A ação do governo Trump na Venezuela mexeu com a dinâmica do mercado petrolífero mundial. Rodrigo Leite, professor de Finanças e Controle Gerencial do Coppead/UFRJ, explica o panorama e analisa possíveis interferências nos projetos brasileiros neste setor, bem como quais as providências necessárias para que o Brasil continue sendo atrativo aos investimentos.
Como a Venezuela muda hoje o contexto global do mercado de petróleo?
A retomada da produção de petróleo na Venezuela, impulsionada por movimentos geopolíticos recentes que envolveram maior atuação dos Estados Unidos na economia venezuelana, reintroduz um elemento de complexidade no cenário internacional de energia, marcado por excesso de oferta e pressões sobre preços.
Após anos de queda drástica, com produção que chegou a ser de apenas 500 mil b/d em 2020 e recuperou para pouco mais de 1 milhão b/d em 2025, a perspectiva de ampliação dos volumes venezuelanos está atraindo atenção de mercados e petroleiras, apesar de entraves estruturais significativos.
A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo, estimadas em cerca de 300 bilhões de barris, sobretudo de petróleo pesado e extrapesado, que exige maior uso de diluentes e tecnologia específica para refino.

Embora esses volumes não se traduzam em uma correspondente produção elevada no curto prazo, a reabertura gradual ao capital estrangeiro, especialmente das empresas americanas, cria um ambiente de competição com projetos de alto custo em outras geografias.
No contexto global, o excesso de oferta previsto para 2026 tem mantido os preços sob pressão e levado investidores a serem mais seletivos. Projetos de petróleo de elevado custo marginal tornam-se, em tal ambiente, menos atrativos em comparação com oportunidades de produção com custos relativamente menores ou com potencial de ramp-up rápido.

Como o cenário atual da Venezuela pode interferir no projeto estratégico de petróleo brasileiro?
Para o Brasil, que aposta no pré-sal e em expansão de sua produção na Margem Equatorial, a competição por investimentos se torna mais intensa. Mesmo com vantagens em qualidade de óleo e escala, projetos profundos brasileiros enfrentam desafios de custo e capital, especialmente enquanto grandes petroleiras avaliam retornos sob um cenário de preços moderados e oferta global robusta.
Além disso, embora a concorrência direta entre petróleo brasileiro e venezuelano seja mitigada pela diferença na qualidade do óleo (o brasileiro do pré-sal tende a ser mais leve e de maior valor agregado), a percepção de risco e de atratividade regulatória e política pesa na alocação de capital.
A Venezuela, apesar de seus problemas de governança e infraestrutura, apresenta uma oportunidade estratégica para empresas que buscam expandir ativos em mercados ricos em reservas desde que as condições jurídicas e de estabilidade política sejam reforçadas.
O que o Brasil precisa fazer para se tornar atrativo neste cenário?
A evolução dessa dinâmica coloca destaque na necessidade de o Brasil aperfeiçoar sua estrutura regulatória e de atração de investimentos, reforçando a segurança jurídica e fiscal de longo prazo. Isso é vital para que projetos de maior custo, mas com elevado potencial de retorno e impacto econômico local, como os do pré-sal brasileiro, continuem competitivos frente as oportunidades emergentes na Venezuela e em outras regiões petrolíferas.

Fonte Monitor Mercantil