ganho com marcação a mercado virou lenda urbana? 

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Quem acompanha o mercado de renda fixa provavelmente se deparou com recomendações de compra de papéis do Tesouro IPCA+ (NTN-Bs) nos últimos meses. A tese era simples: aproveitar enquanto os juros reais ainda estavam altos, já que eles cairíam significativamente no curto prazo. Mas já é quase abril e ainda é possível encontrar NTN-Bs pagando acima de 7,80% além da inflação.

O resultado foi frustração para quem esperava ganho de capital rápido. Fatores como guerra no Oriente Médio, mudança no ritmo de cortes da Selic e eleições seguram os juros reais acima de 7%. Assim, investidores podem ver suas carteiras no vermelho atualmente. O prejuízo só será realizado se os donos dos papéis decidirem sair da aplicação agora, mas a marcação negativa pode incomodar quem não está acostumado com a volatilidade. 

Diante dessa frustração, o mercado errou as projeções ou o investidor não soube executar a estratégia?

Para José Aureo Viana, sócio da Blue3 Investimentos, houve uma combinação dos dois fatores. “O principal equívoco (do investidor) foi tratar uma leitura de cenário como se fosse uma certeza de retorno. Uma sinalização de mercado ou uma projeção para fechamento de curva não deve ser confundida com uma ‘dica’ de ganho praticamente garantido”, avalia. Ele ressalta que “o cenário macro não evolui em linha reta” e que “eventos não antecipados alteram rapidamente a precificação dos ativos”.

Robson Casagrande, sócio da GT Capital, acrescenta que o mercado precificou um fechamento rápido que dependia de um cenário perfeito que não se concretizou. Do lado do investidor, o erro foi de execução. “O varejo, por vezes, subestimou a volatilidade estrutural do duration (prazo do título), transformando uma estratégia de oportunidade em uma aposta de curto prazo”, afirma Casagrande.

Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos, é categórico sobre a origem da frustração: “o problema não foi a tese, foi o horizonte de investimento”.

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Com a demora para o cenário previsto anteriormente se concretizar, o ganho rápido na renda fixa – que sempre esteve longe de ser a estratégia favorita de analistas – parece distante da realidade. Viana diz que “não se trata de uma lenda urbana; o ponto é que, no ciclo atual, esse movimento se mostrou mais demorado, mais volátil e mais dependente de fatores macroeconômicos e fiscais”. Ele alerta que “a marcação a mercado não desapareceu, mas exige mais horizonte, disciplina e compreensão de risco do que muitos imaginavam”.

João Pedro Moreno, analista da Nexgen Capital, reforça que “a percepção de lenda urbana para o investidor pessoa física decorre da volatilidade de curto prazo, mas a lógica econômica de longo prazo permanece válida”. Cleiton Souza resume: “marcação a mercado não é uma estratégia, é uma consequência de cenário”.

Diante disso, a recomendação é devolver os títulos longodo do Tesouro IPCA+ o seu papel de preservação de patrimônio. “Com taxas reais elevadas, o investidor está comprando um ativo de altíssima qualidade com uma taxa historicamente atrativa. Isso, por si só, já justifica a alocação com foco em longo prazo”, destaca Casagrande. Para Viana, “a possibilidade de ganho de capital continua existindo, mas deveria ser tratada mais como um benefício adicional do que como a principal razão da alocação”.

Para o investidor que comprou uma NTN-B longa pensando em fazer dinheiro rápido e agora está preso em um papel desvalorizado, a decisão entre vender com prejuízo ou carregar até o vencimento depende puramente da necessidade de liquidez.

Se o dinheiro não fará falta no curto prazo, a ordem é segurar. “Vender apenas para interromper o desconforto pode significar transformar uma perda contábil em prejuízo efetivo sem necessidade. Portanto, a decisão correta passa por reavaliar objetivo, prazo e perfil, e não apenas reagir ao deságio momentâneo”, aconselha Viana. 

Moreno acrescenta que, “se a alocação for prudente e a taxa real contratada for atrativa, a estratégia mais indicada é manter o título até o vencimento”, lembrando que “a paciência é essencial para que as flutuações de mercado se acomodem”.

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Por outro lado, quem usou um dinheiro de curto prazo e alocou em um título longo cometeu um erro de planejamento que pode exigir a realização do prejuízo. “Se houve erro de alocação, especialmente uso de duration longa para objetivo de curto prazo, pode fazer sentido reduzir risco, mesmo com prejuízo, pois nesse caso o investidor não tem as condições necessárias para esperar o movimento se concretizar”, explica Casagrande.

Explorando alternativas

Para o investidor que deseja travar taxas atrativas em IPCA+, mas não tem estômago para ver o patrimônio oscilar diariamente com as NTN-Bs longas, a estratégia não é abandonar a proteção contra a inflação, mas adaptar o instrumento.

Moreno sugere os títulos do Tesouro IPCA+ de vencimentos mais próximos, como 2026 ou 2030, pois “oferecem menor sensibilidade à marcação a mercado, mantendo a proteção inflacionária e juro real positivo”.

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Delegar a um gestor também é um caminho possível. “Outra alternativa são os fundos de inflação com gestão ativa, nos quais profissionais fazem a gestão de duration e o ajuste de exposição ao longo do tempo, permitindo que o investidor permaneça exposto ao fator inflação sem a ansiedade da marcação a mercado diária”, recomenda Casagrande.

Por fim, o crédito privado isento também aparece no radar, especialmente para os investidores qualificados. Contudo, Casagrande faz um alerta sobre instrumentos como CRIs, CRAs e debêntures incentivadas: essa escolha “exige análise criteriosa, pois troca o risco de duration pelo risco de crédito (calote)”.



FonteAgência Brasil

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