Com prejuízo de R$ 3,67 bi em 2025, Oncoclínicas luta para manter suas operações

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A Oncoclínicas (ONCO3) encerrou o ano passado com um prejuízo de R$ 3,67 bilhões, uma piora expressiva em relação às perdas de R$ 717 milhões registradas em 2024. Os números, divulgados na noite de quinta-feira, mostram o nível de comprometimento de caixa da empresa, que deve mais no curto prazo do que tem para receber: o chamado capital circulante está negativo em R$ 2,31 bilhões. Na ponta, faltam medicamentos, e pacientes relatam atrasos e adiamentos nos tratamentos de câncer.

No relatório, os diretores da Oncoclínicas admitiram que a companhia passa por um “cenário de incertezas significativas da continuidade operacional”, citando os R$ 430,8 milhões perdidos após investimentos no Banco Master e a inadimplência da Unimed Ferj, de R$ 861 milhões.

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Em parecer, a consultoria independente Deloitte afirmou que o resultado decorre principalmente de índices financeiros estabelecidos em contratos de empréstimos, financiamentos e debêntures não terem sido atingidos, “o que pode ensejar o vencimento antecipado pelos credores”.

Ontem, o CEO da Oncoclínicas, Carlos Gil Ferreira, afirmou em videoconferência sobre os resultados que a“prioridade absoluta” é manter o atendimento aos pacientes. Ele ressaltou que a empresa opera em um “cenário de pressão de liquidez”, mas que a administração tem tomado decisões focadas na captação de recursos e reorganização financeira para priorizar a operação ambulatorial.

Ferreira citou a venda do Uberlândia Medical Center, em fevereiro, e a negociação para venda do Hospital Vila da Serra, em Belo Horizonte. Além disso, projetos de cancer centers foram cancelados em São Paulo e na capital mineira.

— A prioridade absoluta da companhia neste momento é manter a sua atividade operacional na ponta, ambulatorial, de atendimento dos pacientes — disse o CEO.

Os resultados de 2025 mostram ainda que a companhia não conseguiu encerrar o ano com o endividamento dentro das condições previstas em contrato com os credores, de alavancagem 3,5 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). O indicador mostra o quanto uma empresa depende de dívida para financiar suas operações e crescer.

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Quanto mais elevado o índice, maior o risco financeiro. No caso da Oncoclínicas, a alavancagem ficou em 4,3 vezes.

“A companhia provavelmente precisará negociar com detentores de dívida para evitar um cenário de estresse. Embora existam discussões e iniciativas em andamento, a visibilidade ainda é limitada quanto às possíveis soluções”, escreveram em relatório os analistas do BTG Pactual Samuel Alves e Maria Resende.

Aporte ou empréstimo

Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, os números expõem uma “deterioração operacional”:

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— Quando a empresa passa a operar com caixa comprimido frente a um passivo concentrado no curto prazo, quebra covenants (cláusulas financeiras) e ainda recebe ressalva explícita de auditoria, o mercado deixa de precificar recuperação e passa a precificar sobrevivência.

Na quarta-feira, a Oncoclínicas afirmou que avalia buscar na Justiça proteção temporária contra credores.

Há a alternativa de aportes de acionistas. Uma das propostas é a do grupo Porto Seguro, de R$ 500 milhões. O acordo, em discussão até amanhã, prevê a criação de uma nova empresa, sob controle da Porto, para a qual migrariam as 146 clínicas de oncologia e parte da dívida atual da Oncoclínicas.

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Também poderiam ser emitidas debêntures conversíveis em ações ordinárias de até R$ 500 milhões. O grupo de medicina diagnóstica Fleury participa das discussões.

Outra possibilidade é um empréstimo de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões, além de um aporte de R$ 500 milhões do Mak Capital, fundo de investimento americano que tem 6,3% dos papéis da empresa. O aporte, porém, está condicionado à convocação de uma assembleia geral extraordinária (AGE) para, entre outras medidas, tratar da destituição dos membros do Conselho de Administração. A AGE deve ocorrer no dia 30.

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Tratamentos adiados

Com os problemas de caixa da Oncoclínicas, multiplicam-se relatos sobre tratamentos adiados. Em comum, a justificativa de “indisponibilidade temporária de estoque de alguns medicamentos”.

A pensionista Sueli de Lima Gazoni, de 57 anos, tinha uma sessão de imunoterapia agendada para a semana passada no Rio. O tratamento, porém, foi adiado para a última quinta-feira — e novamente reagendado por falta do medicamento. Sueli trata há dois anos de um câncer no intestino.

— Adiar por não ter o medicamento, numa clinica oncológica, é algo surreal — reclama a filha dela, Juliana Rocha. — É câncer, e não gripe ou dor de cabeça. Sinto uma mistura de impotência, raiva e muito medo.

A professora Mônica Ferreira trata há seis anos um câncer que começou nos ovários e atingiu o abdômen. A última sessão ocorreria em 13 de março, foi adiada para o dia 27 e seria reagendada para o dia 31, mas Mônica reclamou e conseguiu ser atendida:

— A resposta que recebemos é que os casos estão sendo tratados com prioridade. Mas o que é prioridade quando se tem câncer?

Em nota, a Oncoclínicas disse que há instabilidade no abastecimento de determinados medicamentos, mas que “implementa medidas para normalização progressiva do cenário na próxima semana”.



FonteCâmara dos Deputados

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