Decisão sem governança é risco disfarçado de velocidade

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Enquanto empresas confundem agilidade com improviso, a ausência de estrutura transforma crescimento em vulnerabilidade silenciosa.

Há empresas e carreiras que só olham para a estrutura quando o desconforto já ficou grande demais para ser ignorado. Enquanto tudo parece funcionar, a tendência é empurrar decisões importantes, relativizar sinais de desalinhamento e tratar vulnerabilidades como se fossem apenas ruídos do caminho.

O problema é que valor não nasce nesse momento de tensão. Ele já deveria estar sendo construído muito antes, nas escolhas que organizam a liderança, disciplinam o risco e sustentam a estratégia.

É por isso que governança continua sendo mal compreendida. Muita gente ainda a trata como ritual, formalismo ou excesso de controle. Não é isso. Governança é arquitetura de decisão. É o que define quem decide, com base em quais critérios, com qual nível de risco, com que mecanismos de sucessão e com qual compromisso entre estratégia, execução e reputação.

Veja bem, quando essa arquitetura não existe, a empresa até continua funcionando, mas funciona mal. Cresce com zonas cinzentas, concentra poder onde não deveria, posterga conversas difíceis e transforma talento em dependência. Para quem vê de fora, até parece velocidade, mas por dentro, é vulnerabilidade acumulada.

A própria Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico trata a boa governança como base para confiança de mercado, acesso a capital, resiliência corporativa e estabilidade econômica. Na mesma direção, a pesquisa global da PricewaterhouseCoopers mostra que quase dois terços das organizações já avançaram para programas integrados de resiliência, mas apenas uma em cada cinco está totalmente integrada. E justamente esse grupo mais maduro associa essa estrutura a melhor gestão de riscos, melhor desempenho financeiro, recuperação mais eficaz e reputação protegida.

O custo do improviso

A questão central não é se a crise virá. Acredite, ela virá, e pode assumir a forma de ruptura regulatória, ataque cibernético, falha operacional, conflito societário, perda de liderança ou deterioração reputacional. O ponto é outro: quando ela chegar, a organização estará agindo ou apenas reagindo?

No Brasil, os sinais de exposição já são explícitos. Estudo da KPMG, com 282 companhias abertas, mostrou que os riscos regulatórios aparecem em 95% dos formulários analisados, os operacionais em 93% e as condições políticas, econômicas e de mercado em 92%. Riscos ligados à execução da estratégia e ao plano de investimentos chegaram a 88%, e 79% das empresas apontaram riscos de segurança cibernética. Isso significa que o ambiente de ameaça não é invisível. Ele está mapeado. Ainda assim, reconhecer risco não equivale a ter governança suficiente para enfrentá-lo.

Aí está um erro caro de liderança: confundir consciência com prontidão. Saber que há risco não protege valor. O que protege valor é traduzir esse risco em critério, alçada, processo, contingência, sucessão e disciplina de execução. Sem isso, a empresa opera em modo reativo.

Vale lembrar que decisões reativas quase sempre são mais caras, mais curtas e mais expostas.

Isso vale também para o tema que muitos preferem empurrar para depois: sucessão. O levantamento da Spencer Stuart com conselheiros mostra que 45% temem não ter sequer um candidato interno pronto para assumir o cargo de CEO no momento da transição.

Mais grave: 37% afirmam já ter adiado transições de CEO por falta de sucessores internos preparados, e apenas 49% disseram ter discutido sucessão emergencial no último ano.

Em paralelo, uma pesquisa da PwC com mais de 500 executivos C-level indica que só 35% classificam a efetividade de seus conselhos como excelente ou boa, e apenas 32% acreditam que o board tem a combinação certa de competências. Isso não é detalhe de governança. Isso é risco de continuidade.

Em empresas familiares e negócios fortemente dependentes do fundador, a omissão costuma ser ainda mais sensível, porque a concentração de decisão é frequentemente interpretada como força. Não é. Em muitos casos, é apenas ausência de sistema. A própria PwC apontou que apenas 34% das empresas familiares nos Estados Unidos têm um plano de sucessão robusto, documentado e comunicado. Quando isso falta, a empresa pode até manter faturamento por um tempo, mas perde previsibilidade, atratividade e liberdade estratégica.

Posso afirmar que há ainda um aspecto que executivos subestimam: o custo direto do despreparo. No campo cibernético, por exemplo, a International Business Machines Corporation registrou em 2024 um custo médio global de US$ 4,88 milhões por violação de dados. No setor financeiro, esse valor chegou a US$ 6,08 milhões. E não se trata apenas de dinheiro: em finanças, o tempo médio para identificar uma violação foi de 168 dias.

Em outras palavras, quando a governança de risco falha, a conta não vem só em despesa. Ela chega também em tempo perdido, erosão de confiança e aumento de exposição regulatória.

Por isso, eu insisto em um ponto que o mercado ainda resiste em encarar com a seriedade necessária: governança não é um instrumento de contenção. É um sistema de proteção de valor. Ela não serve para desacelerar o negócio. Serve para impedir que o negócio cresça sem estrutura suficiente para sustentar o próprio crescimento.

O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa resume bem essa lógica ao associar governança a processos claros, alinhamento estratégico, transparência e comportamento diante de riscos, com foco no presente sem perder o futuro de vista.

Essa é a definição mais útil para quem lidera. Governança não é decorar organograma. É criar condições para fazer escolhas difíceis enquanto ainda existe margem de escolha.

Na prática, isso significa organizar a casa antes do aperto, definir critérios objetivos de decisão, revisar concentração de poder e construir sucessão real, não retórica.

Além disso, é preciso estabelecer apetite de risco; integrar estratégia, reputação e operação; fazer o board discutir o que pode destruir valor antes que o mercado discuta por ele; e, sobretudo, tratar governança como ativo.

Crise não cria maturidade. Crise revela maturidade.

Empresas e carreiras que constroem governança antes preservam mais do que resultado. Preservam reputação, capacidade de negociação e liberdade de movimento.

Quem constrói governança sob pressão paga mais caro, seja em dinheiro, reputação ou liberdade.

Mirella Franco Melo
Mirella Franco Melo
Autora do livro Carreira com Valuation, em lançamento pela Editora Gente. Farmacêutica-neurocientista, empresária, mentora e conselheira empresarial certificada, com mais de vinte anos de experiência no setor farmacêutico. Sua trajetória é marcada pela atuação em posições de liderança nas áreas de qualidade, governança e transformação organizacional. Ao longo da carreira, liderou equipes multidisciplinares, estruturou processos críticos e impulsionou o crescimento sustentável de empresas, combinando expertise técnica com visão estratégica e governança corporativa. Como empresária, conduziu a expansão e a consolidação do próprio negócio, elevando significativamente o faturamento e fortalecendo uma cultura de alta performance orientada a resultados. Atua atualmente como conselheira, mentora e investidora de startups, apoiando lideranças na construção de negócios com valor, previsibilidade e visão de longo prazo.

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