Empresas Superestimam Capacidades de IA para Justificar Demissões, Alerta Consultoria

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Quando empresas anunciam demissões culpando a inteligência artificial, frequentemente há um problema escondido por trás das manchetes: muitas delas ainda não dispõem da tecnologia necessária para sustentar esses cortes. “Nove em cada dez companhias que anunciam essas demissões não possuem sistemas de IA maduros e prontos para substituir totalmente as funções”, afirma J.P. Gownder, analista da Forrester, empresa global de pesquisa e consultoria.

Essa desconexão ocorre em um momento crítico, quando o mercado observa uma onda de demissões em massa justificadas pelos altos investimentos em tecnologia em gigantes como Meta e Microsoft.

Cortes de custos disfarçados de inovação

A Forrester prevê que a IA e a automação eliminarão 6,1% dos empregos nos EUA (cerca de 10,4 milhões de vagas) até 2030. Apesar do número expressivo, a maioria das demissões rotuladas como “impulsionadas por IA” IA” se aproxima mais de programas clássicos de reestruturação financeira do que de uma substituição tecnológica real.

“As atuais capacidades da IA são mais limitadas do que muitas narrativas executivas sugerem”, alerta Gownder. Em muitos casos, a inteligência artificial tem servido apenas como um escudo de relações públicas para justificar esforços de redução de custos que já estavam em andamento.

O risco de inflar o papel da tecnologia é gerar uma crise de credibilidade: investidores podem superestimar o real nível de maturidade operacional da empresa; os funcionários que permanecem passam a supor a existência de sistemas avançados de automação e se frustram ao esbarrar em processos ainda manuais; e a própria liderança cria expectativas de produtividade difíceis de cumprir, caso os ganhos da IA não se materializem no curto prazo.

Na prática, a diferença entre manter a confiança do mercado ou perdê-la está na transparência da comunicação. Quando a Nike, por exemplo, cortou 1.400 vagas na última semana, a empresa foi clara ao focar sua mensagem em “simplificação operacional” e agilidade, sem fazer promessas irreais sobre IA.

Por outro lado, as reduções da Meta no início do ano atraíram críticas internas justamente porque o discurso oficial enfatizou os investimentos na tecnologia, deixando o impacto humano em segundo plano.

A armadilha de demitir antes de construir a tecnologia

Algumas organizações já enfrentaram o ceticismo do mercado ao prometer eficiências que não apareceram na prática. Há relatos de empresas que precisaram reverter demissões ou recontratar colaboradores discretamente após descobrirem que a IA não conseguiria substituir o trabalho humano de forma confiável.

Antes de rotular os cortes como parte de uma “transformação de IA”, executivos precisam assegurar que os elementos fundamentais estejam de pé: soluções já validadas e integradas aos fluxos de trabalho (e não restritas a pilotos ), ganhos de produtividade comprovados e ligados a processos específicos, um cronograma realista de escala da tecnologia e planos claros de transição e requalificação ou realocação dos profissionais afetados.

Inverter essa ordem — demitir primeiro e tentar desenvolver a capacidade de IA depois — cria um enorme risco operacional. As equipes herdam cargas de trabalho pesadas, o esgotamento aumenta e a experiência do cliente despenca.

Redesenhando o futuro do trabalho

Para além das demissões, o maior desafio da alta gestão nos próximos anos passa a ser redesenhar como o trabalho é feito. Isso porque 20% das funções serão significativamente transformadas por ferramentas e fluxos de trabalho de inteligência artificial, segundo a Forrester.

Em vez de enquadrar todos os esforços de reestruturação na redução do quadro de funcionários, reorganizar as equipes em torno de fluxos de trabalho assistidos por IA é uma transformação bem mais desafiadora. Isso exige um investimento contínuo em treinamento, gestão de mudança e redesenho operacional, o que muitas organizações ainda subestimam.

*Caroline Castrillon é colaboradora da Forbes USA. Ela é mentora de liderança corporativa e ajuda mulheres a lidar com mudanças em suas carreiras.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com



FonteForbes

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