Woody Brown sabia que queria ser escritor quando tinha 8 anos. Por volta dessa idade, ele inventava histórias sobre seu alter ego, Policial Woody, que saía por aí salvando pessoas.
Os contos surpreenderam sua mãe, Mary Brown. Ela lia para ele desde que era bebê, mas nunca imaginou que ele pudesse criar suas próprias tramas elaboradas.
Quando criança, Woody foi diagnosticado com autismo severo. Os médicos concluíram que ele não conseguia processar a linguagem e disseram que era inútil explicar coisas ou falar com ele em frases complexas. Sempre que Woody falava, soava como gritos e palavras sem sentido.
Mas Mary passou a perceber que seu filho entendia mais do que aparentava. Ele ficava histérico se desviassem da rotina diária, mas, se ela explicasse por que precisavam parar no supermercado antes de almoçar no McDonald’s, ele a seguia calmamente para dentro da loja.
Aos 5 anos, Woody aprendeu a se comunicar apontando para letras para soletrar palavras, usando um cartão plastificado. Ele começou a responder às perguntas de Mary, primeiro com respostas de uma única palavra e depois com frases curtas. Quando começou a soletrar suas histórias do Policial Woody, Mary reconheceu algumas das tramas, que eram tiradas das manchetes. Woody estava acompanhando as notícias na TV e no rádio.
“Foi assim que a mamãe descobriu que eu estava ouvindo tudo”, disse Woody quando nos encontramos numa manhã recente na casa de seus pais em Monrovia, Califórnia, onde ele mora. Para expressar isso, Woody batia nas letras de um quadro com o dedo indicador direito, enquanto Mary acompanhava os toques de seu dedo e repetia as palavras em voz alta.
Quando aprendeu a se comunicar soletrando, foi como se uma saída de emergência tivesse se aberta, explicou Woody.
“Descoberta milagrosa”, ele soletrou. “Eu achava que ficaria enjaulado a vida toda, e então a porta se abriu —entreaberta, não escancarada, porque a maioria das pessoas ainda duvidava de mim.”
Depois de se formar em Letras pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, da qual foi a primeira pessoa autista não verbal a se graduar, Woody obteve um mestrado em escrita criativa pela Universidade Columbia. Neste mês, ele está publicando seu romance de estreia, “Upward Bound” (em ascenção, em tradução livre), que se concentra nas vidas de pessoas com deficiência em um centro de convivência para adultos no sul da Califórnia. O romance recebeu críticas antecipadas entusiasmadas e elogios de escritores como Paul Beatty, Roddy Doyle e Mona Simpson.
Beatty, que foi um dos professores de Woody em Columbia, disse que ficou impressionado com a variedade de personagens e vozes em “Upward Bound”, e como eles se constroem uns sobre os outros como um coro. “Os personagens, acho que como o próprio Woody, todos sabem o que querem dizer”, afirmou.
Embora não seja estritamente autobiográfico, as histórias em “Upward Bound” são moldadas pela experiência de Woody. Ele descreve a agonia de não conseguir compartilhar seus pensamentos ou controlar seus tiques, e a frustração de ser subestimado.
“Eu queria alcançar leitores neurotípicos, as pessoas bem-intencionadas que não percebem que somos iguais por dentro”, explicou Woody.
Na manhã em que nos encontramos, Woody, Mary e os dois cachorros da família me receberam na porta da frente de sua casa, em uma rua tranquila perto das encostas das Montanhas San Gabriel. Conversamos em intervalos de meia hora, o tempo que Woody conseguia tolerar sem ficar muito sobrecarregado.
Na sala de estar, Woody frequentemente olhava para um carrinho de metal com rodinhas que mantinha ao seu lado. Nele havia dois iPads e dois laptops que exibiam programas, incluindo seu favorito, “Thomas e Seus Amigos”, o desenho infantil com trens que falam.
A colagem de imagens em movimento parecia caótica e distrativa, mas ajuda a mantê-lo calmo, ele explicou. Quando perguntei o que ele espera que os leitores tirem de seu livro, ele respondeu sem hesitar: “Que sou um escritor muito bom e que eles mal podem esperar pelo meu próximo livro.” Ele me olhou de canto de olho e sorriu.
Aos 28 anos, Woody não consegue viver de forma independente. Seu quarto está cheio de brinquedos e bugigangas que ele ama desde pequeno —Sr. Cabeça de Batata, Legos, seus trens. Em uma parede, há uma profusão de telas mostrando notícias locais, YouTube e filmes de animação. “Thomas” está quase sempre passando, junto com um dos filmes de “Toy Story”; Woody recebeu o nome do protagonista cowboy de brinquedo do filme.
Em uma escrivaninha em frente à televisão, ele guarda seus trens de brinquedo —que ele alinha na mesma ordem em que aparecem em “Thomas e Seus Amigos”. Do lado de fora de seu quarto, há uma parede com os diplomas de Woody do Pasadena City College, UCLA e Columbia.
Às vezes ele verbaliza através de uma repetição involuntária de palavras e profere frases de filmes e programas de TV.
Woody nasceu em Pasadena no final de dezembro de 1997. Mary e Drew Brown tinham duas filhas pequenas e empregos exigentes, então quando Woody tinha 2 anos, eles o matricularam em uma creche.
Logo de cara, as professoras disseram a Drew e Mary que algo estava errado com Woody. Exames mostraram que ele era severamente autista. Seus médicos concluíram que ele provavelmente nunca desenvolveria a capacidade de falar de forma coerente ou manter uma conversa.
Mary levou Woody para fonoaudiologia, ludoterapia e terapia ocupacional, esgotando suas economias. Nada parecia ajudar. Ele não conseguia ser direcionado para uma atividade e tinha comportamentos obsessivo-compulsivos, disse Mary. “Ele alinhava seus trens, o que ainda faz”, disse Mary.
Antes de conseguir se comunicar, Woody se sentia isolado e ignorado. “Eu conseguia entender tudo, mas não conseguia dizer a eles o que eu sabia”, ele soletrou, “então todos presumiam que eu tinha deficiência intelectual.”
Em 2003, quando Woody tinha 5 anos, os Browns souberam de uma mulher chamada Soma Mukhopadhyay, que havia desenvolvido um sistema para se comunicar com seu filho autista não verbal. Sua técnica ensinava crianças a se expressarem apontando para letras para soletrar palavras, ou escrevendo ou digitando. Ela trabalhava em Los Angeles, e eles começaram a levar Woody para vê-la uma vez por semana.
Katie Anawalt, fonoaudióloga que treinou com Mukhopadhyay, disse que quando viu Woody usar o quadro de letras pela primeira vez, percebeu a tensão evaporar quando ele finalmente conseguiu transmitir um pensamento.
“Você pode ver o corpo dele relaxar”, disse Anawalt, amiga da família Brown que trabalhou com Woody ao longo dos anos.
Alguns dos métodos de comunicação que Mukhopadhyay ensina receberam críticas de especialistas em linguagem que argumentam que a pessoa segurando o quadro pode estar influenciando ou interpretando mal os comentários de uma pessoa com deficiência. A Associação Americana de Fonoaudiologia não recomenda o método e divulgou uma declaração em 2019 alertando que as palavras resultantes podem não refletir as intenções da pessoa com deficiência.
Também há céticos que duvidam que alguém tão severamente autista quanto Woody possa formar e expressar pensamentos sofisticados, muito menos escrever um romance.
Mary disse que não se surpreende que algumas pessoas questionem as habilidades de Woody —levou anos para ela reconhecer do que ele era capaz. Mas ela se irrita com críticos que dizem que a forma como eles se comunicam é prejudicial ou manipuladora. “Como diabos estou prejudicando ele?”, disse ela.
Quase todas as fases da educação de Woody foram uma luta. A faculdade parecia fora de alcance. Mary se preocupava que Woody não conseguisse assistir a longas aulas sem gritar ou fazer uma cena. Ainda assim, ela não conseguia aceitar a alternativa, um centro de convivência para adultos, então Woody e seu auxiliar Sal, que o ajudou durante o ensino médio, preencheram uma inscrição para o Pasadena City College, sem mencionar a deficiência de Woody. Quando Woody foi aceito, Mary o acompanhou às aulas para facilitar.
Woody se destacou na faculdade comunitária e foi transferido para a UCLA, onde fez uma aula de escrita criativa com a romancista Mona Simpson. Ele entregou uma história, “O Fujão”, sobre um homem autista não verbal que sai vagando de um centro de convivência e é abordado pela polícia. “Era uma visão tão persuasiva de um mundo que eu não tinha visto antes”, disse Simpson.
Na pós-graduação em Columbia, Woody continuou trabalhando em “Upward Bound”, que levou cerca de dois anos e meio para escrever.
“Ele tem um instinto para a forma natural de uma história”, disse Rivka Galchen, uma das professoras de Woody em Columbia, que viu os primeiros rascunhos de “Upward Bound”. “A voz dele é tão vibrante, gentil e engraçada.”
O romance é parcialmente autobiográfico e uma exploração de uma realidade alternativa sombria que Woody evitou. Um dos personagens principais, Walter, um jovem autista não verbal cuja vida espelha a de Woody de muitas maneiras, não pode ser deixado sem supervisão em casa e precisa ir a um centro de convivência. “Eu não tinha como deixar as pessoas saberem quem eu era, e minha apresentação exterior levava as pessoas a fazerem suposições humilhantes sobre mim”, reflete Walter no capítulo de abertura do romance.
No dia da entrevista, enquanto Woody, Mary e eu estávamos sentados na sala de estar, perguntei a ele como era imaginar a vida interior de pessoas neurotípicas em “Upward Bound”. Junto com personagens autistas, o romance explora as perspectivas dos funcionários do centro de convivência. Alguns são heroicamente dedicados às pessoas com deficiência sob seus cuidados; outros são incapazes de reconhecer sua humanidade.
“Eu vivo com pessoas neurotípicas e conheci muitas”, ele soletrou. “Não foi difícil imaginar suas vidas e pensamentos, enquanto elas têm dificuldade em imaginar os meus.”
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
Fonte UOL