As perspectivas do Itaú até o próximo Copom

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A recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual evidenciou uma preocupação central que ronda a economia global: as incertezas trazidas pelo conflito no Oriente Médio. Em um cenário que antes caminhava para uma clara desaceleração econômica, a pressão mudou de rota e agora mira diretamente nos combustíveis.

Em análise apresentada pelos economistas do Itaú Luciana Ribeiro, Júlia Gottlieb e Pedro Schneider nesta quinta-feira (19), a perspectiva traçada, com o apoio de analistas políticos, é de que a interrupção no fluxo comercial da região dure pelo menos até o mês de abril. Caso isso se confirme, o impacto maior do conflito teria uma resolução antes da próxima reunião do Copom, marcada para 28 e 29 de abril.

Até lá, o Brasil conta com “colchões” econômicos para absorver o baque dos preços, mas a duração e a intensidade da guerra ditarão o tamanho do repasse para a inflação e a futura postura do Banco Central.

“45 dias parecem uma eternidade, dada a conjuntura atual, mas o Copom tem o benefício o tempo para ver como as coisas vão evoluir, para decidir se vai cortar 25 ou 50 pontos-base”, afirma Júlia Gottlieb.

Leia também: Calibragem dos juros após 1º corte na Selic vai depender do cenário externo

Pressão em preços e eleição podem frear conflito

Entre os pesos que entram na balança da calibragem econômica do conflito, está o tempo e a pressão dos preços. Para Pedro Schneider, manter por muito tempo o bloqueio no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção de petróleo do mundo, terá o efeito de elevação de preços, que vai mexer com toda a economia global – ou seja, os países devem pressionar por um desfecho em breve a fim de conter a escalada da cotação. 

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Além disso, os Estados Unidos, que começaram os ataques, têm uma data-limite no calendário para dar fim ao conflito sem pagar uma conta política muito alta: as eleições parlamentares, marcadas para novembro. Para Donald Trump, o ideal seria que o conflito não se estendesse para evitar impacto na inflação americana, volatilidade dos preços dos combustíveis e perda de apoio popular. 

Os economistas do Itaú avaliam que não há muitas rotas alternativas e, enquanto o estreito continuar fechado, os preços da commodity seguirão em alta. Para que o barril volte a patamares abaixo de US$ 100, eles alertam que “precisa ter uma solução definitiva para a guerra”, o que não está no horizonte imediato. Atualmente, o Irã representa 3,5% da produção global de petróleo. 

Leia também: Selic caiu: o que muda nos investimentos em renda fixa, ações, FIIs e fundos?

O repasse para a inflação no Brasil

Com a alta externa, a pressão desembarca no Brasil via combustíveis, gerando um viés de alta para a inflação. A estimativa é que, para cada aumento de 10% no preço da gasolina na bomba, há um impacto direto de 20 pontos-base (0,20 p.p.) no IPCA. Portanto, se a projeção do Itaú para a inflação no horizonte relevante era de 3,4%, esse choque faria a inflação subir matematicamente para 3,6%.

A gasolina, contudo, não é a única vilã. Embora o óleo diesel tenha um peso menor no índice geral do IPCA, o impacto indireto preocupa. O diesel afeta diretamente o custo do frete, espalhando as altas de preços por quase toda a cadeia de consumo do país.

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Os “colchões”: por que o Brasil sofre menos? 

Apesar da tempestade geopolítica, o Brasil tem algumas defesas para atravessar este período. Em todo o mundo, moedas de países que dependem da importação de petróleo e que possuem um diferencial de juros baixo foram as que mais depreciaram com o choque. O Brasil, contudo, está na ponta oposta.

Os economistas destacam que o diferencial da taxa Selic frente a outros mercados continua atraindo o investidor estrangeiro, evitando uma desvalorização maior do real. 

“Este diferencial de custo mais favorável contribui para que o Brasil sofra menos, em termos relativos, mesmo com a depreciação de quase todas as moedas devido a um movimento de aversão a risco”, afirma o economista Pedro Schneider.

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Além disso, o fluxo comercial brasileiro ligado à energia mudou de patamar. “A balança de petróleo é positiva para o Brasil, mais positiva do que era em 2022. Naquela época, a balança era na casa de US$ 10 bi a US$ 15 bi, e agora está na casa de US$ 30 bi”, ressalta Júlia Gottlieb. Com mais dólares entrando pela via da exportação do óleo, os solavancos cambiais são, em parte, amortecidos.

Riscos fiscais na bomba 

Outro colchão é a política de preços da Petrobras, que não segue a paridade internacional. Além disso, diante da iminência da alta de combustíveis, abre-se a possibilidade de o governo intervir para suavizar o repasse nas bombas, utilizando subsídios. Os analistas reconhecem que essa é uma prática observada em choques anteriores de petróleo, mas levantam um sério alerta em relação à governança dessa ação: o risco fiscal.

Segundo as discussões conduzidas pelo banco, se houver subsídios para impedir o repasse de preços, será importante que seja feito de forma transparente, dentro do orçamento e das regras fiscais. 

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Eles alertam para o risco da criação de um “orçamento paralelo, que você não divulga, não tem governança de quanto gastou e arrecadou em cada mês, não entra na meta de primário e nem no limite de despesas”. Em um cenário que já conta com juros altos e desafios nas contas públicas, a transparência fiscal também entra no holofote.

Por enquanto, as projeções do Itaú para o ano colocam o PIB em 1,9%, a inflação em 3,8%, a Selic em 12,25%, e o dólar em R$ 5,40.

Para 2027, as projeções são de PIB de 1,7%., inflação em 3,9%, a Selic em 11,25%, e o dólar em R$ 5,60.



Fonte Infomoney

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