Evitar que salto da inflação perdure é desafio para o BC

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A mediana das expectativas para o IPCA deste ano subiu de 3,91% há quatro semanas para 4,31% na última leitura do Focus. A alta se deve basicamente à elevação do preço do barril de petróleo em consequência da guerra no Oriente Médio. A grande questão, porém, é se haverá, e qual será, o impacto mais de médio e longo prazo na inflação de 2027 e adiante.

Andrei Spacov, sócio e economista-chefe da gestora Exploritas Investimentos, nota que o impacto primário (direto) da alta do petróleo no Brasil dependerá bastante do que a Petrobrás decidir fazer em termos de elevação dos combustíveis. O alívio na tributação no qual o governo vem trabalhando (e que pode ter adesão dos Estados) ajuda, mas não é suficiente para neutralizar o grosso do impacto da alta do petróleo.

Ele lembra, a propósito, o repasse recente no Chile da alta do petróleo para os combustíveis, de até 50%. O gestor supõe, ressalvando que há grande incerteza, que, no Brasil, a Petrobras deve distender o aumento de forma gradualista ao longo do ano.

De qualquer forma, diz Spacov, “o IPCA de 2026 deve ficar mais próximo de 5% do que de 4%”.

Evidentemente, ele acrescenta, o choque atinge também itens como passagens aéreas, frete, alimentos e outros.

Em relação aos impactos em prazos mais longos, o gestor nota que este é “um clássico choque de oferta e um BC com credibilidade pode trabalhar na comunicação para mostrar que só vai reagir aos efeitos secundários [repasse da alta para setores da economia não diretamente expostos ao preço do petróleo e dos combustíveis]”.

Na prática, ele continua, isso implica que o Banco Central cortará menos a Selic do que faria num cenário sem choque. A primeira demonstração disso foi a reunião de março, em que o corte foi de 0,25 ponto porcentual (pp), para 14,75%, e não o 0,5pp que era esperado antes da deflagração do conflito no Oriente Médio.

O ciclo total, que muitos no mercado esperavam que levasse a taxa básica para 12%, ou até 11%, agora deve possivelmente se concluir no intervalo de 12-13%, acrescenta Spacov.

O gestor considera que há dois fatores que podem ajudar o BC a conter os efeitos secundários do choque de petróleo. O primeiro é o bom comportamento do câmbio, que não se depreciou (como ocorreu em outros emergentes), e o segundo é o nível ainda extremamente alto do juro real.

O juro real elevado, aliás, é um dos fatores para o bom desempenho do câmbio, e outro é o fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo e seus derivados.

Já a economista Silvia Matos, coordenadora de pesquisa econômica conjuntural do FGV-IBRE, preocupa-se com o fato de que, segundo recentes exercícios detalhados no Boletim Macro IBRE de fevereiro deste ano, “tanto as expectativas de prazos mais curtos, quanto as de prazos mais longos, encontram-se desancoradas, com desvios relevantes”.

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Ela nota que, com expectativas desancoradas, torna-se mais difícil para a autoridade monetária conter o repasse do choque de oferta, isto é, conter os chamados efeitos secundários. A economista lembra, que na pesquisa Focus, a expectativa mediana para a inflação de 2027 se elevou de 3,8% para 3,84% entre a penúltima e a última leitura; e a de 2028, de 3,52% para 3,57%. A de 2029 se manteve em 3,5%, um nível razoavelmente acima da meta de 3%.

Matos ressalva que a taxa de juros no Brasil já é muito alta, e que “é difícil deixar todo o trabalho para o BC”, isto é, a ajuda da política fiscal seria decisiva neste momento. Dessa forma, ela se preocupa com os estímulos do ano eleitoral, num contexto de hiato do produto ainda positivo, mercado de trabalho aquecido e uma inflação de serviços que, na sua visão, deve rodar a pelo menos 5,5% anuais em 2026.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/4/2026, quarta-feira.



Fonte ONU

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