzindo uma imagem 3D padronizada de alta densidade, pelo menos 10 vezes mais densa que uma ressonância magnética — por cerca de um décimo do custo por exame. “Qualquer técnico, em qualquer lugar, pode apertar o botão e obter exatamente os mesmos resultados para serem enviados para interpretação pelo radiologista”, observa Ziso. “Isso não existe hoje em exames de ultrassom.”

David P. Cernicek, um consultor da indústria de ultrassom com 45 anos de experiência, contextualiza a situação. “Vi a tecnologia passar de imagens dependentes do operador para uma precisão reproduzível. A EndoCure acelera essa mudança ao unir robótica, 3D volumétrico com reconstrução multiplana e IA em uma única plataforma clinicamente prática.”

A economia do projeto foi pensada para adoção. O modelo da EndoCure começa com um pagamento inicial de US$ 10 mil (R$ 50,5 mil) e uma assinatura calculada em US$ 120 (R$ 606) por exame, reembolsável por planos de saúde. Compare isso com a infraestrutura de mais de US$ 1 milhão (R$ 5 milhões) de uma ressonância magnética e cerca de US$ 1.000 (R$ 5 mil) desembolsados do próprio bolso por exame.

O beco sem saída que impede a cura da endometriose

Não há cura para a endometriose. Entender o porquê disso exige compreender o problema dos ensaios clínicos.

Para conduzir um ensaio de medicamento, as empresas farmacêuticas precisam avaliar a resposta da lesão antes e depois da administração do remédio. O único método objetivo com as ferramentas atuais é a cirurgia laparoscópica — duas vezes.

Essa barreira de recrutamento silenciosamente paralisou um fluxo viável de desenvolvimento de medicamentos. Nenhuma ferramenta de monitoramento não invasiva significa nenhum ensaio escalável. Nenhum ensaio escalável significa nenhum medicamento aprovado. “Podemos mudar totalmente esse processo, permitindo uma maneira não invasiva de monitorar os efeitos dos medicamentos e, potencialmente, destrancando a porta para novos medicamentos emergentes nesta área.”

O Revealan não é só uma plataforma de diagnóstico, pode ser a infraestrutura que torna os ensaios de medicamentos para endometriose viáveis em escala e determina se alguma cura será desenvolvida.

A batalha ainda não acabou

O atalho funcionou para a empreendedora, mas não é uma solução. Ziso é clara sobre o que ainda precisa mudar: “Precisamos trazer os homens para a história. Tínhamos um homem na mesa e cerca de 20 mulheres. Temos que trazê-los antes mesmo de conseguirmos sucesso na captação de recursos para a saúde da mulher.”

A ironia estrutural se mantém em ambos os lados. A mesma invisibilidade que torna a endometriose tão difícil de diagnosticar — lesões pequenas demais para serem vistas, sintomas fáceis demais de serem descartados — a torna difícil de financiar. O argumento da EndoCure é que se você conseguir tornar as lesões visíveis, o resto eventualmente acompanha.

*Geri Stengel é colaboradora da Forbes USA. Ela tem mais de 10 anos de experiência cobrindo empreendedorismo feminino e é presidente da Ventureneer, uma empresa de pesquisa e consultoria dedicada a apoiar empreendedores negligenciados, especialmente mulheres e pessoas negras.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com



FonteCâmara dos Deputados

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