O setor de educação voltou ao radar dos investidores em meio ao início do ciclo de corte de juros no Brasil. Historicamente sensíveis ao custo de capital, as ações das educacionais tendem a reagir de forma mais intensa a movimentos de afrouxamento monetário, especialmente aquelas com maior nível de alavancagem. Mas, para além do impulso trazido pela queda da Selic, o mercado começa a ponderar também os riscos regulatórios e os desafios operacionais que se desenham no horizonte.
Embora a queda dos juros já esteja em grande parte embutida nas projeções de consenso, empresas mais alavancadas tendem a se beneficiar mais, como Ânima (ANIM3) e Vitru Brasil (VTRU3), segundo o Morgan Stanley.
Ainda assim, além do “trade de juros”, o banco avalia que as operações mostram sinais de saturação. A preferência recai sobre nomes com valuations mais baixos, capazes de entregar melhora consistente de resultados e com menor exposição a riscos regulatórios de longo prazo.
Viva do lucro de grandes empresas
Regulação
No debate sobre regulação, o Morgan Stanley afirma que sua análise proprietária bottom-up aponta potencial disrupção regulatória no setor. Ainda assim, como a adequação às novas regras deve começar apenas em meados de 2027, os efeitos em 2026 tendem a ser marginais.
O banco estima que cada aumento de 10 pontos percentuais na participação de aulas presenciais (F2F) na carga horária total elevaria os custos em cerca de R$ 13,50 por aluno ao mês. Já um aumento equivalente em aulas remotas ao vivo acrescentaria aproximadamente R$ 4,50 por aluno ao mês.
Em simulação que considera a implementação integral da nova regulação com base nos números de 2024, o banco conclui que companhias mais expostas ao ensino a distância (DL) apresentam maior risco de pressão sobre lucros, por exigirem maior mobilização de custos variáveis — ou seja, têm “mais a perder”, ainda que aparentem estar melhor posicionadas para se adaptar.
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Entre as empresas analisadas, a mais exposta seria a Vitru Brasil, com impacto potencial de 22% no EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizaç~eos) de 2024. Na sequência aparecem Cogna (COGN3; 12%), Cruzeiro do Sul Educacional (CSED3; 10%), Ser Educacional (SEER3; 6%) e YDUQS (YDUQ3; 5%).
Segundo o banco, apenas Vitru e Cogna seriam materialmente afetadas pela descontinuação da enfermagem EAD. Desconsiderando esse fator e assumindo apenas maior custo de ensino, o impacto estimado cairia para 17% e 6%, respectivamente. Já Anima Educacao e Afya teriam exposição considerada irrelevante.
Como a implementação deve ocorrer somente após o período de transição que termina em meados de 2027, os resultados de 2026 não devem refletir os custos adicionais. Dessa forma, o Morgan Stanley avalia que o mercado não deve precificar esse impacto no curto prazo. Apesar de manter visão estruturalmente mais cautelosa, o banco destaca que suas recomendações estão ancoradas principalmente nas perspectivas de curto prazo.
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Perspectivas para 2026
O Morgan Stanley avalia que o setor deve enfrentar pressão de preços, desaceleração na captação de alunos e poucos catalisadores relevantes para expansão de margens em 2026, deixando a queda dos juros como principal vetor de desempenho das ações.
Em relação a preços, o banco observa que, com estruturas de custo amplamente inalteradas, há espaço limitado para reajustes nas mensalidades. Os incentivos seguem voltados para políticas comerciais mais agressivas, com o objetivo de maximizar ocupação enquanto as exigências regulatórias permanecem flexíveis até meados de 2027. Mesmo em um cenário de aumento futuro de custos, o repasse para as mensalidades tende a ser restrito, diante da elasticidade da demanda, da forte concorrência e das margens já elevadas das incumbentes.
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No que diz respeito à captação, a expectativa é de volumes estáveis ou em queda no ensino a distância e híbrido — com retração no EAD e expansão do híbrido — além de crescimento moderado nos cursos presenciais (OC). A principal exceção seria a Cogna Educacao, que deve manter postura comercial agressiva, sustentando crescimento de volumes em dois dígitos.
Em termos de margens, o Morgan Stanley avalia que, com operações já otimizadas e receitas desacelerando, o potencial de expansão se torna mais limitado. Apesar de crescimento robusto de receita, Cogna e Afya devem registrar maior compressão de margens — no caso da Cogna, pelo mix mais pressionado (OC e Saber), e no da Afya, pelo ganho de escala em unidades de negócios menores, como educação continuada e soluções digitais. Por outro lado, Ser Educacional e Cruzeiro do Sul Educacional tendem a apresentar leve expansão de margens, apoiadas na maturação de vagas de medicina e na alavancagem operacional.
Quanto aos lucros, na ausência de catalisadores operacionais relevantes, o banco entende que a queda dos juros passa a ser o principal motor para o setor, especialmente para empresas mais alavancadas, como a Anima Educacao.
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No campo do fluxo de caixa livre (FCF), embora haja maior foco de empresas e investidores na geração de caixa, o Morgan Stanley não enxerga yields particularmente atrativos no momento, considerando o custo de capital ainda elevado — influenciado por volatilidade, alavancagem e riscos regulatórios — e perspectivas de crescimento mais moderadas.
Medicina
O Morgan Stanley destaca que, após um aumento de 16% na oferta de vagas, a pressão agora se desloca para a limitação de novas autorizações, enquanto a dinâmica negativa de preços ainda persiste.
Atualmente, existem cerca de 53 mil vagas de medicina — alta de 16% desde junho de 2024 — e o banco estima que esse número pode chegar a 55 mil, considerando pedidos pendentes, o que representaria avanço de 20% no período. Diante de preocupações com qualidade e restrições de capacidade hospitalar, o Ministério da Educação (MEC) cancelou o programa Mais Médicos 3 (movimento avaliado como neutro) e busca suspender vagas de instituições com desempenho insatisfatório no ENAMED.
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Segundo o banco, essas penalidades poderiam reduzir a oferta em aproximadamente 6%. O impacto inicial para as companhias listadas seria limitado, entre 0% e 1% da receita no primeiro ano. No entanto, efeitos acumulativos no longo prazo podem se tornar relevantes caso as suspensões se prolonguem nos anos seguintes.
Na análise de participação de mercado, o Morgan Stanley avalia que Cruzeiro do Sul Educacional (CSED3) e Cogna (COGN3) poderiam ganhar espaço caso concorrentes locais sejam penalizados. Por outro lado, a YDUQS (YDUQ3) tende a perder mais participação, dada a presença de unidades com desempenho considerado insatisfatório no exame.
De forma geral, o banco entende que as margens dos cursos de medicina devem sofrer estruturalmente no longo prazo, pressionadas por três frentes: aumento da oferta de vagas, demanda potencialmente menos atrativa pela carreira e elevação de custos, especialmente com escassez de professores e despesas com estágios.
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Confira as recomendações por papel:
Anima Educacao (ANIM3)
O Morgan Stanley reiterou preferência por Ânima, com recomendação de compra e elevou preço-alvo de R$ 5,50 para R$ 6,50, apesar de o crescimento da receita continuar abaixo dos pares, os ventos contrários na captação devem se estabilizar.
Além disso, o banco destaca que há catalisadores de curto e longo prazo (queda de juros, valuation atrativo frente à expansão de lucros e proteção diferenciada contra riscos regulatórios).
Ser Educacional (SEER3)
A Ser também teve recomendação de compra reitera, com preço-alvo passando de R$ 14,50 para R$ 15, pois o Morgan Stanley vê um caminho de expansão de lucros impulsionado pela maturação de 360 novas vagas de medicina (não se perpetuam vagas judicializadas sem credenciamento) e por um momento favorável após fortes ciclos de captação em 2024 e 2025, apesar de bases de comparação mais difíceis no 1S26.
Cruzeiro do Sul Educacional (CSED3)
O Morgan Stanley elevou a recomendação da Cruzeiro do Sul de neutro para compra, graças à uma visão mais construtiva para a margem estrutural, à medida que a companhia se beneficia de melhorias consistentes em custos e na gestão de recebíveis. O preço-alvo foi elevado de R$ 6 para R$ 8
Vitru Brasil (VTRU3)
A exposição ao impacto regulatório de longo prazo é mais relevante que a dos pares, mas esses efeitos foram postergados no horizonte de análise, levando a uma elevação da recomendação de venda para neutra, na qual catalisadores de curto prazo prevalecem, como geração de caixa e desalavancagem. O preço-alvo passou de R$ 12,50 para R$ 17,50.
Ainda assim, receita e EBITDA estão desacelerando, e o desconto de múltiplos da Vitru diminuiu.
O Morgan Stanley manteve recomendação neutra, mas elevou preço-alvo de R$ 3,60 para R$ 4, um vez que a empresa ajustou bem sua estratégia comercial, combinando captação agressiva com provisões conservadoras, o que permitiu crescer acima dos pares em um período crítico do setor.
No entanto, com valuation elevado, catalisadores de queda (como compressão de margens e maior evasão) parecem mais prováveis do que surpresas positivas, dadas as expectativas altas, posicionamento mais concorrido e exposição relativamente maior a riscos regulatórios.
Apesar de se esperar recuperação moderada de resultados após uma entrega fraca, 2026 não deve ser necessariamente menos desafiador. O consenso sugere risco de não cumprimento do guidance de EPS, e projeta-se queda do fluxo de caixa livre devido a bases de comparação difíceis em capital de giro.
Além disso, os múltiplos parecem elevados, em linha com Cogna e acima de outros nomes do setor. Com isso, o banco manteve recomendação de venda para Yduqs, com preço-alvo de R$ 14.
FonteCâmara dos Deputados